segunda-feira, 16 de junho de 2014

"Os grandes feitos são conseguidos não pela força, mas pela perseverança." Resenha do livro "Cheio de Charme" - Marian Keyes

A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota. Iniciei a resenha desta maneira, para abordar um tema muito delicado.

Podem me chamar do que quiser, mas sou uma fã invicta dos livros da Marian Keyes. A autora sempre aborda temas polêmicos através do humor branco e negro. Quando peguei o Cheio de Charme na mão, não fazia ideia do que se tratava, e entrei tão profundamente na história que não pude deixar de sentar em frente ao computador e respirar dezenas de vezes para fazer de minhas palavras jus a tantas mulheres que já passaram ou passam por uma situação onde perdem toda sua dignidade em nome de um sentimento que acham que seja o amor.

O livro é composto de 800 páginas narrado em primeira pessoa por quatro mulheres: Lola, Grace, Marnie e Alicia. Cada capítulo é dedicado a uma delas de forma alternada, não fazendo muito sentido no inicio, mas posteriormente indicando que as quatro personagens possuem uma ligação em comum: Paddy De Coury, um charmoso e mulherengo político da Nova Irlanda. No inicio eu fui levada a acreditar que a história envolveria a decepção destas quatro mulheres com este homem, e de que maneira elas deram a volta por cima desta situação, o velho e o bom clichê de um amor acabado e de como é possível esquecer as inseguranças e os medos para abrir o coração novamente para um sentimento nobre.

 Lola é uma consultora de moda que perdeu a mãe a pouco tempo, e costuma conversar com seu espirito diariamente buscando conselhos divinos para suas tomadas de decisões. Em uma dessas conversas, no cemitério, ela conhece Paddy, que por coincidência também perdeu a mãe quando ainda era uma criança. Eles começam a conversar e iniciam um relacionamento baseado em sexo selvagem e muita perversão.

Marnie é irmã gêmea de Grace e as duas conhecem Paddy e Alicia desde adolescentes. Grace, uma jornalista audaciosa, se apaixona a primeira vista por Paddy, porém quem ganha a atenção do moço é sua irmã Marnie. Eles namoram por muitos anos e vivem um relacionamento repleto de um ciumes doentio. Sua melhor amiga, no caso, Alicia também possui uma paixonite pelo tão charmoso e irresistível De Coury, e faz de tudo para afastar Marnie de seu amado.

Anos se passam e as quatro mulheres continuam a viver suas vidas, mas de alguma maneira nenhuma delas se esquece do que viveu com Paddy De Coury. A história  começa a se cruzar quando as personagens são pegas de surpresa por uma informação que vaza na mídia da noite para o dia: Paddy vai se casar, e a escolhida é nada menos, nada mais, que Alicia, sua antiga conhecida da juventude, que movia mundos e fundos em nome de uma paixão adolescente. Lola, sua então namorada no momento, enlouquecesse de raiva, não entendendo como na noite anterior era a oficial companheira de Paddy, e no dia seguinte ele vai se casar com outra. Marnie no entanto, passa a reviver o passado sombrio e cair em uma depressão tão profunda, que a leva ao alcoolismo, no caso, retratado de maneira muito verossímil. Grace entra em desespero pela irmã, e também possui sua cota de lembranças nada agradáveis do então politico mais falado na Irlanda.

Como eu disse anteriormente, o livro não se mostra apenas como uma história de desilusão amorosa e sua superação clichê e já conhecida de filmes de romance. A cada final de um capítulo, somos surpreendidos com histórias de um homem que quebra os ossos de uma mulher, estupra outra após a mesma realizar um aborto voluntário, queima a palma da mão de suas vitimas com cigarro e as obriga a se humilhar dizendo que merecem apanhar por não serem mulheres de respeito. Confesso que não entendia o porquê de depois de capítulos contando a historia das protagonistas e suas reações com a noticia do casamento de Paddy De Coury, ser entregue a mim duas páginas de violências abusivas contra mulheres.

O meu choque não foi ler em detalhes os atos de terror que este homem cometeu contra essas mulheres e sim um diálogo que me arrancou lagrimas de dor e ódio:

- "O que você pretende fazer?
- Com o quê? O resto da minha vida?
-..É, acho que é isso. Ou até você superar isso.
- Eu não sei. O que as pessoas fazem? Esperam passar.
Mais fácil dizer do que fazer"

Ler Cheio de Charme me trouxe desdobramentos de histórias sobre violência consciente e gratuita contra mulheres. A cada página virada fui tomada pelas atitudes destas bravas mulheres em superar a cada dia que passa uma agressão física e psicológica, as consequências do ato deste monstro, e um final justo a aqueles que acreditam que superação é um sentimento maior que a coragem, e ainda maior que o amor próprio. Superar pode ser mais difícil que sentir medo, mais difícil que não sonhar com um monstro debaixo da cama, em suar frio com a proximidade de um ser humano e por não acreditar mais na imagem refletida no espelho. Mais cada calafrio desses vale a pena quando o sol ascende dentro de nossos corações e mostra que força interior importa mais do que qualquer medo de encarar a felicidade. Eu disse no inicio que gostaria de fazer jus a essa história, e deixo abaixo minha própria sensação do que é ser uma mulher e como a perseverança em superar é um sentimento constante em nossas vidas:

Ser mulher é viver mil vezes em apenas uma vida. É lutar por causas perdidas e sempre sair vencedora. É estar antes do ontem e depois do amanhã. É desconhecer a palavra recompensa, apesar dos seus atos. Ser mulher é caminhar na dúvida cheia de certezas, é correr atrás das nuvens num dia de sol, é alcançar o sol num dia de chuva. Ser mulher é chorar de alegria e muitas vezes sorrir com tristeza. É acreditar quando ninguém mais acredita. É cancelar sonhos em prol de terceiros. É esperar quando ninguém mais espera. Ser mulher é identificar um sorriso triste e uma lagrima falsa. É ser enganada e sempre dar mais uma chance. É cair no fundo do poço e emergir sem ajuda. Ser mulher é estar em mil lugares de uma só vez, é desempenhar mil papeis ao mesmo tempo. É ser forte e fingir que é frágil, só para ter um carinho de vez em quando. Ser mulher é se perder em palavras e depois perceber que se encontrou nelas. É distribuir emoções que nem sempre são captadas. Ser mulher é comprar, emprestar, alugar, vender sentimentos, mas jamais dever. É construir castelos na areia, vê los desmoronados pelas águas e ainda assim ama los. Ser mulher é saber dar o perdão, é tentar recuperar o irrecuperável, é entender o que ninguém mais conseguiu desvendar. Ser mulher é estender a mão a quem ainda não pediu, é doar o que não foi solicitado. É não ter vergonha de chorar por amor, é saber a hora certa do fim. É sempre buscar um recomeço. Ser mulher é ter a arrogância de viver apesar dos dissabores, das desilusões, das traições e das decepções. É ser mãe dos seus filhos, dos filhos dos outros, é ama los igualmente e incondicionalmente. É ter confiança no amanha e aceitação pelo ontem. É desbravar caminhos difíceis em instantes inoportunos. É fincar a bandeira da conquista. Ser mulher é afinal entender as fases da lua, por ela ter suas próprias fases.

Já dizia Paulo Coelho "Imagine uma nova história para sua vida e acredite nela". O livro de Marian Keyes nada mais é do que a perseverança em acreditar que depois de uma ferida aberta, ainda sim existem maneiras de fecha -la com o perdão próprio, e a crença de que o amanhã será um dia melhor do que o de ontem.

Minha nota: 10 com louvor

terça-feira, 27 de maio de 2014

"O tempo é um ladrão impossível de apanhar" - Resenha do livro "O Ladrão do Tempo" - John Boyne

Você já se pegou pensando como seria viver por 256 anos? Em o Ladrão do Tempo embarcamos em uma jornada fascinante de um personagem anti heroico, Sr. Zéla, ou como ele mesmo prefere ser chamado depois de dois séculos vividos, "Mattieu apenas, por favor".

A trama começa contando como Mattieu nasceu e perdeu seus pais ainda muito novo. Na romântica Paris, em 1743 durante a dinastia Bourbon, nasce nosso protagonista, filho de Jean e Marie Zéla. Jean morreu quando Mattieu tinha apenas 4 anos de idade, mas não pense que ele morreu lutando bravamente em uma guerra. Nada disso, ele foi simplesmente arrebatado por um objeto pontudo que acertou sua nuca, o derrubou no chão e uma lamina grossa atravessou sua garganta. Quem foi o responsável pelo terrível assassinato? Não se sabe, era muito comum naquela época atos de violência pelas ruas charmosas de Paris, assim como também uma justiça igualmente arbitrária. Marie se casou outra vez, com um ator chamado Philippe Dumarqué. Com mania de grandeza e uma forma um tanto quanto terrível de lidar com as problemáticas da vida, Philippe espancou impiedosamente Marie até sua morte em 1758. Deste casamento nasceu Thomas, o meio irmão de Mattieu, que acaba se tornando sua responsabilidade no decorrer de seus primeiros anos vivendo forçadamente como um adulto.

Depois do julgamento de Phillippe e seu consequente fim em uma execução em praça pública, Mattieu e seu meio irmão embarcam em um navio rumo a Dover, e é onde nosso anti herói conhece o seu primeiro e grande verdadeiro amor: Dominique. Juntos, eles passam por diversas situações, e Mattieu vai aprender desde muito novo importantes lições sobre amor, traição, amizade e responsabilidade.

Quando Mattieu atinge 50 anos de idade, ele percebe que não envelhece mais fisicamente, e isso o permite acompanhar diversas gerações problemáticas de seu meio irmão Thomas, conhecer muitos tipos de amor, e passar por diversos cargos e empregos, e até mesmo conhecer figuras públicas conhecidas de todo leitor que embarcar nessa jornada de mais de 200 anos de história. Prepare-se para ao longo da narrativa vivenciar fatos e personagens históricos envolvidos de uma forma ou de outra na vida de Mattieu. Enquanto você folheia as páginas, será normal, por exemplo, acompanhar Mattieu trocando amenidades em uma festa com Charles Chaplin ainda jovem buscando sua fama já conhecida por nós na atualidade.

Porém, o livro não se trata de uma lição de história, e sim sobre a principal questão não compreendida pela nossa humanidade em pleno século XXI: pessoas. A obra aborda todas as milhares de pessoas que conviveram com Mattieu e o que estas lhe causaram como efeito. 256 anos são muitos anos para se conviver com especies muito distintas de pessoas.

Existem milhares de personagens neste livro, mais tentarei de uma forma sucinta resumir a obra sendo justa e objetiva: Com uma vida tão duradoura, você esbarra em incontáveis tipos de gente. Mattieu conhece sujeitos honestos e trapaceiros, homens virtuosos que tiveram um único momento de insanidade arrebatadora, porém suficientes para leva- los direto a ruína, e canalhas mentirosos cujos únicos atos de generosidade ou integridade lhe abriram caminho para a salvação. Assassinos, carrascos, juízes e criminosos, trabalhadores e preguiçosos, homens cujas palavras impressionaram e levaram outros a agir, convicções em princípios que ascenderam faíscas de luta e mudanças por direitos básicos do homem, charlatões que leram discursos que não escreveram, homens que proclamaram grandes ambições mais falharam em executa- las, homens que mentiram para suas esposas, mulheres que traíram seus maridos, pais que insultaram seus filhos, descendentes que amaldiçoaram seus ancestrais, bebês nascendo e adultos morrendo, pessoas que precisavam de ajuda e aquelas que Mattieu matou por necessidade. Ele conheceu todo tipo de homem, mulher e criança. Todas as facetas da natureza humana nas terras deste mundo vasto. E ele observou, escutou, absorveu palavras, testemunhou fatos e se distanciou de todos eles com nada mais que suas próprias lembranças para traduzi las de sua cabeça para as paginas deste livro.

Sim, o livro é a forma que Mattieu encontrou para contar sua história e deixar registrado que possivelmente foi e será a única pessoa a atravessar tantos e tantos anos de vida. O curioso é que o próprio Mattieu não entende porque foi abençoado ou amaldiçoado com a vida eterna, ou a síndrome do Peter Pan, se vocês preferirem classificar assim.

O livro é dividido em três fases, que ficam intercalando entre si o tempo todo. Enquanto em um capítulo acompanhamos Mattieu adolescente, no outro vivenciamos suas viagens, seus casamentos fracassados, seus empregos, sua fase adulta e depois ele na atualidade que conhecemos. Tudo isso vira uma junção do que será incumbido para ser o seu futuro. Mattieu possui um carma que vamos entendendo ao longo da leitura: ele nunca consegue se desvencilhar das gerações Dumarqué, sempre que um de seus sobrinhos, que estranhamente carregam o mesmo nome: Tommy ou Tomas, engravidam uma mulher, o bebê homem nasce e o pai morre de forma trágica, e Mattieu paralelamente, nunca consegue manter um casamento, pois também estranhamente uma tragédia acontece levando embora suas escolhidas como companheiras mesmo que a curto prazo, visto que ele não envelhece e consequentemente também não morre.

Na atualidade Mattieu quer mudar o padrão e não ser mais o ladrão do tempo, mais sim permitir que o tempo não seja um ladrão impossível de apanhar. Ele resolve não deixar que uma tragédia aconteça com seu atual sobrinho dos anos 90: o novo Tommy. Não vou entregar o final, mais garanto que nos últimos respingos do livro, um fio branco aparece no cabelo de Mattieu. Seria essa talvez, a salvação? Deixo a mercê da leitura de vocês descobrir a resposta nessas fantásticas 561 páginas.

John Boyne conseguiu trabalhar com assuntos importantes como o valor das pessoas na nossa vida, como nossas atitudes podem gerar consequências boas ou ruins, como o amor pode ser algo traiçoeiro e como a família é uma parte importante na vida de um ser humano. Cada ponto é discutido de uma maneira muito simples, direta e com palavras concretas.

No fim, todas as histórias e todas as pessoas se fundem em uma só. Tem aqueles que não acreditam no destino e na forma como os caminhos são postos na nossa frente. Não sou uma ladra do tempo que poderia convir com uma afirmação destas, mas sou uma aluna do tempo, uma aluna que teve que repetir de ano algumas vezes para aprender que o relógio existe para ensinar que cada segundo, minuto e hora tem relativa explicação para passar rápido ou devagar, para colocar e tirar algumas pessoas de nossa vida, para nos fazer rir e chorar na hora exata, para explicar situações tristes e carregadas de dificuldades, para provar que tudo tem hora para acontecer, seja o bom ou o ruim, e para nos mostrar que a cima de tudo, somos donos do nosso próprio tempo e quem faz dele a duração perfeita somos apenas nós.

Como já dizia Abu Shakur: "Talvez o tempo te ponha na sua escola, pois não terás melhor professor que ele".

Minha nota: 10

terça-feira, 6 de maio de 2014

"Porque o Senhor descerá do céu com alarido e com voz de arcanjo, munido com a trombeta de Deus. Os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com Ele." - Resenha do livro "Os deixados para trás" - Tom Perrotta

Significado de inquietante: Pessoa ou algo que desperta inquietação. Que inquieta, que causa inquietação.

O que aconteceria, se de repente, sem nenhuma explicação, pessoas simplesmente desaparecessem, sumissem no ar sem deixar nenhum rastro para trás? É o que os perplexos moradores de Mapleton, que perderam muitos vizinhos, amigos e companheiros no evento classificado como Partida Repentina, precisam descobrir.

Iniciei a resenha procurando entender o significado do adjetivo inquietante, porque é desta maneira que julgo a obra de Tom Perrota, uma leitura que levanta diversas polêmicas a respeito do arrebatamento.

Passei horas tentando achar uma forma de concluir um pensamento a respeito da inquietante polêmica deste livro, mas prefiro desenvolver a resenha contando um pouco sobre as reações humanas e rotineiras a um evento catastrófico.

Os personagens que compõe esta história são Kevin Gavery, o prefeito da cidade, que tenta a qualquer custo acelerar o processo de cura das pessoas, trazer um sentimento de esperança renovada e um proposito de vida para uma comunidade traumatizada. Ainda que, sua própria família tenha sido desfeita com o desastre: sua cética e agnóstica esposa deixou sua família para se juntar a um culto cujos membros fazem voto de silencio (Os Remanescentes Culpados). Seu filho, Tom abandonou a faculdade para seguir um profeta duvidoso chamado Santo Wayne, e sua filha adolescente, Jill, não é mais a doce estudante que colecionava notas dez na escola. Em meio a tudo isso, Kevin se vê envolvido com Nora Durst, uma mulher que perdeu toda a sua família no 14 de Outubro e continua em estado de choque com a tragédia.

O livro carrega um contexto centralizado no cotidiano moderno, da sociedade do novo milênio, do século XXI. É antes de mais nada, uma crônica. Porém um crônica repleta de inteligência emocional, e uma escrita habilidosa para enfatizar os problemas inerentes a vida comum.

O Arrebatamento ou a Partida Repentina é apregoado por várias religiões, no qual Deus transportaria fisicamente para o céu os escolhidos, que após os sete anos de tribulações que assolariam os que ficariam no mundo, fariam -nos herdar a terra completamente pacificada e renovada. No livro, são premiados os sujeitos de todos os tipos, credos, raças e condições sociais, para desgosto dos mais fanáticos e ortodoxos da religião, em todo o mundo. Pois, cada religião, alega ser ela a unica a conduzir os eleitos ao Paraíso na Terra. Nesse contexto, Tom Perrota usa Mapleton como um teatro para esmiuçar esse cenário. Até que ponto as pessoas que sofreram o Arrebatamento são de fato merecedoras desse fenômeno, ou até que ponto as que ficaram no mundo, ou melhor, deixadas para trás, são desmerecedoras de serem salvas?

A medida em que nos enfronhamos na leitura e com os personagens, vamos conhecendo um pouco mais da realidade por detrás desse estranho acontecimento, e descobrimos que há muita distinção entre santo e demônio, e que, na maioria das vezes, vemos lobos disfarçados de cordeiros, mas nunca o inverso.

Quem não se lembra do 11 de Setembro, e a imagem de pessoas sem rumo, abatidas, desnorteadas e perplexas? A reação do presidente dos USA, de reerguer a moral da cidade, a busca por respostas, o sonho norte americano sendo desfeito, a dor por aqueles que partiram, o fanatismo levado ao extremo e as consequências religiosas e sociais perante o acontecimento que paralisou o mundo? Os deixados para trás é apenas uma história fantasiosa que remete a mim o mesmo ocorrido em uma outra data com uma outra nomenclatura.

Mas o mais polêmico não é nem de longe o tema arrebatamento, e sim, porque reagimos da forma que reagimos a trágicos acontecimentos. O porque da mente humana funcionar de forma tão complexa a uma ordem desnatural das coisas. Eis que escrevo abaixo um trecho do livro que me fez enxergar a verdadeira percepção de inquietante da obra:

"Você poderia ter me dito aquilo que eu já sei - que na verdade, todas as pessoas ficam estressadas, com raiva, e com desejo de ter um pouco de sossego e paz. Não é a mesma coisa que desejar que as pessoas que a gente ama desapareçam para sempre. Mas e se for? E aí? Devo ficar louca com isso?"

Há uma frase de Augusto Cury que me fez acreditar, que posso finalizar essa resenha com ela: "Para mim, há uma loucura racional aceita pela sociedade, e uma loucura irracional condenada por ela".

O que de fato faz você infeliz? Um acontecimento sem explicação, ou sua própria reação igualitária a ele?

Minha nota: 10 com louvor.


OBS.: O próprio autor está adaptando a obra para uma série na HBO. Valerá a pena acompanhar.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

"Há um sentido na dor. Há um motivo e uma direção para ela." - Resenha do livro "A Estrela mais Brilhante do Ceú" - Marian Keyes

"Uma casinha de sapê, foi o que eu fiz só para agradar você. Você não sabe quanto tempo esperei pra isso acontecer. Todos os dias eu me empenhei, para te provar que iria ser bom. Todas as noites no seu olhar, vi que valia a pena. Nem no infinito e nem no luar, existe um brilho tão natural. No céu as nuvens vem desenhar o que já estava escrito." 
E é desta maneira, que apaixonadamente tento fazer de minhas palavras jus a um livro tão cheio de vida e de morte, de amor e de dor, de choros e risos, e de encontros e desencontros. Se eu pudesse definir esta obra de Marian Keyes em uma única palavra, eu diria: antônimos. 
Para que fique claro, eu preciso dissecar cada personagem e sua alta definição do que a vida nos reserva como motivos. A história se passa em uma casa em Dublin, uma dessas casas antigas, de estilo georgiano, que fora convertida em quatro apartamentos. 
No último andar da Star Street 66, mora Katie, uma recém quarentona, que trabalha na área da indústria fonográfica, e passa seus dias bajulando estrelas do rock. Katie se relaciona com Conall, um homem amargurado pela infância sofrida, e que conquistou todos seus milhões dedicando 200% do seu tempo ao seu BlackBerry. No pain no gain, certo? É o que veremos mais pra frente. 
No apartamento de baixo, vive uma jovem taxista chamada Lydia. De personalidade forte e marcante, ela não têm medo de nada, e dividi o pequeno espaço com dois poloneses lindos e musculosos. Lydia parece ser a personagem mais sem contexto do livro, porém é na minha opinião, uma das mais intrigantes. Já chegaremos lá.
Abaixo, mora Jemina, uma senhora idosa com aparentes poderes psíquicos, e seu fiel cachorro Rancor. Essa doce senhora possui um filho adotivo, Fionn, um jardineiro que não se importa com absolutamente nada do mundo material, e vive carregando dentro de seus bolsos "mágicos" mudas de plantas. Além de ser incrivelmente bonito, ele acaba de se tornar apresentador de um programa de TV sobre jardinagem. Será que seu lado simples e mistico vão permanecer intactos por uma esfera altamente dominada por status e matéria?
No primeiro andar, moram o doce casal Matt e Maeve. De tão açucarado, o amargo da vida resolveu desafia-los com um trauma sufocante que os assombra dia e noite através de uma tentativa rotineira de salvamento. Existe escuridão em uma aparência tão magnificamente bela?
Para responder todas as questões, vamos falar sobre o personagem principal, que não mora na Star Street 66, ainda...O livro é narrado por um misterioso espirito, que vive acompanhado por uma especie de guia. Sabe aquela velha lenda que diz que a morte anda sempre lado a lado com a vida? É preciso que um morra para que outra nasça. É exatamente sobre isso que o livro trata. O narrador desta belíssima historia vai nascer, e ainda não sabe quem serão seus pais. Ele passa os capítulos analisando a vida dos moradores da casinha de sapê, intrigado por suas historias de vida. Mas você deve estar se questionando: se algum deles serão os pais deste bebê, quem vai morrer para que isto aconteça? Deixo a mercê de vocês dar um palpite. 
 Kate e Conall possuem corações batendo na mesma sintonia, porém Conall vive divido em se entregar a um amor claramente existente, ou perder toda sua trajetória profissional conquistada pela abdicação total e completa da vida em prol da tão famigerada glória. Lydia por sua vez, passa os dias se matando de trabalhar para ganhar duros trocados ,e cuida sozinha de uma mãe que sofre de demência. Ellen sofreu ao longo da vida diversos pequenos AVC´s, que juntos formaram uma pessoa desestruturada emocionalmente, que vive em uma linha tênue entre a sanidade e a loucura. Fionn abandona sua pacata vida de jardineiro para se tornar um astro da televisão britânica. Ele se pega amadurecendo de forma drástica quando percebe que tudo aquilo que pregava não passava de uma balela bonita de ser dita, mais altamente difícil de ser praticada. Matt e Maeve viveram aquilo que poucos têm a oportunidade de experimentar na vida: o amor a primeira vista. Se amaram desde o momento que colocaram os olhos um no outro. Porém Maeve é estuprada e violentada por seu ex namorado, um homem perturbado que não aceita perder seu troféu por um amor predestinado. O casal passa três anos de suas vidas sem se tocarem, e pensam constantemente em acabar com suas próprias vidas. O que é o amor sem a demonstração física, carnal e emocional?
O grande momento do livro é quando todas essas histórias se entrelaçam, e acontece um grande encontro e desencontro de pessoas e situações. Os casais se esfarelam, uns se relacionam com os outros buscando a salvação imediata de suas dores, mas por algum motivo ou razão, a vida sempre dá a direção correta dos acontecimentos. Enquanto lia essa sucessão de idas e vindas, me lembrei de uma citação de Vinícius de Morais: " A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida".
Cada encontro está carregado de perda. As vezes duas pessoas que se amam, se encontram e são felizes. Ao fim da felicidade, um deles chora, ou fica triste, ou baixa os olhos, ou é invadido por uma inexplicável melancolia. É a perda que está escondida no deslumbramento de cada encontro. O encontro humano é tão raro que mesmo quando ocorre vem carregado de todas as experiencias de desencontros anteriores. Quando você está perto de alguém e não consegue expressar tudo o que está claro e simples na sua cabeça, você está tendo um desencontro. Aquela pessoa que lhe dá um extremo cansaço de explicar as coisas, é alguém com quem você se desencontra. Aquela a quem você admira tanto, que lhe impede de falar, também é um agente do desencontro. Cada desencontro é perda porque é a irrealização do que teria sido uma possibilidade de afeto. É a experiencia de desencontros que ensina o valor dos raros momentos que a vida permite. A própria vida é uma especie de ante sala do grande encontro. Por isso talvez ele nada mais seja que uma provação de desencontros preparatórios da penetração da essência do ser. É por isso ou por aquilo que cada encontro está carregado de perda. É no ato de sentir- se feliz, que se associa a ideia do passageiro, que é tudo, do amanha cheio de interrogações, da exceção que aquilo significa. A partir dai, uma tristeza muito particular se instala. A tristeza feliz. A tristeza feliz é a que só surge depois dos encontros verdadeiros, tao raros. Os encontros verdadeiros prescindem de palavras, eles realizam em cada pessoa, a parte delas que se sublimou e ficou pura. É esta certeza, a da perda, que provoca aquela lágrima ou aquela angústia que se instala após os verdadeiros encontros. Há sempre uma despedida em cada alegria. Há sempre um "E agora?" após cada felicidade. Há sempre uma saudade na hora de cada encontro. Disso só se salva quem se cura, ou seja, quem deixa de estar feliz para ser feliz, quem passa do estar para o ser. 
Uma história de muitos encontros e desencontros, de perdas marcadas por cicatrizes eternas, de medos profundos de acreditar que a vida pode recomeçar e o principal, da cura através da morte e da vida.
Deixo para reflexão, uma pergunta: Qual é a sua estrela mais brilhante do ceú? Aquela que já se foi ou aquela que ainda está esperando sua vez de chegar?
Minha nota: 10 com louvor!

quarta-feira, 19 de março de 2014

"Primeiro eles o ignoram, depois riem de você. Em seguida lutam com você, e então você ganha" - Resenha do livro "Perdão Leonard Peacock" - Mattew Quick

Os heróis e vilões das histórias populares raramente são o que parecem ser. Cruzado de um homem é o assassino de outro homem.

Nunca é fácil julgar uma pessoa, mesmo com todos os fatos expressamente aparentes. E ainda assim, os pseudo culpados ficam a mercê do julgamento final. Mas a história raramente faz as coisas direito. Embora a ciência da história é toda sobre fatos, a concepção moderna da história raramente é precisa. A percepção de eventos passados é tão manchada por séculos de propaganda antiga que pode ser difícil de discernir a verdade da nossa sociedade própria, como se fossem interpretações coloridas.

Olhe ao seu redor nesse momento, procure por noticias na internet, em seu tablet, jornal ou revista impressos. O mundo está cercado de coisas ruins, males diários que passam por nós sem que, muitas vezes, possamos sequer notar. Não é o caso do protagonista do livro de Mattew Quick. Leonard Peacock se importa. Sua luta diária é não deixar o mundo destruí-lo, mais do que possivelmente já o estilhaçou por dentro.

A narrativa desta obra se passa praticamente em torno de um único dia, o aniversário de 18 anos de Leonard, e também o dia em que ele escolheu para matar seu ex melhor amigo e depois se suicidar com uma P-38 nazista- "Mato você mais tarde - digo para o sujeito no espelho, e ele apenas sorri de volta, como se mal pudesse esperar" (uma das frases mais chocantes que li apenas no primeiro capítulo do livro).

Além de carregar a arma que foi de seu avô, Leonard também embrulha quatro presentes com papel cor de rosa para entregar as pessoas mais importantes de sua vida, antes de completar sua missão. É por isso que as pessoas dão presentes, certo? Por que não sabem como se expressar em palavras, então dão presentes para expressar simbolicamente seus sentimentos.

Leonard pretende se despedir de quatro pessoas: Walt, seu vizinho idoso e solitário com quem passa o tempo assistindo filmes de Humphrey Bogart; Baback, um garoto de sua escola e talentoso violinista, mas que não quer ser seu amigo por o achar um tanto quanto estranho; Lauren, uma jovem cristã que ele conheceu no metrô, e que tenta a qualquer custo o converter para conhecer o amor de Jesus Cristo, e por fim, Herr Silverman, um educado e muito competente professor, que ensina aos seus alunos sobre Holocausto, promovendo debates e reflexões dignos de te prender por horas, talvez dias a fio no assunto.

Em todas as visitas para a entrega dos presentes, percebemos que Leonard tenta de uma forma quase suplicante que aquelas pessoas o tirem do abismo que ele se encontra, e que o salve de sua missão, mas nenhuma delas consegue enxergar a profundidade de sentimentos que habita o jovem, até então, pré julgado como "esquisito". Admito que até certo ponto do livro eu mesma cheguei a pensar que ele tinha problemas freudianos em relação ao papel de seus pais em sua vida, e seria mais um adolescente clássico de estórias trágicas modernas que sai atirando em seus amigos e depois se mata.

A mágica do livro é que somos levados a julgar até nosso limite (lembrem se dos fatos expressamente aparentes), para depois ganhar de brinde um grandíssimo tapa na cara, revelando a verdadeira mensagem deste livro.

Os capítulos são quebrados por algumas "cartas do futuro". Nelas existem mensagens reconfortantes de como seria o futuro de Leonard, pedidos de força e superação, que são escritas pelo próprio protagonista, a fim dele tentar enxergar algum motivo para não se matar. A parte realmente emocionante do livro são as tais cartas, que apresentam um cenário otimista, e pessoas que realmente entendem a essência de Leonard, e pedem para que ele não acabe com sua vida. Neste momento, entendemos o que de fato aconteceu.

Leonard foi abusado sexualmente por anos a fio pelo seu melhor amigo, Asher. Sua mãe é uma mulher completamente ausente, que chegou a pegar os dois nus em seu quarto e nada fez a respeito, seu pai, um ex viciado em drogas e também alcoólatra, está perdido no mundo, e Leonard não têm ninguém a não ser a sua própria consciência.

Perdão Leonard Peacock, traz a tona problemas sociais muito comuns nos dias de hoje, porém repassáveis aos nossos olhos frustrados com nossas vidas entediantes e nossas dividas intermináveis.

Como funciona a mente de um jovem que sofre buylling e possui pais relapsos? Como você imagina a luta interior de uma pessoa para viver dessa maneira? Leonard tenta a qualquer custo enxergar positividade antes de tomar uma decisão fatal. Ele se veste como um adulto todos os dias depois da escola e anda de metrô sem rumo analisando as pessoas, para tentar enxergar na escuridão alguma possibilidade de luz. E o que ele vê? Pessoas cabisbaixas, que só reclamam e xingam umas as outras porque estão bravas com seus chefes mandões, com seus maridos e esposas ausentes, com filhos barulhentos e a falta de sono. Leonard escreve em suas cartas do futuro uma vida simplória, onde o aniversário de seus filhos são lembrados todos os anos, onde um sorriso vale mais do que dinheiro e onde os seres humanos possam se olhar nos olhos sem nada a temer.

Sei como é difícil ser diferente. Mas também sei a arma poderosa que ser diferente pode vir a ser. Como o mundo precisa de tais armas. Gandhi era diferente. Todas as grandes pessoas também pessoas únicas, precisam procurar outras pessoas únicas que as entendam, para que não fiquem muito solitárias e salvem as pessoas normais delas mesmas.

Por fim, quando Leonard percebe que ele não pode mudar o mundo, mas que ele pode mudar a percepção da vida dentro de si mesmo, ele coloca em pratica aquilo que Antonie de Saint Exupéry já pregou uma vez em sua vida: "É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues fazer um bom julgamento de ti, és um verdade sábio".

Um deleite de verdades, uma realidade injusta e cruel, um triste recomeço, porém uma leitura belíssima em essência e ensinamento de vida. Minha total e singela indicação de horas de reflexão sobre seus próprios julgamentos internos e externos. Você tem coragem de se enviar uma carta do futuro?

Minha nota: 10

terça-feira, 11 de março de 2014

Um livro por semana, dá?

Vivem me perguntando "Como você consegue ler tantos livros?"

Eu respondo "Não sei, apenas pego um livro na mão e não consigo mais parar de ler".

A leitura me curou em muitos sentidos, me faz viajar para bem longe sem ter que sair de casa, sorrir sozinha e até mesmo derrubar algumas lágrimas, afinal ninguém é de ferro. Mas para resumir, eu sou mai feliz porque toda semana tenho um livro diferente em minha cia.

O post abaixo dá algumas interessantes dicas para quem admira e gosta de uma boa leitura, mas acha humanamente impossível conseguir ler um livro por semana. Garanto, tem como concluir esta proeza, e ainda se sentir muito satisfeito com isso.

http://www.brasilpost.com.br/julien-smith/como-ler-muito_b_4941486.html

Divirta-se e boa leitura.

quinta-feira, 6 de março de 2014

"A palavra casa não é um lugar. É uma pessoa. E nós, finalmente, estamos em casa" - Resenha do livro "Anna e o Beijo Francês" - Stephanie Perkins

Por mais que eu tente, o meu lado Shakespeare de ser e sentir a vida, não me deixa nem mesmo nos momentos que penso que não posso mais ser uma menininha apaixonada por romances mamão com açúcar. Pois bem, eis que cai em minhas mãos uma história assim, que sem mais nem menos me fez pensar em Neruda e seu amor platônico incansável e inabalável: "Eu a amo como certas coisas obscuras são amadas, secretamente, entre a sombra e a alma".

Você já entendeu por esse inicio, que temos dois personagens centrais: um que ama solenemente e outro que ama secretamente. Sim, eles demoram o livro inteiro para enxergar que nosso amigo aspirante dos amores platônicos tinha toda razão do mundo ao poetizar que os amantes amam em silêncio, e perdem a grande chance de serem felizes porque amar dá medo, tomar decisões dá medo, respirar dá medo, mas como qualquer necessidade biológica, é um mal mais do que necessário.

Vamos aos protagonistas deste belo e simplista romance: Anna Oliphant, é uma menina de 17 anos, filha de um escritor famoso. Eles têm uma vida em Atlanta tipica de comercial de margarina. Anna têm uma melhor amiga, um emprego e um garoto que ela espera que seja seu futuro namorado. Sua modesta vida dá uma reviravolta quando seu pai resolve a mandar para Paris para terminar o ensino médio na SOAP (School of America in Paris). Como qualquer adolescente, Anna não se sente nada feliz em sair de sua zona de conforto e acredita que seus dias vão acabar da forma mais horrenda que existe, longe de tudo que para ela era considerado seu precioso e imaculado lar.

Seu primeiro dia de aula não foi dos piores, levando em conta que ela conhece ótimas pessoas, dispostas a serem seus amigos e lhe apoiar nessa brusca mudança de cultura e costumes. Dessa forma, Anna conhece Meredith, Rashimi, Josh e o lindo, popular e inteligente St. Clair. Tudo perfeito, tirando o fato de que o aspirante a arrancar suspiros por onda passa, namora há uma eternidade a precoce e perfeita Ellie, que já adentrou o mundo universitário bem antes de seus amigos. Se não bastasse, Meredith é secretamente apaixonada por St. Clair, e você já pode imaginar que assim se forma um torturante quadruplo amoroso.

Anna não sabe falar francês, e isso complica um pouco sua vida na capital do romance. Eis que o príncipe encantado, ops, St. Clair começa a se aproximar de Anna, ajudando a pedir comida, passear por Paris, e aos poucos se soltar e conseguir se virar sozinha. Logo, ela pega o jeito, e com o passar do tempo, ela e St. Clair se tornam melhores amigos, inseparáveis, daqueles que leem o pensamento um do outro apenas com um olhar.

Já em Atlanta, sua melhor amiga e Toph, (o garoto pelo qual Anna ansiou o ano todo para voltar a ver, afinal de contas, ele gostava dela e eles iam ser felizes para sempre), começam a namorar, e Anna percebe sutilmente que ali não era mais a sua cidade e que ela não se sentia mais em casa. Será possível que lar era uma pessoa e não um lugar?

No meio desta reflexão, Anna percebe que está perdidamente apaixonada por St. Clair, um menino que exala sensualidade, mas por outro lado, é um complicado e torturado ser humano. Sua mãe têm câncer terminal e seu pai é um homem egoísta e mulherengo. Como consequência, ele não consegue se ver sozinho, e sofre a distancia pela paixão por Anna e o medo o proibindo de terminar com Ellie e de dar esperanças a Meredith. Já que sua vida se resume a não saber qual passo dar para andar para frente, então melhor ficar parado no mesmo lugar, certo? Errado!

De novo eu cito Shakespeare: "Nossas dádivas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar".

Como todo bom romance que se passa no cenário da belíssima Paris, a cidade dos eternos apaixonados, Anna e St. Clair têm seu momento derradeiro com direito ao beijo que sela por consequente a felicidade eterna do descobrimento da dominação do medo.

Não vi este romance como mais um clichê onde duas pessoas se apaixonam loucamente mas não podem ficar juntas, e depois de muito derramamento de lagrimas, ficam juntas no final para nos passar a ideia de que depois da tempestade existe o pote de ouro no fim do arco iris. Não, eu vi muito mais do que isso.

Vi o medo de amar e ser amada, vi escolhas esdruxulas para apaziguar uma solidão eterna e o cobrimento de uma faceta falsa. Vi o descobrimento do amor próprio, do renascer de uma maturidade, da força indescritível do amor, e da tranquilidade que uma descoberta pode fazer dentro de um ser humano repleto de qualidades e defeitos, cheio de emoções pervertidas e um coração cheio de pedregulhos colados com cola de terceiro calão.

Vi tanto Shakespeare na minha frente, que cito ele novamente: "Estas alegrias violentas, têm fins violentos, falecendo no triunfo, como fogo e pólvora, que num beijo se consomem".

Anna e o beijo Francês, este título carrega muito mais do que um história de amor de adolescentes. Se você for um eterno apaixonado por esse sentimento que de impecável não tem nada, você vai ver sua força em cada palavra, cada frase e em cada cena imaginativa de Anna e St. Clair  na bela e romântica Paris, definitivamente o meu lugar preferido no mundo. Pois foi ali que também iniciei uma jornada de fins violentos e o inicio de uma vida mais repleta de significados.

Para saber o que acontece com os outros elementos deste romance, recomendo ler, mais leia com o coração, se não ele não vai passar de uma passatempo sem sentido e muito simplista aos olhos de quem nunca sofreu por amor. Lembre-se, assim como a lição desta obra: se você não tentar, não vai sair do lugar. Que tal abrir a primeira página?

Minha nota: 9,5