sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

"Eu não acho que seja possível preencher um espaço vazio com aquilo que você perdeu. (...) Não acho que nossos pedaços perdidos caibam mais dentro da gente depois que eles se perdem." - Resenha do livro "O Teorema Katherine" - John Green

Para roubar um coração, é preciso que seja com muita habilidade. Tem que ser vagarosamente, disfarçadamente, não se chega com ímpeto, não se alcança o coração de alguém com pressa. Tem que se aproximar com meias palavras, suavemente, apoderar-se dele aos poucos, com cuidado. Não se pode deixar que percebam que ele será roubado, na verdade, teremos que furtá-lo, docemente. Conquistar um coração de verdade dá trabalho, requer paciência, é como se fosse tecer uma colcha de retalhos, aplicar uma renda em um vestido, tratar de um jardim ou cuidar de uma criança. É necessário que seja com destreza, com vontade, com encanto, carinho e sinceridade. Para se conquistar um coração, definitivamente tem que ter garra e esperteza, mas não falo dessa esperteza que todos conhecem, falo da esperteza de sentimentos, daquela que existe guardada na alma em todos os momentos. Quando se deseja realmente conquistar um coração, é preciso que antes já tenhamos conseguido conquistar o nosso próprio, é preciso que ele já tenha sido explorado nos mínimos detalhes, que já se tenha conseguido conhecer cada cantinho, e entender cada espaço preenchido e aceitar cada espaço vago. Somente então, quando finalmente esse coração for conquistado, quando tivermos nos apoderado dele, vai existir uma parte de alguém que seguirá conosco. Uma metade de alguém que será guiada por nós e o nosso coração passará a bater por conta desse outro coração. 

É desta forma que Colin, o grande protagonista desta história aprende através de milhares de desilusões amorosas e um teorema matemático maluco, a partilhar seu coração com alguém especial. 

Em o Teorema Katherine, conhecemos Colin Singleton, um garoto prodígio que ama fazer anagramas com qualquer palavra que exista dentro e fora do dicionário. Colin possui um único e grande amigo, Hassan, e é através dele e sua forma cômica de enxergar a vida, que eles embarcam em uma grande aventura em busca de se tornarem alguém importante no mundo. 

Tudo começa com o décimo nono pé na bunda que Colin leva de uma namorada. Todas as companheiras do nosso protagonista, ironicamente tem o mesmo nome: Katherine. Basicamente funciona da seguinte forma: Colin conhece Katherine. Katherine gosta de Colin. Colin e Katherine namoram. Katherine termina com Colin. É sempre assim. 

Para tirar o amigo da fossa, Hassan decide viajar de carro sem destino aparente, e os dois acabam parando e se instalando em uma cidade no Tennessee, intitulada Gutshot. Lá eles conhecem Lindsey e sua mãe, que os contrata para trabalhar em um projeto muito importante da cidade: entrevistar todos os moradores mais antigos de Gutshot, e montar um documentário de memórias daqueles que fizeram a verdadeira história da cidade. Nesse ínterim, Colin possui um momento "eureca", e passa a trabalhar em um teorema matemático que irá predeterminar quanto tempo um relacionamento amoroso durará, e qual dos dois será o terminante e ou o terminado. Ao longo do caminho, Colin percebe que talvez seja a hora de deixar um pouco de lado os fatos e teorias, e se entregar aos prazeres da vida, dando uma simples chance ao acaso. 

O livro é repleto de gráficos e fatos aleatórios, que trazem um lado de humor bem simpático ao livro, mas a narrativa de John Green logo se sobrepõe aos fatores matemáticos, e torna a leitura de O Teorema Katherine uma experiencia com momentos bem auto reflexivos.  

O livro me levou a seguinte teoria: Egoísmo e amor- próprio estão longe de serem idênticos, e de fato são bem opostos. A pessoa egoísta não ama a si mesma demasiadamente, mas muito pouco, com efeito, ela se detesta. Essa falta de ternura e desvelo por si mesma, que é apenas uma expressão de sua falta de produtividade, deixa-a oca. Ela forçosamente se sente infeliz e ansiosamente preocupada em agarrar com avidez as satisfações da vida que ela impede a si mesma de conseguir. Parece aquietar-se por demais consigo mesma, mas na verdade o que faz é tão só uma má tentativa de disfarçar e compensar sua deficiência para cuidar de seu verdadeiro eu. Freud alega que a pessoa egoísta é narcisista, como se tivesse retirado seu amor pelos outros e o tivesse voltado para a própria pessoa. É fato que os egoístas são incapazes de amar a outros, mas não são tampouco capazes de amar a si mesmos.  É desta maneira que enxerguei Colin e seus milhares de devaneios em querer absurdamente achar uma formula para descobrir o porque nenhum dos seus 19 relacionamentos deram certo. Existe um motivo afinal para as consequências dos acontecimentos? Se sim, eles podem ser explicados e provados? 

Eu respondo que sim. Eles podem. Desde que primeiro a resposta esteja dentro de nós mesmos. Como já dizia Martha Medeiros: "Morre lentamente quem não encontra graça em si mesmo". 

O Teorema de Katherine deveria ser o teorema da Milena, o teorema do João ou da Cláudia. Cada qual temos um teorema que nos define como pessoas, que nos guiam como objetivo, que nos desafiam como derrotas e que nos angariam como conquistas. 

Comecei a resenha falando de entender cada espaço preenchido dentro de nossos corações, e acima de tudo, aceitar os espaços vagos. Aceitar que um espaço que foi deixado vazio, não necessariamente deve caber dentro da gente, ou mesmo ser substituído por um outro espaço, mais sim ser entendido e aceito como um espaço nosso, que nos fez e faz ser o nosso próprio teorema de vida. 

Não é roubar um coração, mais assim aceitar um coração. Até porque é através da aceitação que nasce aquilo que tanto almejamos na vida: o amor verdadeiro. 

Colin Singleton, obrigada por me proporcionar o entendimento do Teorema Milena.

Espero que com essa leitura, você também defina seu próprio teorema.

Minha nota: 8,0


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

“O amo tanto que, se pudesse, dançaria contigo para sempre sobre cacos de vidro.” Resenha do livro "Dançando sobre cacos de vidro" - Ka Hancock

Ele estendeu os braços e eu caminhei lentamente para me aninhar entre eles e me abrigar no único lugar que para mim era o lar.
Desta maneira, inicio uma das resenhas que provavelmente se tornará a minha preferida.
Lucy Houston e Mickey Chandler não deveriam se apaixonar. Os dois sofrem de doenças genéticas: Lucy tem um histórico familiar de câncer de mama extremamente agressivo, e Mickey possui um grave transtorno bipolar. No entanto, seus caminhos se cruzam no dia em que Lucy completa 21 anos, e decide comemorar seu aniversário no bar onde Mickey trabalha como administrator e comediante.

A partir deste dia, e contrariando toda a lógica que indicava que suas histórias não passariam de uma noite e nada mais, eles se casam e firmam, por escrito, um compromisso de fazer o relacionamento dar certo. Sim, os dois escrevem juntos um contrato que impõe regras devido as doenças que ambos carregam como um carma para o resto de suas vidas. Mickey promete tomar os remédios diariamente. Lucy promete não culpa-lo pelas coisas que ele não pode controlar. Mickey será sempre honesto e Lucy será sempre paciente. Toda relação possui momentos bons e ruins, mas Mickey e Lucy possuem dias extraordinários e dias completamente terríveis.

Depois de Lucy quase perder uma batalha contra o câncer, eles criam mais uma regra no contrato: nunca terão filhos, para além de não passar adiante a herança genética de sua família, a criança também nunca ter que lidar com um ser humano que ora está consciente de seus atos, e ora encarna um personagem completamente desmistificado da realidade.

Como toda boa história de amor, ou talvez seja de vida, a grande reviravolta acontece no aniversário de 11 anos do casamento de Michael e Lucy. Uma noticia que mais parece um milagre do que uma notificação, chega para jogar todas as regras pela janela e fazer redescobrir o verdadeiro significado do amor dentro de duas almas perturbadas pelo medo e a insegurança.

Já que o protagonista principal desta história é o amor, vamos falar um pouco sobre como ele pode se manifestar de diversas maneiras: Priscilla e Lily são mais do que as irmãs de Lucy, diria que a vida obrigou de certa maneira a se tornarem quase alma gêmeas. Depois que seu pai as deixa muito jovem, e sua mãe perde uma batalha contra o câncer quando ainda são adolescentes, a estrutura familiar tem duas opções de continuar a existir: se esfarelar ou se unir em um laço eterno impossível de se quebrar. (Neste caso a segunda opção é a que mais se encaixa). Já Michael perdeu sua mãe para a bipolaridade, e passou os dias lutando contra e a favor de suas diversas personalidades. O amor para Michael é o porto seguro de Lucy e o de Lucy é o apoio de suas irmãs.

Mas na verdade, o que quero falar aqui é de um outro tipo de amor. O amor que ninguém no inicio consegue ver ou pegar nas mãos, mas consegue sentir pelo simples fato de ter a consciência que ele é fruto da junção de um sentimento maior: a cumplicidade. Sim, Lucy e Michael estão grávidos, e o mais intrigante é que anos antes, quando Lucy esteve com câncer e levando em consideração os transtornos de Michael, foi decidido pelo casal que ela passasse por uma cirurgia que não a permitiria ter filhos. De alguma maneira, aqui julgue uma brincadeira ou não do destino, o embrião conseguiu chegar até o útero e de certa forma obrigar a família a aumentar.

Então um dilema começa na vida do casal. Eles não poderiam ter filhos por diversas razões: Mickey não saberia como reagir devido ao seu transtorno, Lily havia perdido um filho e foi combinado entre as irmãs que nenhuma delas jamais engravidaria, e Lucy vivia tendo pesadelos que seu câncer voltaria. E infelizmente é aqui que a história efetivamente começa. Em exames rotineiros, Lucy descobre que está novamente com câncer de mama, e o pior, com uma metástase espalhada por todo o seu pulmão. Por conta dessa devastadora revelação, Mickey, os médicos, amigos e a própria família de Lucy decidem que o melhor a ser feito para salvar sua vida é que ela aborte a criança e inicie o tratamento agressivo contra a doença. Porém, no momento em que ela chega ao consultório para realizar o procedimento, Lucy sente a presença da morte, já que desde criança, ambas mantém um contato implícito devido o falecimento de seus pais. Desesperada, Lucy decide que terá a criança, mesmo que o preço a pagar por isso fosse muito caro. É aqui que li uma das frases que mais me marcou ao longo da leitura, e ela vem justamente de Michael:
"Descobri que a realidade é muito mais cruel que a loucura. A loucura pode ser medicada, reduzida, sedada".

 A loucura está sob a perspectiva triste e ao mesmo tempo feliz em acompanhar a batalha de Lucy contra o câncer, e é maravilhosamente incrível saber que ela não desistiu de sua tão sonhada filha. Desde que descobriu que estava carregando um bebê, Lucy tem a certeza de que será uma menina, e é esse vínculo impressionante que uma mãe cria com seu filho que faz com que Lucy aguente até os últimos segundos de vida para dar a sua própria em troca da vida de outro ser humano.
Michael não entende o porque sua amada esposa está desistindo de viver por causa de uma criança, e chega a odiar a filha por muitos meses. O livro passa a se tornar espetacular quando te faz enxergar de forma sincera o que realmente significa a palavra que todos buscam sentir incessantemente na vida: o amor.
"Haverá momentos em que vocês dançaram sobre cacos de vidro. Haverá sofrimento. Nesse caso, ou você fugirá ou aguentará firme até o pior passar."
Com esta belíssima obra, me peguei pensando sobre o porque o amor acaba se tornando uma redenção de diversos outros sentimentos. Para conseguir amar, é preciso mais do que companheirismo, levar ao cinema ou dizer que ama. Para amar, deixamos de ser egoístas, enfrentamos o mundo e os pedregulhos da vida, aprendemos que um vira dois, que dois viram um, que acordar e dormir se torna um motivador, que cuidar do jardim é mais importante que esperar que ele floresça o tempo todo, que ter paciência se torna um sobrenome, que perdoar faz parte das horas, que se ganha mais do que se perde, e que sempre existirão cacos de vidro, o importante é conseguir junta-los até que formem uma vidraça indestrutível e inabalável.

Michael e Lucy significam a junção de muitos sentimentos que formam um único na linha de chegada. Explico o porque:

 Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue. Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo. Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego. Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu sair de seu pensamento. Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa. Certeza é quando a ideia cansa de procurar e para de existir. Intuição é quando seu coração dá um pulo no futuro e volta rápido. Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista. Vergonha é um pano preto que você quer para se cobrir em determinados momentos. Ansiedade é quando sempre faltam muitos minutos para o que quer que seja. Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento. Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado. Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes. Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração. Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma. Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta para os outros. Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas geralmente, não podia mesmo. Lucidez é uma acesso de loucura ao contrario. Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato. Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele. Paixão é quando apesar da palavra perigo, o desejo chega e entra sem pedir permissão. Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. O amor também não é um exagero, é um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um desproposito, um descontrole, uma necessidade e um desapego. Talvez porque não tenha sentido, talvez porque não tenha explicação, esse negocio do amor ninguém consegue explicar. Mais eu consigo explicar da seguinte maneira: Michael é Michael e Lucy é Lucy, um complemento eternamente perfeito.

Acabo esta resenha deixando a frase final de um dos livros mais impressionantemente verdadeiros que já li:
Amo você, meu bem. Mas não estarei aqui quando você acordar.
Minha nota: a maior que existir.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

"O coração das mães é um abismo no fundo do qual se encontra sempre um perdão" - Resenha do livro "Segredos e Mentiras" - Diane Chamberlain

 
 Ser mãe é uma confusão. Uma mistura tão intensa de sensações e sentimentos que dificilmente quem não é, entende. Ser mãe é uma verdadeira caixinha de surpresas. Toda mulher está preparada para ser mãe, mas ainda não sabe. Quando chega a hora está lá, como item de fábrica.
 
 Ser mãe é saber que é “hora de quê” sem olhar no relógio. É não ver o dia passar. É saber que o mês passou só quando perguntam quanto tempo o seu filho tem. Ser mãe é se encher de orgulho quando falam “Nossa! Como seu filho está grande!”. Ser mãe é ser assim. Forte sem ter noção da força. É escolher com o quê ter paciência. É descobrir uma nova mulher em si a cada dia. É não se importar com o resto do mundo, mas chorar ao pensar em que mundo seu filho vai crescer. Ser mãe é não pensar tanto no futuro. É ter vontade de olhar fotos antigas para ver com quem o filho realmente se parece. Ser mãe, aliás, é achar que um dia ele é a sua cara, mas no outro de seu só tem o pé. Ser mãe é achar tudo lindo, tudo engraçado, tudo novo. É estar atenta as descobertas sem interferir muito. É aplaudir o acerto e ser firme no erro. Ser mãe é não ter sono. Ou ter e fingir que ele não existe. É deixar de lado a vaidade, mas se achar linda com olheiras e tudo o mais que vem no pacote. 

 Ser mãe é conseguir. Conseguir amamentar, deixar na escola, com a babá, e principalmente, deixar crescer. É conseguir entender o choro e deixar chorar. Ser mãe é ficar parada na beira do berço. É dizer “Deus te abençoe”. É entender que o amor existe em diversas formas, inclusive nessa, tão pura e transparente.

 É não pensar mais em morte, é entender a vida. Ser mãe é aguentar o tranco. É sentir dor nas costas, nas pernas, nos braços. E não sentir mais nada quando um sorriso se abre, quando um choro começa ou a tosse dispara. Ser mãe é discutir com o pediatra, é questionar o medicamento, é acreditar nas dicas da avó. Ser mãe é renovar laços. Com si próprio, com a família e com as tradições. Ser mãe é ter e ouvir os instintos. É ser desconfiada como a raposa e ágil como a lebre. Ser mãe é ser filha também. É mais aprender do que ensinar e mais ensinar do que aprender.

 Ser mãe é entender o começo de tudo. É procurar explicações bem no fundo. É suspirar. É concordar discordando. É, desde o exame positivo, nunca mais estar sozinha, e mesmo sozinha, ter em quem pensar. É estar perto mesmo longe. Ser mãe é seguir em frente. É não deixar que o tempo pare e é achar que passa na verdade rápido demais. Ser mãe é ser mãe, simples e tão complexo assim.

 Para falar do livro de Diane Chamberlain, precisei primeiro pensar sobre como é ser responsável por outro ser humano. Vocês já pegaram um livro na mão, que aparentemente não lhes pareceu nada demais, mas que te tocou de uma maneira tão profunda, que você passou dias e dias encarando silenciosamente sua vida e aqueles pelo qual já sofreram ou sofrem por você? Para mim aconteceu exatamente isso. Explico o porquê.

 A história gira em torno de três personagens: Emy, Tara e Noelle. Elas são melhores amigas desde a faculdade e agora, já adultas, com família constituída, essas três mulheres parecem conservar e fortalecer a amizade construída há anos. Mas algo está prestes a mudar a vida de Emy e Tara, e esse algo é Noelle. A mulher, aparentemente forte e segura de si, comete suicídio e levanta uma série de questionamentos e buscas por porquês por parte das amigas.

  A personagem responsável por toda a trama descobre ainda jovem ser filha adotiva de uma parteira, e acaba seguindo os passos de sua mãe, e se torna uma das melhores de sua região natal, sendo adorada e querida por muitas famílias, que discorrem sobre sua pessoa como possuindo mãos de anjo e uma verdadeira alma caridosa. Ela guarda, porém muitos segredos e com seu suicídio levanta questionamentos de valores morais e a descoberta de uma série de mentiras cometidas por ela.

 Tudo se desenrola quando descobrimos que Noelle ao conhecer Emy e Tara, percebe que foi abandonada pela mãe de Emy, e por ironia do destino sua melhor amiga é na verdade sua irmã. Seguindo os conselhos de sua mãe adotiva, Noelle guarda o segredo para si e só conta a Sam, o marido de Tara, pelo qual ela é perdidamente apaixonada.

 Vocês já podem imaginar que Noelle carrega dois grandes segredos de suas melhores amigas: ser irmã de uma e amante do marido da outra. Carregando a enorme culpa nas costas, Noelle resolve mudar sua vida e passa anos vivendo fora de sua cidade sendo barriga de aluguel para diversas mulheres incapacitadas de ter filhos. Quando retorna de seus anos sabáticos, Emy e Tara estão grávidas e prestes a ter seus bebês. Para compensar suas culpas, Noelle faz os partos das duas, e um grande segredo se revela na noite em que os filhos de suas melhores amigas nascem. Noelle deixa um dos bebês cair e morrer, que vem ser por sinal seu sobrinho, e com o medo torturante da revelação, Noelle rouba um bebê de outra mulher e o substitui pelo filho morto de sua irmã.

 O mistério todo se inicia quando Emy e Tara encontram junto ao corpo morto de Noelle uma carta escrita pela metade endereçada à Anna, a mulher que ela roubou a filha para dar a irmã, pedindo perdão pelos seus atos. Anna possui outra filha, que é portadora de câncer e procura incessantemente por um doador de medula. Tudo se encaixa quando a filha roubada que na verdade é de Anna, pode vir a ser a salvadora de Haley, a menina de 12 anos portadora da doença.

 Enquanto todas essas mentiras as fazem acreditar num segredo maior, Tara tem que lidar com a morte recente do marido, Sam, e uma filha adolescente revoltada. Enquanto isso, Emy tem de continuar sendo mãe e mulher, forte o suficiente para aguentar a perda de uma amiga e o luto da outra.

 Mesmo parecendo tratar-se de um livro que traz um enredo que está fadado ao tão temido ‘mais do mesmo’, posso garantir que Diane Chamberlain soube sair dessa zona de conforto de uma forma a tornar sua obra uma verdadeira fonte de inspiração e superação.

 A autora, que coloca como tema central do livro o segredo de Noelle, parece destrinchar os dramas que fazem parte da vida de qualquer um: o gerenciamento da família, o relacionamento entre pais e filhos e as escolhas que nós somos obrigados a tomar a todo o momento em nossas vidas.

 O livro ensina sobre amores, amizades, mentiras, segredos, relacionamentos, esperança e coragem. Sua narrativa tocante mostra-se não inovadora, mas multifacetada, ao ser contada sob o ponto de vista de vários personagens de várias idades, sem se perder na proposta primordial. Passado e futuro se mesclam sem confusão, e separados devida e adequadamente de forma a fazer o leitor situar-se bem e entender como o passado interferiu diretamente no drama que os personagens vivenciam a cada página virada.

 Mesmo achando que a autora pecou ao não desenvolver o final com a carga emocional que, pra mim, a história exigia, o final é ainda mais surpreendente. Talvez você esteja lendo essa resenha tentando desvendar o mistério, mas lhe garanto, não chega de perto a ser o que provavelmente você está pensando.

 Segredos e Mentiras não vai somente ter em mãos uma obra lindamente escrita, mas, uma história que lhe mostrará o quão imprevisível a vida e as pessoas podem ser, e que acima de tudo, você precisa ser corajoso o suficiente para enfrentar sozinho a dor que mais ninguém pode sentir por você. Agora faz sentido, o que é ser responsável por outro ser humano?


Minha nota: 10

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

"Sei que deve ser uma experiência muito ruim para você, mas acredito em milagres. Sei que parece brega, mas eu acredito." - Resenha do livro "Deixe a neve cair" - John Green, Maureen Johnson e Lauren Myrhcle.

Você gosta de matemática? Lembra-se daquelas expressões, onde no final, depois de somar, subtrair, dividir ou multiplicar, você obtém o valor exato de X? Acredito que nos acostumamos com isso, e achamos absolutamente normal encontrar um valor ausente através de um pouco de método e lógica, mas eu particularmente acho essa linguagem fantástica. E é a mesma matemática absurda que permite a criação de computadores, submarinos, naves espacial, satélites e por aí vai. Essa, em minha opinião, é apenas uma descoberta casual do homem.

É apenas na lógica que abrigam todas as respostas aos conflitos existenciais do ser humano? A matemática e a lógica transcendem a existência racional, e dá lugar há algo muito mais misterioso e sem a menor explicação, pelo menos até o presente momento: o acaso. O velho ditado "Nada é por acaso" tem um quê de romantismo, contudo, não é possível que esse mundo seja conduzido apenas de acasos. As pessoas se acostumaram com o mundo como ele é, assim como aceitam fatos incompreensíveis da vida como fatalismo, mas eu me nego a acreditar nisso. Vejo o mundo de forma grandiosa, até mesmo a nossa natureza limitada, porém livre, que nos força a superar nossos próprios limites, tanto como indivíduos, como em coletividade. Torço para que essa mesma coletividade não demore muito para compreender, finalmente, a grandeza da vida e a inteligência divina na qual vivemos imersos.

Iniciei desta maneira para falar sobre um livro que abriga justamente o mistério do acaso. “Deixe a neve cair” é um livro colaborativo, que reúne três contos que se passam durante uma nevasca natalina, e de certa forma, se cruzam em determinado momento formando uma única história. Não são simples histórias fantásticas de acasos no período mais altruísta do ano, mas sim, histórias de amor adolescente, recheados de misticismo e encontros interiores dignos de um espetáculo de cinema.

A primeira história (O Expresso Jubileu) escrita por Maureen Johnson, fala sobre Jubileu, uma adolescente de 16 anos portadora de um nome bem esquisito. Na véspera de Natal, ela é obrigada a pegar um trem para a casa dos avós, na Flórida. Obrigada porque seus pais cometeram um "pequeno" deslize natalino e foram parar atrás das grades. Claro que sua viagem não seria tão emocionante se o trem não atolasse no meio de uma nevasca, e ela se encontrasse cercada por um bando de cheerleaders insuportáveis e longe de seu namorado perfeito, que comemoraria com ela um ano de namoro no dia do Natal. Drama concluído, Jubileu em um momento de fúria extremada, resolve sair do trem e caminhar na neve até uma Waffle House, e é lá que conhece seu acaso: Stuart. Um simpático rapaz que muda literalmente seu caminho, e a faz refletir sobre aceitação. Quem nunca se contentou com migalhas? Jubileu namora um rapaz egoísta, que só possui tempo para si próprio, e sua importância em relação à namorada é nota dez negativo. Aqui vai minha primeira pergunta: Todo este drama precisava acontecer desta maneira para que Jubileu aceitasse sua condição, e tivesse a possibilidade de mudar sua história através de uma nova chance para si própria? Qual expressão matemática caberia neste caso? Subtração, certo? Tirar um para obter um melhor resultado no final.

O segundo conto escrito pelo aclamado John Green (O Milagre da Torcida de Natal), apresenta três personagens: Tobin, JP e Duke (a única menina do pequeno grupo). O trio de amigos está disposto a tudo por um pouco de diversão, afinal de contas, quem gosta de passar a véspera de Natal preso em casa por causa de uma nevasca assistindo a toda coleção de DVDS do James Bond? A emoção começa quando Tobin recebe uma ligação de seu amigo Keun, coordenador da Waffle House, alertando os amigos de que a nevasca paralisou um trem a caminho da Flórida, e a lanchonete está repleta de cheerleaders. Tobin e JP logo se animam e carregam Duke, que apesar de achar tudo uma babaquice adolescente, só consegue pensar nas batatas rosti que vai comer ao chegar à Waffle House. O conto basicamente fala sobre a saga do trio para chegar à lanchonete, dirigindo e caminhando no meio da neve pesada, enquanto tentam sobreviver aos outros valentões que têm o mesmo objetivo dos garotos. No meio desta aventura, o acaso chega de forma tímida para Tobin e Duke, que descobrem um sentimento mútuo um pelo outro, porém escondido pelas amarras da amizade. Então aqui vai minha segunda pergunta: Era necessário um carro quebrado, um par de pernas congelando e uma fuga articulada de policiais para que duas pessoas descobrissem que amam uma a outra? Se não fosse este episódio, os dois seguiriam seu caminho longe um do outro? Eu diria que a expressão matemática que melhor se encaixa neste caso é a soma. Tobin e Duke aprenderam nessa jornada a somar uma grande amizade, e a descoberta de um amor adormecido resultando em uma parceria perfeita.

O terceiro e último conto (O Santo Padroeiro de Porcos) escrito por Lauren Myracle, fala sobre Addie, uma adolescente deprimida pelo fim de seu relacionamento com Jeb. O fato, é que durante o conto descobrimos que Addie é uma menina egocêntrica, que mete os pés pelas mãos muitas vezes, mas está disposta a mudar isso e quer mostrar essa mudança a todos que conhece. Tudo começa quando Addie quer mudar o namorado e o acaba traindo com Charlie, porque acha que seu protótipo de perfeição nunca vai existir. Quando sua ficha começa a cair de que a perfeição não existe nem no outro e nem dentro dela, ela pede para que Jeb a encontre em seu local de trabalho, porém o mesmo está dentro do trem que estava indo a Flórida, e ele não consegue comunicação com sua amada para explicar que está preso em um Waffle House devido a uma forte nevasca. O que Addie logo entende é que seu ex-namorado não vai aparecer e muito menos a perdoar pelos seus erros, e o drama todo parte daí. Suas melhores amigas a consolam e a forçam a enxergar que seu egocentrismo têm que acabar, e então uma delas lança um desafio à amiga: ela comprou um mini porquinho chamado Gabriel e pede a Addie para busca-lo no primeiro horário em uma loja que fica a apenas um quarteirão do seu local de trabalho. Claro que Addie não consegue cumprir sua missão, mais uma vez por só pensar em si própria e nos seus problemas, quando o acaso lhe coloca uma senhora em sua vida, que diz uma das melhores frases do livro: “Não é o que o universo nos dá que importa. É o que nós damos ao universo". Desta maneira Addie percebe todos os erros cometidos até então e alcança a redenção e a compreensão de que o problema externo na verdade estava o tempo todo habitando o seu interior. Minha terceira e última pergunta: É na dor que aprendemos a nos enxergar verdadeiramente e buscar a melhoria de nossos atos perante o coletivo? Neste caso eu diria que Addie usou da divisão matemática para aprender que nem tudo gira em torno de si própria, às vezes é necessário sair de dentro da caixa para conseguir enxergar o outro.

Neste caso só faltou à multiplicação, então convido a você leitor, que multiplique estas pequenas histórias para a sua vida e a dos outros que conhece, até porque, não temos que esperar que só o acaso trabalhe ao nosso favor. Nós também podemos enxergar em nós próprios nossas expressões matemáticas e somar, subtrair, dividir e multiplicar nossos atos a nosso favor e da sociedade que vivemos. Está esperando o que para achar o seu resultado perfeito?

Minha nota: 8,5

sexta-feira, 25 de julho de 2014

“Toda pessoa deveria ser aplaudida de pé pelo menos uma vez na vida, porque todos nós vencemos o mundo.” Resenha do livro "Extraordinário" - R. J. Palacio

"Não importa o que você seja quem você seja ou o que deseja para a sua vida. A ousadia em ser diferente reflete na sua personalidade, no seu caráter, naquilo que você é verdadeiramente. É assim que as pessoas lembrarão de você um dia."

O livro de estreia da americana R.J. Palacio traz à tona a luta contra o preconceito ao contar a história comovente e simpática de um menino de 10 anos de idade, que nasceu com uma síndrome genética cuja sequela é uma severa deformidade facial. Dizem que o seu rosto é o seu cartão de visita, mas o protagonista desta história, August, vem provar que as coisas não são como dizem por aí.

O livro começa sendo narrado pelo próprio August, contando um pouco como é viver enclausurado dentro um rosto pouco comum. Com pitadas de humor, o pequeno grande homem narra em detalhes as dezenas ou talvez milhares de cirurgias a qual já foi submetido em apenas 10 anos de vida, e como ele tem consciência, com tão pouca idade, o quanto um rosto pode bagunçar a vida de muitas pessoas.

August Pullman é fruto de combinações genéticas muito pouco usuais, e por isso, ele nasceu com uma má formação craniana, que faz com que cada parte do seu rosto pareça errada: olhos caídos e baixos demais, bochechas encovadas, uma boca estreita e orelhas praticamente inexistentes. Ao ler essa descrição, como você se sentiria se cruzasse com alguém semelhante na rua? Se assustaria? Abaixaria os olhos para não olhar? Faria uma expressão de susto e medo, e ao mesmo tempo de pena? O incrível é que, por mais que o ser humano possua princípios e ideais, ainda não conseguimos controlar nossas reações à incompreensão de fatos incomuns. E a graça do livro mora justamente no entendimento desta incompreensão. Extraordinário consegue captar o impacto que um menino pode causar na vida e no comportamento de todos, família, amigos e de toda uma comunidade. Já adianto que é um impacto forte, comovente, e sem dúvida nenhuma, extraordinariamente positivo.

Por causa de seu rosto e como consequência alguns problemas respiratórios e auditivos, August sempre estudou em casa com a sua mãe, porém, seus pais acreditam que chegou o momento dele encarar uma escola de verdade, e é quando eles matriculam o filho na Beecher Prep. Quando pequeno August costumava usar um capacete de astronauta para se esconder das pessoas, mas na escola isso não será mais possível, então pela primeira vez, ele vai sentir o que é ser diferente dos demais.

O livro se torna brilhante, quando a cada inicio de um capitulo, somos surpreendidos por narradores diferentes. Em um capítulo somos apresentados a Olivia, irmã de August, depois a algum de seus novos amigos da escola e por último, de volta a August. Essa foi uma estratégia e tanto da autora, porque ela fez exatamente o que nós deveríamos ter feito em todo o momento: conhecer August às cegas, para que percebêssemos que ele não passa de um menino comum como qualquer outro da sua idade, para só depois nos atentar ao fato de que ele possui uma síndrome genética.

O livro possui muitos trechos que nos trazem para uma realidade que acima mencionei ser a principio, incompreensível. "Nós não precisamos de olhos para amar, certo? Apenas sentimos dentro de nós".

Além de amor, vou falar sobre o sentimento pouco praticado pelo homem, mas que depois de ler este livro, me peguei pensando o porquê da vida ser tão complexa quando nos falta, gentileza. Não basta ser gentil. Devemos ser mais gentis do que precisamos. O ser humano não carrega apenas a capacidade de ser gentil, mas a opção pela gentileza. Em um dos capítulos, August conversa com sua amiga Summer, e o mesmo pergunta a ela "Você acredita que quando morremos, nós nascemos de novo em outro corpo?". Quando Summer responde que sim, acredita que todos têm uma segunda chance de voltar, August se anima com o fato de em sua segunda chance não nascer com um rosto deformado.

O que o próprio August não percebe, é que mesmo sofrendo tanto preconceito, ele causa um impacto enorme na vida das pessoas. A obra de Palacio nos mostra que cada pessoa, seja quem for, é responsável também pela vida daqueles que a cerca. Extraordinário é uma história simples, porém que emociona, e mostra através da inocência de crianças, como pequenas ações podem mudar a vida de alguém: o estender de uma mão, um sorriso, um abraço, uma pequena e imensa aceitação, ou apenas um toque de conforto. Com quantos August você tromba sem querer todos os dias? Pode ser que ele não tenha um rosto deformado, mas pode estar simplesmente precisando de um ombro amigo e de uma palavra de encorajamento. Pode estar apenas precisando mostrar do que é capaz. Porque, como o próprio August diz: "Toda pessoa deveria ser aplaudida de pé pelo menos uma vez na vida, porque todos nós vencemos o mundo".

Deixo aqui um preceito para servir de reflexão e também, de motivação para a leitura desta grande história:

"Faça todo o bem que puder de todas as maneiras que puder de todas as formas que puder, em todos os lugares que puder em todos os momentos que puder, sempre que puder". - Regra de John Wesley

Por fim queria dizer: August, você é mesmo extraordinário!

Minha nota: 10

sexta-feira, 11 de julho de 2014

"O passado não me ofusca, nem o futuro. Concentro-me no presente, porque é nele que estou destinado a viver" - Resenha do livro "Todo dia" - David Levithan

"Nunca vou ter uma fotografia dela para levar no bolso. Nunca vou ter uma carta com a letra dela, nem um álbum de recortes com tudo que fizemos. Nunca vou dividir um apartamento com ela na cidade. Nunca vou saber se estamos ouvindo a mesma canção na mesma hora. Não vamos envelhecer juntos. Não vou ser a pessoa para quem ela liga quando tem problemas. Ela não vai ser a pessoa para quem vou ligar quando tiver histórias para contar. Nunca vou conseguir guardar nada que ela me deu. Apenas digo adeus enquanto a observo dormir. Fecho os meus olhos, e também adormeço".

É desta maneira que vive A, um garoto ou uma garota de 16 anos que todos os dias vive uma vida diferente em um corpo diferente por exatas 24 horas, até pular para o próximo corpo e para a próxima vida. Não há uma definição clara do que A seria: um humano, um espírito, um alienígena ou uma entidade. Na verdade, o que menos importa é saber o que é A, e sim, entender que, sendo o que ele for, ele é capaz de sentir. E porque não sentir o sentimento mais nobre de todos? O amor?

A é assim desde a sua existência, embora ele só tenha memórias a partir de quando era criancinha, como nós mesmos, afinal, é difícil alguém se lembrar de algo quando era bebê.  Conforme os capítulos se desenrolam, vamos entendendo melhor a vida de A, e a forma como ele lida com a sua suposta missão, qual o seu papel em um universo tão complexo chamado vida. Ele não têm a menor ideia do porquê é assim, e também nunca se questionou muito a respeito disso, apenas sofreu como qualquer pessoa sofreria de não ter uma mãe, um pai ou irmãos para chamar de seu, nem o seu próprio guarda roupa,  nem seu estilo musical preferido, nem os seus melhores amigos, nem o seu livro preferido ou suas próprias manias, qualidades ou defeitos.

O que A aprendeu ao longo de seus 16 anos foi não interferir na vida das pessoas que tiveram seus corpos habitados por ele durante 24 horas. Ele apenas acorda, acessa as memórias mais relevantes do corpo para saber do que precisa para passar o dia, e continua apenas vivendo. Ele segue a risca o ditado "Cada ação, uma reação", e procura se abster de qualquer atitude que possa gerar conflito na vida daquele corpo quando no dia seguinte ele já tiver ido embora.

Tudo muda de cenário quando A acorda no corpo de Justin, e conhece sua namorada, Rhiannon. Quando Justin, ou melhor A, a encontra em uma rotina normal do casal, ele percebe nela uma grande tristeza, e a enxerga profundamente, diria que exatamente quem é a sua pessoa. Não é como estar dentro do corpo dela e acessar suas memórias mais relevantes, mas sim, entender do que é feito a pessoa de Rhiannon, porque ela é quem é. Seus detalhes físicos são deixados de lado, porque para A, o exterior nunca foi algo importante, ele mesmo não possui uma forma, mas sim uma alma, ele é ele de uma maneira sem definições físicas, e é exatamente desta maneira que ele enxerga Rhiannon, quando a vê pela primeira vez. E o resultado disso, é o nascimento de um sentimento que ultrapassa barreiras e acaba com paradigmas e esteriótipos, o velho e bom conhecido amor. Dizem que o amor só é verdadeiro quando não vemos, e sim quando enxergamos o outro. Começo a não mais duvidar disso.

Deste dia em diante, A deixa a prudência de lado e a regra silenciosa de não interferir na vida de ninguém, e começa uma busca incessante para conquistar o coração de Rhiannon, mesmo não sendo a mesma pessoa fisicamente todos os dias.

O livro tem tudo para ser piegas e mais uma história de amor impossível, mas garanto, ele não é. A forma como o personagem de A é desenvolvido e o mistério que o ronda, que pasmem, mesmo chegando ao final do livro, ainda não fica claro quem ele é ou o porquê ele é desta maneira, acaba não se tornando o foco principal da obra. Não existe uma explicação cientifica, espiritual, mítica ou magica por detrás de A. Você simplesmente conhece A, e pronto. O fantástico desta história é perceber que a vida é muito mais do que imaginamos. Foi incrível conhecer tantas pessoas e vidas diferentes, e como A lida com todas elas. Ele já foi gay, jogador de futebol americano, a garota mais popular da escola, lésbica, drogado, depressivo, suicida, uma pessoa normal com uma família abusivamente feliz, um nerd, um poeta, um cristão fanático, um ateu e etc. A é um ser fantástico porque é totalmente desprovido de preconceito. É algo, ou mesmo alguém, que todo ser humano deveria tentar ser. Lendo a obra de David Levithan me lembrei de uma citação de Luiz Gasparetto: "Enfrentar preconceitos é o preço que se paga por ser diferente".

A história de amor entre os dois adolescentes e as formas que A encontra de ser honesto com Rhiannon e provar a ela que ele é ele mesmo em essência e não em corpo físico, não é a grande lição deste livro e nem o enredo principal da trama. Para mim, a verdadeira mensagem está por trás da forma como cada ser humano possui um valor insubstituível e imensurável com suas experiencias e suas expectativas em relação ao verdadeiro e grande mistério, a vida.

Ser humano é algo incrível. Não quero dizer o "ser humano", mas sim, ser um humano. Viver neste mundo pela ótica da espécie mais evoluída do planeta terra. Isso é indiscutivelmente inenarrável. Ser humano é ter dentro de si teorias, teoremas, técnicas, pressupostos e até soluções. Para fazer andar a vida de uma forma que nos faça sentir uma capacidade, ainda que limitada de controlá-la. Mesmo sabendo que sem fazer nada, ela vai continuar andando. Mas, para onde? É por isso que a dirigimos, a direcionamos, para que desta maneira ela siga um rumo. Mas qual a linha final, afinal? Ser humano é acreditar nos relacionamentos interpessoais. Ser humano é ser movido por paixões, sentimentos e valores, e quando nada disso dá certo, vai por instinto mesmo, até muitas vezes, selvagem. Ser humano é viver dois mundos num só, cheio de zilhões de outros mundos de outros seres humanos. O mundo como ele é e o mundo como nós achamos que ele é, cada mundo, de cada ser humano, é único e inabitável por outro ser que não seja ele próprio. Todo mundo quer fazer parte do mundo do outro e que os outros façam parte do seu mundo. Não diziam na escola que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço? Passamos a vida em devaneios, acreditando na verdade das nossas mentiras e na certeza das nossas dúvidas. Ser humano é encontrar alguém especial, sentir algo especial por esse alguém especial, e fazer sexo de forma especial com esse alguém especial por quem se sente algo especial. É multiplicar seres especiais nesta mesma linhagem. Para os seres humanos, damos o nome de amor. Ser humano é ter esse tal amor dentro de si, fora de si, em volta de si, por baixo e por cima de si. Ser humano é ser capaz de contar o tempo em horas, contar a infância em series, contar a vida em realizações e prodígios. É ir contra a natureza dos fatos, dos atos, dos outros habitantes do planeta. É achar que o mundo precisa de nós, sem querer sequer pensar na hipótese de que somos nós que precisamos do mundo, pois é por causa dele que somos afinal, seres humanos.

A, entende profundamente o que é ser um humano, e toma a decisão derradeira de um verdadeiro ser aquém da humanidade incorrigível: o dom de amar verdadeiramente. A lembrança de um sentimento incompreendido pode valer mais do que o destino de um presente, de um passado deixado para trás e de um futuro construído com base no entendimento de uma identidade.

Essa é a grande lição.

Minha nota: 9,0

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Porquê ler?

Vivem me perguntando porque eu gosto tanto de ler, e como consigo ler tão rápido.

Não sei ao certo explicar como isso acontece, mas todas as vezes que me questionam, eu fico com vontade de citar milhões de motivos porque os livros são responsáveis por tantos benefícios a mente humana.

Os livros e suas milhões de historias fantásticas e reais, me salvaram de uma maneira que acredito que nada poderia ter o mesmo resultado.

Para dividir com vocês um pouco dessa sensação, deixo uma reflexão de alguns motivos interessantes.

Aventurem-se! Boa leitura.


segunda-feira, 16 de junho de 2014

"Os grandes feitos são conseguidos não pela força, mas pela perseverança." Resenha do livro "Cheio de Charme" - Marian Keyes

A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota. Iniciei a resenha desta maneira, para abordar um tema muito delicado.

Podem me chamar do que quiser, mas sou uma fã invicta dos livros da Marian Keyes. A autora sempre aborda temas polêmicos através do humor branco e negro. Quando peguei o Cheio de Charme na mão, não fazia ideia do que se tratava, e entrei tão profundamente na história que não pude deixar de sentar em frente ao computador e respirar dezenas de vezes para fazer de minhas palavras jus a tantas mulheres que já passaram ou passam por uma situação onde perdem toda sua dignidade em nome de um sentimento que acham que seja o amor.

O livro é composto de 800 páginas narrado em primeira pessoa por quatro mulheres: Lola, Grace, Marnie e Alicia. Cada capítulo é dedicado a uma delas de forma alternada, não fazendo muito sentido no inicio, mas posteriormente indicando que as quatro personagens possuem uma ligação em comum: Paddy De Coury, um charmoso e mulherengo político da Nova Irlanda. No inicio eu fui levada a acreditar que a história envolveria a decepção destas quatro mulheres com este homem, e de que maneira elas deram a volta por cima desta situação, o velho e o bom clichê de um amor acabado e de como é possível esquecer as inseguranças e os medos para abrir o coração novamente para um sentimento nobre.

 Lola é uma consultora de moda que perdeu a mãe a pouco tempo, e costuma conversar com seu espirito diariamente buscando conselhos divinos para suas tomadas de decisões. Em uma dessas conversas, no cemitério, ela conhece Paddy, que por coincidência também perdeu a mãe quando ainda era uma criança. Eles começam a conversar e iniciam um relacionamento baseado em sexo selvagem e muita perversão.

Marnie é irmã gêmea de Grace e as duas conhecem Paddy e Alicia desde adolescentes. Grace, uma jornalista audaciosa, se apaixona a primeira vista por Paddy, porém quem ganha a atenção do moço é sua irmã Marnie. Eles namoram por muitos anos e vivem um relacionamento repleto de um ciumes doentio. Sua melhor amiga, no caso, Alicia também possui uma paixonite pelo tão charmoso e irresistível De Coury, e faz de tudo para afastar Marnie de seu amado.

Anos se passam e as quatro mulheres continuam a viver suas vidas, mas de alguma maneira nenhuma delas se esquece do que viveu com Paddy De Coury. A história  começa a se cruzar quando as personagens são pegas de surpresa por uma informação que vaza na mídia da noite para o dia: Paddy vai se casar, e a escolhida é nada menos, nada mais, que Alicia, sua antiga conhecida da juventude, que movia mundos e fundos em nome de uma paixão adolescente. Lola, sua então namorada no momento, enlouquecesse de raiva, não entendendo como na noite anterior era a oficial companheira de Paddy, e no dia seguinte ele vai se casar com outra. Marnie no entanto, passa a reviver o passado sombrio e cair em uma depressão tão profunda, que a leva ao alcoolismo, no caso, retratado de maneira muito verossímil. Grace entra em desespero pela irmã, e também possui sua cota de lembranças nada agradáveis do então politico mais falado na Irlanda.

Como eu disse anteriormente, o livro não se mostra apenas como uma história de desilusão amorosa e sua superação clichê e já conhecida de filmes de romance. A cada final de um capítulo, somos surpreendidos com histórias de um homem que quebra os ossos de uma mulher, estupra outra após a mesma realizar um aborto voluntário, queima a palma da mão de suas vitimas com cigarro e as obriga a se humilhar dizendo que merecem apanhar por não serem mulheres de respeito. Confesso que não entendia o porquê de depois de capítulos contando a historia das protagonistas e suas reações com a noticia do casamento de Paddy De Coury, ser entregue a mim duas páginas de violências abusivas contra mulheres.

O meu choque não foi ler em detalhes os atos de terror que este homem cometeu contra essas mulheres e sim um diálogo que me arrancou lagrimas de dor e ódio:

- "O que você pretende fazer?
- Com o quê? O resto da minha vida?
-..É, acho que é isso. Ou até você superar isso.
- Eu não sei. O que as pessoas fazem? Esperam passar.
Mais fácil dizer do que fazer"

Ler Cheio de Charme me trouxe desdobramentos de histórias sobre violência consciente e gratuita contra mulheres. A cada página virada fui tomada pelas atitudes destas bravas mulheres em superar a cada dia que passa uma agressão física e psicológica, as consequências do ato deste monstro, e um final justo a aqueles que acreditam que superação é um sentimento maior que a coragem, e ainda maior que o amor próprio. Superar pode ser mais difícil que sentir medo, mais difícil que não sonhar com um monstro debaixo da cama, em suar frio com a proximidade de um ser humano e por não acreditar mais na imagem refletida no espelho. Mais cada calafrio desses vale a pena quando o sol ascende dentro de nossos corações e mostra que força interior importa mais do que qualquer medo de encarar a felicidade. Eu disse no inicio que gostaria de fazer jus a essa história, e deixo abaixo minha própria sensação do que é ser uma mulher e como a perseverança em superar é um sentimento constante em nossas vidas:

Ser mulher é viver mil vezes em apenas uma vida. É lutar por causas perdidas e sempre sair vencedora. É estar antes do ontem e depois do amanhã. É desconhecer a palavra recompensa, apesar dos seus atos. Ser mulher é caminhar na dúvida cheia de certezas, é correr atrás das nuvens num dia de sol, é alcançar o sol num dia de chuva. Ser mulher é chorar de alegria e muitas vezes sorrir com tristeza. É acreditar quando ninguém mais acredita. É cancelar sonhos em prol de terceiros. É esperar quando ninguém mais espera. Ser mulher é identificar um sorriso triste e uma lagrima falsa. É ser enganada e sempre dar mais uma chance. É cair no fundo do poço e emergir sem ajuda. Ser mulher é estar em mil lugares de uma só vez, é desempenhar mil papeis ao mesmo tempo. É ser forte e fingir que é frágil, só para ter um carinho de vez em quando. Ser mulher é se perder em palavras e depois perceber que se encontrou nelas. É distribuir emoções que nem sempre são captadas. Ser mulher é comprar, emprestar, alugar, vender sentimentos, mas jamais dever. É construir castelos na areia, vê los desmoronados pelas águas e ainda assim ama los. Ser mulher é saber dar o perdão, é tentar recuperar o irrecuperável, é entender o que ninguém mais conseguiu desvendar. Ser mulher é estender a mão a quem ainda não pediu, é doar o que não foi solicitado. É não ter vergonha de chorar por amor, é saber a hora certa do fim. É sempre buscar um recomeço. Ser mulher é ter a arrogância de viver apesar dos dissabores, das desilusões, das traições e das decepções. É ser mãe dos seus filhos, dos filhos dos outros, é ama los igualmente e incondicionalmente. É ter confiança no amanha e aceitação pelo ontem. É desbravar caminhos difíceis em instantes inoportunos. É fincar a bandeira da conquista. Ser mulher é afinal entender as fases da lua, por ela ter suas próprias fases.

Já dizia Paulo Coelho "Imagine uma nova história para sua vida e acredite nela". O livro de Marian Keyes nada mais é do que a perseverança em acreditar que depois de uma ferida aberta, ainda sim existem maneiras de fecha -la com o perdão próprio, e a crença de que o amanhã será um dia melhor do que o de ontem.

Minha nota: 10 com louvor

terça-feira, 27 de maio de 2014

"O tempo é um ladrão impossível de apanhar" - Resenha do livro "O Ladrão do Tempo" - John Boyne

Você já se pegou pensando como seria viver por 256 anos? Em o Ladrão do Tempo embarcamos em uma jornada fascinante de um personagem anti heroico, Sr. Zéla, ou como ele mesmo prefere ser chamado depois de dois séculos vividos, "Mattieu apenas, por favor".

A trama começa contando como Mattieu nasceu e perdeu seus pais ainda muito novo. Na romântica Paris, em 1743 durante a dinastia Bourbon, nasce nosso protagonista, filho de Jean e Marie Zéla. Jean morreu quando Mattieu tinha apenas 4 anos de idade, mas não pense que ele morreu lutando bravamente em uma guerra. Nada disso, ele foi simplesmente arrebatado por um objeto pontudo que acertou sua nuca, o derrubou no chão e uma lamina grossa atravessou sua garganta. Quem foi o responsável pelo terrível assassinato? Não se sabe, era muito comum naquela época atos de violência pelas ruas charmosas de Paris, assim como também uma justiça igualmente arbitrária. Marie se casou outra vez, com um ator chamado Philippe Dumarqué. Com mania de grandeza e uma forma um tanto quanto terrível de lidar com as problemáticas da vida, Philippe espancou impiedosamente Marie até sua morte em 1758. Deste casamento nasceu Thomas, o meio irmão de Mattieu, que acaba se tornando sua responsabilidade no decorrer de seus primeiros anos vivendo forçadamente como um adulto.

Depois do julgamento de Phillippe e seu consequente fim em uma execução em praça pública, Mattieu e seu meio irmão embarcam em um navio rumo a Dover, e é onde nosso anti herói conhece o seu primeiro e grande verdadeiro amor: Dominique. Juntos, eles passam por diversas situações, e Mattieu vai aprender desde muito novo importantes lições sobre amor, traição, amizade e responsabilidade.

Quando Mattieu atinge 50 anos de idade, ele percebe que não envelhece mais fisicamente, e isso o permite acompanhar diversas gerações problemáticas de seu meio irmão Thomas, conhecer muitos tipos de amor, e passar por diversos cargos e empregos, e até mesmo conhecer figuras públicas conhecidas de todo leitor que embarcar nessa jornada de mais de 200 anos de história. Prepare-se para ao longo da narrativa vivenciar fatos e personagens históricos envolvidos de uma forma ou de outra na vida de Mattieu. Enquanto você folheia as páginas, será normal, por exemplo, acompanhar Mattieu trocando amenidades em uma festa com Charles Chaplin ainda jovem buscando sua fama já conhecida por nós na atualidade.

Porém, o livro não se trata de uma lição de história, e sim sobre a principal questão não compreendida pela nossa humanidade em pleno século XXI: pessoas. A obra aborda todas as milhares de pessoas que conviveram com Mattieu e o que estas lhe causaram como efeito. 256 anos são muitos anos para se conviver com especies muito distintas de pessoas.

Existem milhares de personagens neste livro, mais tentarei de uma forma sucinta resumir a obra sendo justa e objetiva: Com uma vida tão duradoura, você esbarra em incontáveis tipos de gente. Mattieu conhece sujeitos honestos e trapaceiros, homens virtuosos que tiveram um único momento de insanidade arrebatadora, porém suficientes para leva- los direto a ruína, e canalhas mentirosos cujos únicos atos de generosidade ou integridade lhe abriram caminho para a salvação. Assassinos, carrascos, juízes e criminosos, trabalhadores e preguiçosos, homens cujas palavras impressionaram e levaram outros a agir, convicções em princípios que ascenderam faíscas de luta e mudanças por direitos básicos do homem, charlatões que leram discursos que não escreveram, homens que proclamaram grandes ambições mais falharam em executa- las, homens que mentiram para suas esposas, mulheres que traíram seus maridos, pais que insultaram seus filhos, descendentes que amaldiçoaram seus ancestrais, bebês nascendo e adultos morrendo, pessoas que precisavam de ajuda e aquelas que Mattieu matou por necessidade. Ele conheceu todo tipo de homem, mulher e criança. Todas as facetas da natureza humana nas terras deste mundo vasto. E ele observou, escutou, absorveu palavras, testemunhou fatos e se distanciou de todos eles com nada mais que suas próprias lembranças para traduzi las de sua cabeça para as paginas deste livro.

Sim, o livro é a forma que Mattieu encontrou para contar sua história e deixar registrado que possivelmente foi e será a única pessoa a atravessar tantos e tantos anos de vida. O curioso é que o próprio Mattieu não entende porque foi abençoado ou amaldiçoado com a vida eterna, ou a síndrome do Peter Pan, se vocês preferirem classificar assim.

O livro é dividido em três fases, que ficam intercalando entre si o tempo todo. Enquanto em um capítulo acompanhamos Mattieu adolescente, no outro vivenciamos suas viagens, seus casamentos fracassados, seus empregos, sua fase adulta e depois ele na atualidade que conhecemos. Tudo isso vira uma junção do que será incumbido para ser o seu futuro. Mattieu possui um carma que vamos entendendo ao longo da leitura: ele nunca consegue se desvencilhar das gerações Dumarqué, sempre que um de seus sobrinhos, que estranhamente carregam o mesmo nome: Tommy ou Tomas, engravidam uma mulher, o bebê homem nasce e o pai morre de forma trágica, e Mattieu paralelamente, nunca consegue manter um casamento, pois também estranhamente uma tragédia acontece levando embora suas escolhidas como companheiras mesmo que a curto prazo, visto que ele não envelhece e consequentemente também não morre.

Na atualidade Mattieu quer mudar o padrão e não ser mais o ladrão do tempo, mais sim permitir que o tempo não seja um ladrão impossível de apanhar. Ele resolve não deixar que uma tragédia aconteça com seu atual sobrinho dos anos 90: o novo Tommy. Não vou entregar o final, mais garanto que nos últimos respingos do livro, um fio branco aparece no cabelo de Mattieu. Seria essa talvez, a salvação? Deixo a mercê da leitura de vocês descobrir a resposta nessas fantásticas 561 páginas.

John Boyne conseguiu trabalhar com assuntos importantes como o valor das pessoas na nossa vida, como nossas atitudes podem gerar consequências boas ou ruins, como o amor pode ser algo traiçoeiro e como a família é uma parte importante na vida de um ser humano. Cada ponto é discutido de uma maneira muito simples, direta e com palavras concretas.

No fim, todas as histórias e todas as pessoas se fundem em uma só. Tem aqueles que não acreditam no destino e na forma como os caminhos são postos na nossa frente. Não sou uma ladra do tempo que poderia convir com uma afirmação destas, mas sou uma aluna do tempo, uma aluna que teve que repetir de ano algumas vezes para aprender que o relógio existe para ensinar que cada segundo, minuto e hora tem relativa explicação para passar rápido ou devagar, para colocar e tirar algumas pessoas de nossa vida, para nos fazer rir e chorar na hora exata, para explicar situações tristes e carregadas de dificuldades, para provar que tudo tem hora para acontecer, seja o bom ou o ruim, e para nos mostrar que a cima de tudo, somos donos do nosso próprio tempo e quem faz dele a duração perfeita somos apenas nós.

Como já dizia Abu Shakur: "Talvez o tempo te ponha na sua escola, pois não terás melhor professor que ele".

Minha nota: 10

terça-feira, 6 de maio de 2014

"Porque o Senhor descerá do céu com alarido e com voz de arcanjo, munido com a trombeta de Deus. Os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com Ele." - Resenha do livro "Os deixados para trás" - Tom Perrotta

Significado de inquietante: Pessoa ou algo que desperta inquietação. Que inquieta, que causa inquietação.

O que aconteceria, se de repente, sem nenhuma explicação, pessoas simplesmente desaparecessem, sumissem no ar sem deixar nenhum rastro para trás? É o que os perplexos moradores de Mapleton, que perderam muitos vizinhos, amigos e companheiros no evento classificado como Partida Repentina, precisam descobrir.

Iniciei a resenha procurando entender o significado do adjetivo inquietante, porque é desta maneira que julgo a obra de Tom Perrota, uma leitura que levanta diversas polêmicas a respeito do arrebatamento.

Passei horas tentando achar uma forma de concluir um pensamento a respeito da inquietante polêmica deste livro, mas prefiro desenvolver a resenha contando um pouco sobre as reações humanas e rotineiras a um evento catastrófico.

Os personagens que compõe esta história são Kevin Gavery, o prefeito da cidade, que tenta a qualquer custo acelerar o processo de cura das pessoas, trazer um sentimento de esperança renovada e um proposito de vida para uma comunidade traumatizada. Ainda que, sua própria família tenha sido desfeita com o desastre: sua cética e agnóstica esposa deixou sua família para se juntar a um culto cujos membros fazem voto de silencio (Os Remanescentes Culpados). Seu filho, Tom abandonou a faculdade para seguir um profeta duvidoso chamado Santo Wayne, e sua filha adolescente, Jill, não é mais a doce estudante que colecionava notas dez na escola. Em meio a tudo isso, Kevin se vê envolvido com Nora Durst, uma mulher que perdeu toda a sua família no 14 de Outubro e continua em estado de choque com a tragédia.

O livro carrega um contexto centralizado no cotidiano moderno, da sociedade do novo milênio, do século XXI. É antes de mais nada, uma crônica. Porém um crônica repleta de inteligência emocional, e uma escrita habilidosa para enfatizar os problemas inerentes a vida comum.

O Arrebatamento ou a Partida Repentina é apregoado por várias religiões, no qual Deus transportaria fisicamente para o céu os escolhidos, que após os sete anos de tribulações que assolariam os que ficariam no mundo, fariam -nos herdar a terra completamente pacificada e renovada. No livro, são premiados os sujeitos de todos os tipos, credos, raças e condições sociais, para desgosto dos mais fanáticos e ortodoxos da religião, em todo o mundo. Pois, cada religião, alega ser ela a unica a conduzir os eleitos ao Paraíso na Terra. Nesse contexto, Tom Perrota usa Mapleton como um teatro para esmiuçar esse cenário. Até que ponto as pessoas que sofreram o Arrebatamento são de fato merecedoras desse fenômeno, ou até que ponto as que ficaram no mundo, ou melhor, deixadas para trás, são desmerecedoras de serem salvas?

A medida em que nos enfronhamos na leitura e com os personagens, vamos conhecendo um pouco mais da realidade por detrás desse estranho acontecimento, e descobrimos que há muita distinção entre santo e demônio, e que, na maioria das vezes, vemos lobos disfarçados de cordeiros, mas nunca o inverso.

Quem não se lembra do 11 de Setembro, e a imagem de pessoas sem rumo, abatidas, desnorteadas e perplexas? A reação do presidente dos USA, de reerguer a moral da cidade, a busca por respostas, o sonho norte americano sendo desfeito, a dor por aqueles que partiram, o fanatismo levado ao extremo e as consequências religiosas e sociais perante o acontecimento que paralisou o mundo? Os deixados para trás é apenas uma história fantasiosa que remete a mim o mesmo ocorrido em uma outra data com uma outra nomenclatura.

Mas o mais polêmico não é nem de longe o tema arrebatamento, e sim, porque reagimos da forma que reagimos a trágicos acontecimentos. O porque da mente humana funcionar de forma tão complexa a uma ordem desnatural das coisas. Eis que escrevo abaixo um trecho do livro que me fez enxergar a verdadeira percepção de inquietante da obra:

"Você poderia ter me dito aquilo que eu já sei - que na verdade, todas as pessoas ficam estressadas, com raiva, e com desejo de ter um pouco de sossego e paz. Não é a mesma coisa que desejar que as pessoas que a gente ama desapareçam para sempre. Mas e se for? E aí? Devo ficar louca com isso?"

Há uma frase de Augusto Cury que me fez acreditar, que posso finalizar essa resenha com ela: "Para mim, há uma loucura racional aceita pela sociedade, e uma loucura irracional condenada por ela".

O que de fato faz você infeliz? Um acontecimento sem explicação, ou sua própria reação igualitária a ele?

Minha nota: 10 com louvor.


OBS.: O próprio autor está adaptando a obra para uma série na HBO. Valerá a pena acompanhar.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

"Há um sentido na dor. Há um motivo e uma direção para ela." - Resenha do livro "A Estrela mais Brilhante do Ceú" - Marian Keyes

"Uma casinha de sapê, foi o que eu fiz só para agradar você. Você não sabe quanto tempo esperei pra isso acontecer. Todos os dias eu me empenhei, para te provar que iria ser bom. Todas as noites no seu olhar, vi que valia a pena. Nem no infinito e nem no luar, existe um brilho tão natural. No céu as nuvens vem desenhar o que já estava escrito." 
E é desta maneira, que apaixonadamente tento fazer de minhas palavras jus a um livro tão cheio de vida e de morte, de amor e de dor, de choros e risos, e de encontros e desencontros. Se eu pudesse definir esta obra de Marian Keyes em uma única palavra, eu diria: antônimos. 
Para que fique claro, eu preciso dissecar cada personagem e sua alta definição do que a vida nos reserva como motivos. A história se passa em uma casa em Dublin, uma dessas casas antigas, de estilo georgiano, que fora convertida em quatro apartamentos. 
No último andar da Star Street 66, mora Katie, uma recém quarentona, que trabalha na área da indústria fonográfica, e passa seus dias bajulando estrelas do rock. Katie se relaciona com Conall, um homem amargurado pela infância sofrida, e que conquistou todos seus milhões dedicando 200% do seu tempo ao seu BlackBerry. No pain no gain, certo? É o que veremos mais pra frente. 
No apartamento de baixo, vive uma jovem taxista chamada Lydia. De personalidade forte e marcante, ela não têm medo de nada, e dividi o pequeno espaço com dois poloneses lindos e musculosos. Lydia parece ser a personagem mais sem contexto do livro, porém é na minha opinião, uma das mais intrigantes. Já chegaremos lá.
Abaixo, mora Jemina, uma senhora idosa com aparentes poderes psíquicos, e seu fiel cachorro Rancor. Essa doce senhora possui um filho adotivo, Fionn, um jardineiro que não se importa com absolutamente nada do mundo material, e vive carregando dentro de seus bolsos "mágicos" mudas de plantas. Além de ser incrivelmente bonito, ele acaba de se tornar apresentador de um programa de TV sobre jardinagem. Será que seu lado simples e mistico vão permanecer intactos por uma esfera altamente dominada por status e matéria?
No primeiro andar, moram o doce casal Matt e Maeve. De tão açucarado, o amargo da vida resolveu desafia-los com um trauma sufocante que os assombra dia e noite através de uma tentativa rotineira de salvamento. Existe escuridão em uma aparência tão magnificamente bela?
Para responder todas as questões, vamos falar sobre o personagem principal, que não mora na Star Street 66, ainda...O livro é narrado por um misterioso espirito, que vive acompanhado por uma especie de guia. Sabe aquela velha lenda que diz que a morte anda sempre lado a lado com a vida? É preciso que um morra para que outra nasça. É exatamente sobre isso que o livro trata. O narrador desta belíssima historia vai nascer, e ainda não sabe quem serão seus pais. Ele passa os capítulos analisando a vida dos moradores da casinha de sapê, intrigado por suas historias de vida. Mas você deve estar se questionando: se algum deles serão os pais deste bebê, quem vai morrer para que isto aconteça? Deixo a mercê de vocês dar um palpite. 
 Kate e Conall possuem corações batendo na mesma sintonia, porém Conall vive divido em se entregar a um amor claramente existente, ou perder toda sua trajetória profissional conquistada pela abdicação total e completa da vida em prol da tão famigerada glória. Lydia por sua vez, passa os dias se matando de trabalhar para ganhar duros trocados ,e cuida sozinha de uma mãe que sofre de demência. Ellen sofreu ao longo da vida diversos pequenos AVC´s, que juntos formaram uma pessoa desestruturada emocionalmente, que vive em uma linha tênue entre a sanidade e a loucura. Fionn abandona sua pacata vida de jardineiro para se tornar um astro da televisão britânica. Ele se pega amadurecendo de forma drástica quando percebe que tudo aquilo que pregava não passava de uma balela bonita de ser dita, mais altamente difícil de ser praticada. Matt e Maeve viveram aquilo que poucos têm a oportunidade de experimentar na vida: o amor a primeira vista. Se amaram desde o momento que colocaram os olhos um no outro. Porém Maeve é estuprada e violentada por seu ex namorado, um homem perturbado que não aceita perder seu troféu por um amor predestinado. O casal passa três anos de suas vidas sem se tocarem, e pensam constantemente em acabar com suas próprias vidas. O que é o amor sem a demonstração física, carnal e emocional?
O grande momento do livro é quando todas essas histórias se entrelaçam, e acontece um grande encontro e desencontro de pessoas e situações. Os casais se esfarelam, uns se relacionam com os outros buscando a salvação imediata de suas dores, mas por algum motivo ou razão, a vida sempre dá a direção correta dos acontecimentos. Enquanto lia essa sucessão de idas e vindas, me lembrei de uma citação de Vinícius de Morais: " A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida".
Cada encontro está carregado de perda. As vezes duas pessoas que se amam, se encontram e são felizes. Ao fim da felicidade, um deles chora, ou fica triste, ou baixa os olhos, ou é invadido por uma inexplicável melancolia. É a perda que está escondida no deslumbramento de cada encontro. O encontro humano é tão raro que mesmo quando ocorre vem carregado de todas as experiencias de desencontros anteriores. Quando você está perto de alguém e não consegue expressar tudo o que está claro e simples na sua cabeça, você está tendo um desencontro. Aquela pessoa que lhe dá um extremo cansaço de explicar as coisas, é alguém com quem você se desencontra. Aquela a quem você admira tanto, que lhe impede de falar, também é um agente do desencontro. Cada desencontro é perda porque é a irrealização do que teria sido uma possibilidade de afeto. É a experiencia de desencontros que ensina o valor dos raros momentos que a vida permite. A própria vida é uma especie de ante sala do grande encontro. Por isso talvez ele nada mais seja que uma provação de desencontros preparatórios da penetração da essência do ser. É por isso ou por aquilo que cada encontro está carregado de perda. É no ato de sentir- se feliz, que se associa a ideia do passageiro, que é tudo, do amanha cheio de interrogações, da exceção que aquilo significa. A partir dai, uma tristeza muito particular se instala. A tristeza feliz. A tristeza feliz é a que só surge depois dos encontros verdadeiros, tao raros. Os encontros verdadeiros prescindem de palavras, eles realizam em cada pessoa, a parte delas que se sublimou e ficou pura. É esta certeza, a da perda, que provoca aquela lágrima ou aquela angústia que se instala após os verdadeiros encontros. Há sempre uma despedida em cada alegria. Há sempre um "E agora?" após cada felicidade. Há sempre uma saudade na hora de cada encontro. Disso só se salva quem se cura, ou seja, quem deixa de estar feliz para ser feliz, quem passa do estar para o ser. 
Uma história de muitos encontros e desencontros, de perdas marcadas por cicatrizes eternas, de medos profundos de acreditar que a vida pode recomeçar e o principal, da cura através da morte e da vida.
Deixo para reflexão, uma pergunta: Qual é a sua estrela mais brilhante do ceú? Aquela que já se foi ou aquela que ainda está esperando sua vez de chegar?
Minha nota: 10 com louvor!

quarta-feira, 19 de março de 2014

"Primeiro eles o ignoram, depois riem de você. Em seguida lutam com você, e então você ganha" - Resenha do livro "Perdão Leonard Peacock" - Mattew Quick

Os heróis e vilões das histórias populares raramente são o que parecem ser. Cruzado de um homem é o assassino de outro homem.

Nunca é fácil julgar uma pessoa, mesmo com todos os fatos expressamente aparentes. E ainda assim, os pseudo culpados ficam a mercê do julgamento final. Mas a história raramente faz as coisas direito. Embora a ciência da história é toda sobre fatos, a concepção moderna da história raramente é precisa. A percepção de eventos passados é tão manchada por séculos de propaganda antiga que pode ser difícil de discernir a verdade da nossa sociedade própria, como se fossem interpretações coloridas.

Olhe ao seu redor nesse momento, procure por noticias na internet, em seu tablet, jornal ou revista impressos. O mundo está cercado de coisas ruins, males diários que passam por nós sem que, muitas vezes, possamos sequer notar. Não é o caso do protagonista do livro de Mattew Quick. Leonard Peacock se importa. Sua luta diária é não deixar o mundo destruí-lo, mais do que possivelmente já o estilhaçou por dentro.

A narrativa desta obra se passa praticamente em torno de um único dia, o aniversário de 18 anos de Leonard, e também o dia em que ele escolheu para matar seu ex melhor amigo e depois se suicidar com uma P-38 nazista- "Mato você mais tarde - digo para o sujeito no espelho, e ele apenas sorri de volta, como se mal pudesse esperar" (uma das frases mais chocantes que li apenas no primeiro capítulo do livro).

Além de carregar a arma que foi de seu avô, Leonard também embrulha quatro presentes com papel cor de rosa para entregar as pessoas mais importantes de sua vida, antes de completar sua missão. É por isso que as pessoas dão presentes, certo? Por que não sabem como se expressar em palavras, então dão presentes para expressar simbolicamente seus sentimentos.

Leonard pretende se despedir de quatro pessoas: Walt, seu vizinho idoso e solitário com quem passa o tempo assistindo filmes de Humphrey Bogart; Baback, um garoto de sua escola e talentoso violinista, mas que não quer ser seu amigo por o achar um tanto quanto estranho; Lauren, uma jovem cristã que ele conheceu no metrô, e que tenta a qualquer custo o converter para conhecer o amor de Jesus Cristo, e por fim, Herr Silverman, um educado e muito competente professor, que ensina aos seus alunos sobre Holocausto, promovendo debates e reflexões dignos de te prender por horas, talvez dias a fio no assunto.

Em todas as visitas para a entrega dos presentes, percebemos que Leonard tenta de uma forma quase suplicante que aquelas pessoas o tirem do abismo que ele se encontra, e que o salve de sua missão, mas nenhuma delas consegue enxergar a profundidade de sentimentos que habita o jovem, até então, pré julgado como "esquisito". Admito que até certo ponto do livro eu mesma cheguei a pensar que ele tinha problemas freudianos em relação ao papel de seus pais em sua vida, e seria mais um adolescente clássico de estórias trágicas modernas que sai atirando em seus amigos e depois se mata.

A mágica do livro é que somos levados a julgar até nosso limite (lembrem se dos fatos expressamente aparentes), para depois ganhar de brinde um grandíssimo tapa na cara, revelando a verdadeira mensagem deste livro.

Os capítulos são quebrados por algumas "cartas do futuro". Nelas existem mensagens reconfortantes de como seria o futuro de Leonard, pedidos de força e superação, que são escritas pelo próprio protagonista, a fim dele tentar enxergar algum motivo para não se matar. A parte realmente emocionante do livro são as tais cartas, que apresentam um cenário otimista, e pessoas que realmente entendem a essência de Leonard, e pedem para que ele não acabe com sua vida. Neste momento, entendemos o que de fato aconteceu.

Leonard foi abusado sexualmente por anos a fio pelo seu melhor amigo, Asher. Sua mãe é uma mulher completamente ausente, que chegou a pegar os dois nus em seu quarto e nada fez a respeito, seu pai, um ex viciado em drogas e também alcoólatra, está perdido no mundo, e Leonard não têm ninguém a não ser a sua própria consciência.

Perdão Leonard Peacock, traz a tona problemas sociais muito comuns nos dias de hoje, porém repassáveis aos nossos olhos frustrados com nossas vidas entediantes e nossas dividas intermináveis.

Como funciona a mente de um jovem que sofre buylling e possui pais relapsos? Como você imagina a luta interior de uma pessoa para viver dessa maneira? Leonard tenta a qualquer custo enxergar positividade antes de tomar uma decisão fatal. Ele se veste como um adulto todos os dias depois da escola e anda de metrô sem rumo analisando as pessoas, para tentar enxergar na escuridão alguma possibilidade de luz. E o que ele vê? Pessoas cabisbaixas, que só reclamam e xingam umas as outras porque estão bravas com seus chefes mandões, com seus maridos e esposas ausentes, com filhos barulhentos e a falta de sono. Leonard escreve em suas cartas do futuro uma vida simplória, onde o aniversário de seus filhos são lembrados todos os anos, onde um sorriso vale mais do que dinheiro e onde os seres humanos possam se olhar nos olhos sem nada a temer.

Sei como é difícil ser diferente. Mas também sei a arma poderosa que ser diferente pode vir a ser. Como o mundo precisa de tais armas. Gandhi era diferente. Todas as grandes pessoas também pessoas únicas, precisam procurar outras pessoas únicas que as entendam, para que não fiquem muito solitárias e salvem as pessoas normais delas mesmas.

Por fim, quando Leonard percebe que ele não pode mudar o mundo, mas que ele pode mudar a percepção da vida dentro de si mesmo, ele coloca em pratica aquilo que Antonie de Saint Exupéry já pregou uma vez em sua vida: "É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues fazer um bom julgamento de ti, és um verdade sábio".

Um deleite de verdades, uma realidade injusta e cruel, um triste recomeço, porém uma leitura belíssima em essência e ensinamento de vida. Minha total e singela indicação de horas de reflexão sobre seus próprios julgamentos internos e externos. Você tem coragem de se enviar uma carta do futuro?

Minha nota: 10

terça-feira, 11 de março de 2014

Um livro por semana, dá?

Vivem me perguntando "Como você consegue ler tantos livros?"

Eu respondo "Não sei, apenas pego um livro na mão e não consigo mais parar de ler".

A leitura me curou em muitos sentidos, me faz viajar para bem longe sem ter que sair de casa, sorrir sozinha e até mesmo derrubar algumas lágrimas, afinal ninguém é de ferro. Mas para resumir, eu sou mai feliz porque toda semana tenho um livro diferente em minha cia.

O post abaixo dá algumas interessantes dicas para quem admira e gosta de uma boa leitura, mas acha humanamente impossível conseguir ler um livro por semana. Garanto, tem como concluir esta proeza, e ainda se sentir muito satisfeito com isso.

http://www.brasilpost.com.br/julien-smith/como-ler-muito_b_4941486.html

Divirta-se e boa leitura.

quinta-feira, 6 de março de 2014

"A palavra casa não é um lugar. É uma pessoa. E nós, finalmente, estamos em casa" - Resenha do livro "Anna e o Beijo Francês" - Stephanie Perkins

Por mais que eu tente, o meu lado Shakespeare de ser e sentir a vida, não me deixa nem mesmo nos momentos que penso que não posso mais ser uma menininha apaixonada por romances mamão com açúcar. Pois bem, eis que cai em minhas mãos uma história assim, que sem mais nem menos me fez pensar em Neruda e seu amor platônico incansável e inabalável: "Eu a amo como certas coisas obscuras são amadas, secretamente, entre a sombra e a alma".

Você já entendeu por esse inicio, que temos dois personagens centrais: um que ama solenemente e outro que ama secretamente. Sim, eles demoram o livro inteiro para enxergar que nosso amigo aspirante dos amores platônicos tinha toda razão do mundo ao poetizar que os amantes amam em silêncio, e perdem a grande chance de serem felizes porque amar dá medo, tomar decisões dá medo, respirar dá medo, mas como qualquer necessidade biológica, é um mal mais do que necessário.

Vamos aos protagonistas deste belo e simplista romance: Anna Oliphant, é uma menina de 17 anos, filha de um escritor famoso. Eles têm uma vida em Atlanta tipica de comercial de margarina. Anna têm uma melhor amiga, um emprego e um garoto que ela espera que seja seu futuro namorado. Sua modesta vida dá uma reviravolta quando seu pai resolve a mandar para Paris para terminar o ensino médio na SOAP (School of America in Paris). Como qualquer adolescente, Anna não se sente nada feliz em sair de sua zona de conforto e acredita que seus dias vão acabar da forma mais horrenda que existe, longe de tudo que para ela era considerado seu precioso e imaculado lar.

Seu primeiro dia de aula não foi dos piores, levando em conta que ela conhece ótimas pessoas, dispostas a serem seus amigos e lhe apoiar nessa brusca mudança de cultura e costumes. Dessa forma, Anna conhece Meredith, Rashimi, Josh e o lindo, popular e inteligente St. Clair. Tudo perfeito, tirando o fato de que o aspirante a arrancar suspiros por onda passa, namora há uma eternidade a precoce e perfeita Ellie, que já adentrou o mundo universitário bem antes de seus amigos. Se não bastasse, Meredith é secretamente apaixonada por St. Clair, e você já pode imaginar que assim se forma um torturante quadruplo amoroso.

Anna não sabe falar francês, e isso complica um pouco sua vida na capital do romance. Eis que o príncipe encantado, ops, St. Clair começa a se aproximar de Anna, ajudando a pedir comida, passear por Paris, e aos poucos se soltar e conseguir se virar sozinha. Logo, ela pega o jeito, e com o passar do tempo, ela e St. Clair se tornam melhores amigos, inseparáveis, daqueles que leem o pensamento um do outro apenas com um olhar.

Já em Atlanta, sua melhor amiga e Toph, (o garoto pelo qual Anna ansiou o ano todo para voltar a ver, afinal de contas, ele gostava dela e eles iam ser felizes para sempre), começam a namorar, e Anna percebe sutilmente que ali não era mais a sua cidade e que ela não se sentia mais em casa. Será possível que lar era uma pessoa e não um lugar?

No meio desta reflexão, Anna percebe que está perdidamente apaixonada por St. Clair, um menino que exala sensualidade, mas por outro lado, é um complicado e torturado ser humano. Sua mãe têm câncer terminal e seu pai é um homem egoísta e mulherengo. Como consequência, ele não consegue se ver sozinho, e sofre a distancia pela paixão por Anna e o medo o proibindo de terminar com Ellie e de dar esperanças a Meredith. Já que sua vida se resume a não saber qual passo dar para andar para frente, então melhor ficar parado no mesmo lugar, certo? Errado!

De novo eu cito Shakespeare: "Nossas dádivas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar".

Como todo bom romance que se passa no cenário da belíssima Paris, a cidade dos eternos apaixonados, Anna e St. Clair têm seu momento derradeiro com direito ao beijo que sela por consequente a felicidade eterna do descobrimento da dominação do medo.

Não vi este romance como mais um clichê onde duas pessoas se apaixonam loucamente mas não podem ficar juntas, e depois de muito derramamento de lagrimas, ficam juntas no final para nos passar a ideia de que depois da tempestade existe o pote de ouro no fim do arco iris. Não, eu vi muito mais do que isso.

Vi o medo de amar e ser amada, vi escolhas esdruxulas para apaziguar uma solidão eterna e o cobrimento de uma faceta falsa. Vi o descobrimento do amor próprio, do renascer de uma maturidade, da força indescritível do amor, e da tranquilidade que uma descoberta pode fazer dentro de um ser humano repleto de qualidades e defeitos, cheio de emoções pervertidas e um coração cheio de pedregulhos colados com cola de terceiro calão.

Vi tanto Shakespeare na minha frente, que cito ele novamente: "Estas alegrias violentas, têm fins violentos, falecendo no triunfo, como fogo e pólvora, que num beijo se consomem".

Anna e o beijo Francês, este título carrega muito mais do que um história de amor de adolescentes. Se você for um eterno apaixonado por esse sentimento que de impecável não tem nada, você vai ver sua força em cada palavra, cada frase e em cada cena imaginativa de Anna e St. Clair  na bela e romântica Paris, definitivamente o meu lugar preferido no mundo. Pois foi ali que também iniciei uma jornada de fins violentos e o inicio de uma vida mais repleta de significados.

Para saber o que acontece com os outros elementos deste romance, recomendo ler, mais leia com o coração, se não ele não vai passar de uma passatempo sem sentido e muito simplista aos olhos de quem nunca sofreu por amor. Lembre-se, assim como a lição desta obra: se você não tentar, não vai sair do lugar. Que tal abrir a primeira página?

Minha nota: 9,5