quarta-feira, 6 de agosto de 2014

"Sei que deve ser uma experiência muito ruim para você, mas acredito em milagres. Sei que parece brega, mas eu acredito." - Resenha do livro "Deixe a neve cair" - John Green, Maureen Johnson e Lauren Myrhcle.

Você gosta de matemática? Lembra-se daquelas expressões, onde no final, depois de somar, subtrair, dividir ou multiplicar, você obtém o valor exato de X? Acredito que nos acostumamos com isso, e achamos absolutamente normal encontrar um valor ausente através de um pouco de método e lógica, mas eu particularmente acho essa linguagem fantástica. E é a mesma matemática absurda que permite a criação de computadores, submarinos, naves espacial, satélites e por aí vai. Essa, em minha opinião, é apenas uma descoberta casual do homem.

É apenas na lógica que abrigam todas as respostas aos conflitos existenciais do ser humano? A matemática e a lógica transcendem a existência racional, e dá lugar há algo muito mais misterioso e sem a menor explicação, pelo menos até o presente momento: o acaso. O velho ditado "Nada é por acaso" tem um quê de romantismo, contudo, não é possível que esse mundo seja conduzido apenas de acasos. As pessoas se acostumaram com o mundo como ele é, assim como aceitam fatos incompreensíveis da vida como fatalismo, mas eu me nego a acreditar nisso. Vejo o mundo de forma grandiosa, até mesmo a nossa natureza limitada, porém livre, que nos força a superar nossos próprios limites, tanto como indivíduos, como em coletividade. Torço para que essa mesma coletividade não demore muito para compreender, finalmente, a grandeza da vida e a inteligência divina na qual vivemos imersos.

Iniciei desta maneira para falar sobre um livro que abriga justamente o mistério do acaso. “Deixe a neve cair” é um livro colaborativo, que reúne três contos que se passam durante uma nevasca natalina, e de certa forma, se cruzam em determinado momento formando uma única história. Não são simples histórias fantásticas de acasos no período mais altruísta do ano, mas sim, histórias de amor adolescente, recheados de misticismo e encontros interiores dignos de um espetáculo de cinema.

A primeira história (O Expresso Jubileu) escrita por Maureen Johnson, fala sobre Jubileu, uma adolescente de 16 anos portadora de um nome bem esquisito. Na véspera de Natal, ela é obrigada a pegar um trem para a casa dos avós, na Flórida. Obrigada porque seus pais cometeram um "pequeno" deslize natalino e foram parar atrás das grades. Claro que sua viagem não seria tão emocionante se o trem não atolasse no meio de uma nevasca, e ela se encontrasse cercada por um bando de cheerleaders insuportáveis e longe de seu namorado perfeito, que comemoraria com ela um ano de namoro no dia do Natal. Drama concluído, Jubileu em um momento de fúria extremada, resolve sair do trem e caminhar na neve até uma Waffle House, e é lá que conhece seu acaso: Stuart. Um simpático rapaz que muda literalmente seu caminho, e a faz refletir sobre aceitação. Quem nunca se contentou com migalhas? Jubileu namora um rapaz egoísta, que só possui tempo para si próprio, e sua importância em relação à namorada é nota dez negativo. Aqui vai minha primeira pergunta: Todo este drama precisava acontecer desta maneira para que Jubileu aceitasse sua condição, e tivesse a possibilidade de mudar sua história através de uma nova chance para si própria? Qual expressão matemática caberia neste caso? Subtração, certo? Tirar um para obter um melhor resultado no final.

O segundo conto escrito pelo aclamado John Green (O Milagre da Torcida de Natal), apresenta três personagens: Tobin, JP e Duke (a única menina do pequeno grupo). O trio de amigos está disposto a tudo por um pouco de diversão, afinal de contas, quem gosta de passar a véspera de Natal preso em casa por causa de uma nevasca assistindo a toda coleção de DVDS do James Bond? A emoção começa quando Tobin recebe uma ligação de seu amigo Keun, coordenador da Waffle House, alertando os amigos de que a nevasca paralisou um trem a caminho da Flórida, e a lanchonete está repleta de cheerleaders. Tobin e JP logo se animam e carregam Duke, que apesar de achar tudo uma babaquice adolescente, só consegue pensar nas batatas rosti que vai comer ao chegar à Waffle House. O conto basicamente fala sobre a saga do trio para chegar à lanchonete, dirigindo e caminhando no meio da neve pesada, enquanto tentam sobreviver aos outros valentões que têm o mesmo objetivo dos garotos. No meio desta aventura, o acaso chega de forma tímida para Tobin e Duke, que descobrem um sentimento mútuo um pelo outro, porém escondido pelas amarras da amizade. Então aqui vai minha segunda pergunta: Era necessário um carro quebrado, um par de pernas congelando e uma fuga articulada de policiais para que duas pessoas descobrissem que amam uma a outra? Se não fosse este episódio, os dois seguiriam seu caminho longe um do outro? Eu diria que a expressão matemática que melhor se encaixa neste caso é a soma. Tobin e Duke aprenderam nessa jornada a somar uma grande amizade, e a descoberta de um amor adormecido resultando em uma parceria perfeita.

O terceiro e último conto (O Santo Padroeiro de Porcos) escrito por Lauren Myracle, fala sobre Addie, uma adolescente deprimida pelo fim de seu relacionamento com Jeb. O fato, é que durante o conto descobrimos que Addie é uma menina egocêntrica, que mete os pés pelas mãos muitas vezes, mas está disposta a mudar isso e quer mostrar essa mudança a todos que conhece. Tudo começa quando Addie quer mudar o namorado e o acaba traindo com Charlie, porque acha que seu protótipo de perfeição nunca vai existir. Quando sua ficha começa a cair de que a perfeição não existe nem no outro e nem dentro dela, ela pede para que Jeb a encontre em seu local de trabalho, porém o mesmo está dentro do trem que estava indo a Flórida, e ele não consegue comunicação com sua amada para explicar que está preso em um Waffle House devido a uma forte nevasca. O que Addie logo entende é que seu ex-namorado não vai aparecer e muito menos a perdoar pelos seus erros, e o drama todo parte daí. Suas melhores amigas a consolam e a forçam a enxergar que seu egocentrismo têm que acabar, e então uma delas lança um desafio à amiga: ela comprou um mini porquinho chamado Gabriel e pede a Addie para busca-lo no primeiro horário em uma loja que fica a apenas um quarteirão do seu local de trabalho. Claro que Addie não consegue cumprir sua missão, mais uma vez por só pensar em si própria e nos seus problemas, quando o acaso lhe coloca uma senhora em sua vida, que diz uma das melhores frases do livro: “Não é o que o universo nos dá que importa. É o que nós damos ao universo". Desta maneira Addie percebe todos os erros cometidos até então e alcança a redenção e a compreensão de que o problema externo na verdade estava o tempo todo habitando o seu interior. Minha terceira e última pergunta: É na dor que aprendemos a nos enxergar verdadeiramente e buscar a melhoria de nossos atos perante o coletivo? Neste caso eu diria que Addie usou da divisão matemática para aprender que nem tudo gira em torno de si própria, às vezes é necessário sair de dentro da caixa para conseguir enxergar o outro.

Neste caso só faltou à multiplicação, então convido a você leitor, que multiplique estas pequenas histórias para a sua vida e a dos outros que conhece, até porque, não temos que esperar que só o acaso trabalhe ao nosso favor. Nós também podemos enxergar em nós próprios nossas expressões matemáticas e somar, subtrair, dividir e multiplicar nossos atos a nosso favor e da sociedade que vivemos. Está esperando o que para achar o seu resultado perfeito?

Minha nota: 8,5

sexta-feira, 25 de julho de 2014

“Toda pessoa deveria ser aplaudida de pé pelo menos uma vez na vida, porque todos nós vencemos o mundo.” Resenha do livro "Extraordinário" - R. J. Palacio

"Não importa o que você seja quem você seja ou o que deseja para a sua vida. A ousadia em ser diferente reflete na sua personalidade, no seu caráter, naquilo que você é verdadeiramente. É assim que as pessoas lembrarão de você um dia."

O livro de estreia da americana R.J. Palacio traz à tona a luta contra o preconceito ao contar a história comovente e simpática de um menino de 10 anos de idade, que nasceu com uma síndrome genética cuja sequela é uma severa deformidade facial. Dizem que o seu rosto é o seu cartão de visita, mas o protagonista desta história, August, vem provar que as coisas não são como dizem por aí.

O livro começa sendo narrado pelo próprio August, contando um pouco como é viver enclausurado dentro um rosto pouco comum. Com pitadas de humor, o pequeno grande homem narra em detalhes as dezenas ou talvez milhares de cirurgias a qual já foi submetido em apenas 10 anos de vida, e como ele tem consciência, com tão pouca idade, o quanto um rosto pode bagunçar a vida de muitas pessoas.

August Pullman é fruto de combinações genéticas muito pouco usuais, e por isso, ele nasceu com uma má formação craniana, que faz com que cada parte do seu rosto pareça errada: olhos caídos e baixos demais, bochechas encovadas, uma boca estreita e orelhas praticamente inexistentes. Ao ler essa descrição, como você se sentiria se cruzasse com alguém semelhante na rua? Se assustaria? Abaixaria os olhos para não olhar? Faria uma expressão de susto e medo, e ao mesmo tempo de pena? O incrível é que, por mais que o ser humano possua princípios e ideais, ainda não conseguimos controlar nossas reações à incompreensão de fatos incomuns. E a graça do livro mora justamente no entendimento desta incompreensão. Extraordinário consegue captar o impacto que um menino pode causar na vida e no comportamento de todos, família, amigos e de toda uma comunidade. Já adianto que é um impacto forte, comovente, e sem dúvida nenhuma, extraordinariamente positivo.

Por causa de seu rosto e como consequência alguns problemas respiratórios e auditivos, August sempre estudou em casa com a sua mãe, porém, seus pais acreditam que chegou o momento dele encarar uma escola de verdade, e é quando eles matriculam o filho na Beecher Prep. Quando pequeno August costumava usar um capacete de astronauta para se esconder das pessoas, mas na escola isso não será mais possível, então pela primeira vez, ele vai sentir o que é ser diferente dos demais.

O livro se torna brilhante, quando a cada inicio de um capitulo, somos surpreendidos por narradores diferentes. Em um capítulo somos apresentados a Olivia, irmã de August, depois a algum de seus novos amigos da escola e por último, de volta a August. Essa foi uma estratégia e tanto da autora, porque ela fez exatamente o que nós deveríamos ter feito em todo o momento: conhecer August às cegas, para que percebêssemos que ele não passa de um menino comum como qualquer outro da sua idade, para só depois nos atentar ao fato de que ele possui uma síndrome genética.

O livro possui muitos trechos que nos trazem para uma realidade que acima mencionei ser a principio, incompreensível. "Nós não precisamos de olhos para amar, certo? Apenas sentimos dentro de nós".

Além de amor, vou falar sobre o sentimento pouco praticado pelo homem, mas que depois de ler este livro, me peguei pensando o porquê da vida ser tão complexa quando nos falta, gentileza. Não basta ser gentil. Devemos ser mais gentis do que precisamos. O ser humano não carrega apenas a capacidade de ser gentil, mas a opção pela gentileza. Em um dos capítulos, August conversa com sua amiga Summer, e o mesmo pergunta a ela "Você acredita que quando morremos, nós nascemos de novo em outro corpo?". Quando Summer responde que sim, acredita que todos têm uma segunda chance de voltar, August se anima com o fato de em sua segunda chance não nascer com um rosto deformado.

O que o próprio August não percebe, é que mesmo sofrendo tanto preconceito, ele causa um impacto enorme na vida das pessoas. A obra de Palacio nos mostra que cada pessoa, seja quem for, é responsável também pela vida daqueles que a cerca. Extraordinário é uma história simples, porém que emociona, e mostra através da inocência de crianças, como pequenas ações podem mudar a vida de alguém: o estender de uma mão, um sorriso, um abraço, uma pequena e imensa aceitação, ou apenas um toque de conforto. Com quantos August você tromba sem querer todos os dias? Pode ser que ele não tenha um rosto deformado, mas pode estar simplesmente precisando de um ombro amigo e de uma palavra de encorajamento. Pode estar apenas precisando mostrar do que é capaz. Porque, como o próprio August diz: "Toda pessoa deveria ser aplaudida de pé pelo menos uma vez na vida, porque todos nós vencemos o mundo".

Deixo aqui um preceito para servir de reflexão e também, de motivação para a leitura desta grande história:

"Faça todo o bem que puder de todas as maneiras que puder de todas as formas que puder, em todos os lugares que puder em todos os momentos que puder, sempre que puder". - Regra de John Wesley

Por fim queria dizer: August, você é mesmo extraordinário!

Minha nota: 10

sexta-feira, 11 de julho de 2014

"O passado não me ofusca, nem o futuro. Concentro-me no presente, porque é nele que estou destinado a viver" - Resenha do livro "Todo dia" - David Levithan

"Nunca vou ter uma fotografia dela para levar no bolso. Nunca vou ter uma carta com a letra dela, nem um álbum de recortes com tudo que fizemos. Nunca vou dividir um apartamento com ela na cidade. Nunca vou saber se estamos ouvindo a mesma canção na mesma hora. Não vamos envelhecer juntos. Não vou ser a pessoa para quem ela liga quando tem problemas. Ela não vai ser a pessoa para quem vou ligar quando tiver histórias para contar. Nunca vou conseguir guardar nada que ela me deu. Apenas digo adeus enquanto a observo dormir. Fecho os meus olhos, e também adormeço".

É desta maneira que vive A, um garoto ou uma garota de 16 anos que todos os dias vive uma vida diferente em um corpo diferente por exatas 24 horas, até pular para o próximo corpo e para a próxima vida. Não há uma definição clara do que A seria: um humano, um espírito, um alienígena ou uma entidade. Na verdade, o que menos importa é saber o que é A, e sim, entender que, sendo o que ele for, ele é capaz de sentir. E porque não sentir o sentimento mais nobre de todos? O amor?

A é assim desde a sua existência, embora ele só tenha memórias a partir de quando era criancinha, como nós mesmos, afinal, é difícil alguém se lembrar de algo quando era bebê.  Conforme os capítulos se desenrolam, vamos entendendo melhor a vida de A, e a forma como ele lida com a sua suposta missão, qual o seu papel em um universo tão complexo chamado vida. Ele não têm a menor ideia do porquê é assim, e também nunca se questionou muito a respeito disso, apenas sofreu como qualquer pessoa sofreria de não ter uma mãe, um pai ou irmãos para chamar de seu, nem o seu próprio guarda roupa,  nem seu estilo musical preferido, nem os seus melhores amigos, nem o seu livro preferido ou suas próprias manias, qualidades ou defeitos.

O que A aprendeu ao longo de seus 16 anos foi não interferir na vida das pessoas que tiveram seus corpos habitados por ele durante 24 horas. Ele apenas acorda, acessa as memórias mais relevantes do corpo para saber do que precisa para passar o dia, e continua apenas vivendo. Ele segue a risca o ditado "Cada ação, uma reação", e procura se abster de qualquer atitude que possa gerar conflito na vida daquele corpo quando no dia seguinte ele já tiver ido embora.

Tudo muda de cenário quando A acorda no corpo de Justin, e conhece sua namorada, Rhiannon. Quando Justin, ou melhor A, a encontra em uma rotina normal do casal, ele percebe nela uma grande tristeza, e a enxerga profundamente, diria que exatamente quem é a sua pessoa. Não é como estar dentro do corpo dela e acessar suas memórias mais relevantes, mas sim, entender do que é feito a pessoa de Rhiannon, porque ela é quem é. Seus detalhes físicos são deixados de lado, porque para A, o exterior nunca foi algo importante, ele mesmo não possui uma forma, mas sim uma alma, ele é ele de uma maneira sem definições físicas, e é exatamente desta maneira que ele enxerga Rhiannon, quando a vê pela primeira vez. E o resultado disso, é o nascimento de um sentimento que ultrapassa barreiras e acaba com paradigmas e esteriótipos, o velho e bom conhecido amor. Dizem que o amor só é verdadeiro quando não vemos, e sim quando enxergamos o outro. Começo a não mais duvidar disso.

Deste dia em diante, A deixa a prudência de lado e a regra silenciosa de não interferir na vida de ninguém, e começa uma busca incessante para conquistar o coração de Rhiannon, mesmo não sendo a mesma pessoa fisicamente todos os dias.

O livro tem tudo para ser piegas e mais uma história de amor impossível, mas garanto, ele não é. A forma como o personagem de A é desenvolvido e o mistério que o ronda, que pasmem, mesmo chegando ao final do livro, ainda não fica claro quem ele é ou o porquê ele é desta maneira, acaba não se tornando o foco principal da obra. Não existe uma explicação cientifica, espiritual, mítica ou magica por detrás de A. Você simplesmente conhece A, e pronto. O fantástico desta história é perceber que a vida é muito mais do que imaginamos. Foi incrível conhecer tantas pessoas e vidas diferentes, e como A lida com todas elas. Ele já foi gay, jogador de futebol americano, a garota mais popular da escola, lésbica, drogado, depressivo, suicida, uma pessoa normal com uma família abusivamente feliz, um nerd, um poeta, um cristão fanático, um ateu e etc. A é um ser fantástico porque é totalmente desprovido de preconceito. É algo, ou mesmo alguém, que todo ser humano deveria tentar ser. Lendo a obra de David Levithan me lembrei de uma citação de Luiz Gasparetto: "Enfrentar preconceitos é o preço que se paga por ser diferente".

A história de amor entre os dois adolescentes e as formas que A encontra de ser honesto com Rhiannon e provar a ela que ele é ele mesmo em essência e não em corpo físico, não é a grande lição deste livro e nem o enredo principal da trama. Para mim, a verdadeira mensagem está por trás da forma como cada ser humano possui um valor insubstituível e imensurável com suas experiencias e suas expectativas em relação ao verdadeiro e grande mistério, a vida.

Ser humano é algo incrível. Não quero dizer o "ser humano", mas sim, ser um humano. Viver neste mundo pela ótica da espécie mais evoluída do planeta terra. Isso é indiscutivelmente inenarrável. Ser humano é ter dentro de si teorias, teoremas, técnicas, pressupostos e até soluções. Para fazer andar a vida de uma forma que nos faça sentir uma capacidade, ainda que limitada de controlá-la. Mesmo sabendo que sem fazer nada, ela vai continuar andando. Mas, para onde? É por isso que a dirigimos, a direcionamos, para que desta maneira ela siga um rumo. Mas qual a linha final, afinal? Ser humano é acreditar nos relacionamentos interpessoais. Ser humano é ser movido por paixões, sentimentos e valores, e quando nada disso dá certo, vai por instinto mesmo, até muitas vezes, selvagem. Ser humano é viver dois mundos num só, cheio de zilhões de outros mundos de outros seres humanos. O mundo como ele é e o mundo como nós achamos que ele é, cada mundo, de cada ser humano, é único e inabitável por outro ser que não seja ele próprio. Todo mundo quer fazer parte do mundo do outro e que os outros façam parte do seu mundo. Não diziam na escola que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço? Passamos a vida em devaneios, acreditando na verdade das nossas mentiras e na certeza das nossas dúvidas. Ser humano é encontrar alguém especial, sentir algo especial por esse alguém especial, e fazer sexo de forma especial com esse alguém especial por quem se sente algo especial. É multiplicar seres especiais nesta mesma linhagem. Para os seres humanos, damos o nome de amor. Ser humano é ter esse tal amor dentro de si, fora de si, em volta de si, por baixo e por cima de si. Ser humano é ser capaz de contar o tempo em horas, contar a infância em series, contar a vida em realizações e prodígios. É ir contra a natureza dos fatos, dos atos, dos outros habitantes do planeta. É achar que o mundo precisa de nós, sem querer sequer pensar na hipótese de que somos nós que precisamos do mundo, pois é por causa dele que somos afinal, seres humanos.

A, entende profundamente o que é ser um humano, e toma a decisão derradeira de um verdadeiro ser aquém da humanidade incorrigível: o dom de amar verdadeiramente. A lembrança de um sentimento incompreendido pode valer mais do que o destino de um presente, de um passado deixado para trás e de um futuro construído com base no entendimento de uma identidade.

Essa é a grande lição.

Minha nota: 9,0

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Porquê ler?

Vivem me perguntando porque eu gosto tanto de ler, e como consigo ler tão rápido.

Não sei ao certo explicar como isso acontece, mas todas as vezes que me questionam, eu fico com vontade de citar milhões de motivos porque os livros são responsáveis por tantos benefícios a mente humana.

Os livros e suas milhões de historias fantásticas e reais, me salvaram de uma maneira que acredito que nada poderia ter o mesmo resultado.

Para dividir com vocês um pouco dessa sensação, deixo uma reflexão de alguns motivos interessantes.

Aventurem-se! Boa leitura.


segunda-feira, 16 de junho de 2014

"Os grandes feitos são conseguidos não pela força, mas pela perseverança." Resenha do livro "Cheio de Charme" - Marian Keyes

A violência, seja qual for a maneira como ela se manifesta, é sempre uma derrota. Iniciei a resenha desta maneira, para abordar um tema muito delicado.

Podem me chamar do que quiser, mas sou uma fã invicta dos livros da Marian Keyes. A autora sempre aborda temas polêmicos através do humor branco e negro. Quando peguei o Cheio de Charme na mão, não fazia ideia do que se tratava, e entrei tão profundamente na história que não pude deixar de sentar em frente ao computador e respirar dezenas de vezes para fazer de minhas palavras jus a tantas mulheres que já passaram ou passam por uma situação onde perdem toda sua dignidade em nome de um sentimento que acham que seja o amor.

O livro é composto de 800 páginas narrado em primeira pessoa por quatro mulheres: Lola, Grace, Marnie e Alicia. Cada capítulo é dedicado a uma delas de forma alternada, não fazendo muito sentido no inicio, mas posteriormente indicando que as quatro personagens possuem uma ligação em comum: Paddy De Coury, um charmoso e mulherengo político da Nova Irlanda. No inicio eu fui levada a acreditar que a história envolveria a decepção destas quatro mulheres com este homem, e de que maneira elas deram a volta por cima desta situação, o velho e o bom clichê de um amor acabado e de como é possível esquecer as inseguranças e os medos para abrir o coração novamente para um sentimento nobre.

 Lola é uma consultora de moda que perdeu a mãe a pouco tempo, e costuma conversar com seu espirito diariamente buscando conselhos divinos para suas tomadas de decisões. Em uma dessas conversas, no cemitério, ela conhece Paddy, que por coincidência também perdeu a mãe quando ainda era uma criança. Eles começam a conversar e iniciam um relacionamento baseado em sexo selvagem e muita perversão.

Marnie é irmã gêmea de Grace e as duas conhecem Paddy e Alicia desde adolescentes. Grace, uma jornalista audaciosa, se apaixona a primeira vista por Paddy, porém quem ganha a atenção do moço é sua irmã Marnie. Eles namoram por muitos anos e vivem um relacionamento repleto de um ciumes doentio. Sua melhor amiga, no caso, Alicia também possui uma paixonite pelo tão charmoso e irresistível De Coury, e faz de tudo para afastar Marnie de seu amado.

Anos se passam e as quatro mulheres continuam a viver suas vidas, mas de alguma maneira nenhuma delas se esquece do que viveu com Paddy De Coury. A história  começa a se cruzar quando as personagens são pegas de surpresa por uma informação que vaza na mídia da noite para o dia: Paddy vai se casar, e a escolhida é nada menos, nada mais, que Alicia, sua antiga conhecida da juventude, que movia mundos e fundos em nome de uma paixão adolescente. Lola, sua então namorada no momento, enlouquecesse de raiva, não entendendo como na noite anterior era a oficial companheira de Paddy, e no dia seguinte ele vai se casar com outra. Marnie no entanto, passa a reviver o passado sombrio e cair em uma depressão tão profunda, que a leva ao alcoolismo, no caso, retratado de maneira muito verossímil. Grace entra em desespero pela irmã, e também possui sua cota de lembranças nada agradáveis do então politico mais falado na Irlanda.

Como eu disse anteriormente, o livro não se mostra apenas como uma história de desilusão amorosa e sua superação clichê e já conhecida de filmes de romance. A cada final de um capítulo, somos surpreendidos com histórias de um homem que quebra os ossos de uma mulher, estupra outra após a mesma realizar um aborto voluntário, queima a palma da mão de suas vitimas com cigarro e as obriga a se humilhar dizendo que merecem apanhar por não serem mulheres de respeito. Confesso que não entendia o porquê de depois de capítulos contando a historia das protagonistas e suas reações com a noticia do casamento de Paddy De Coury, ser entregue a mim duas páginas de violências abusivas contra mulheres.

O meu choque não foi ler em detalhes os atos de terror que este homem cometeu contra essas mulheres e sim um diálogo que me arrancou lagrimas de dor e ódio:

- "O que você pretende fazer?
- Com o quê? O resto da minha vida?
-..É, acho que é isso. Ou até você superar isso.
- Eu não sei. O que as pessoas fazem? Esperam passar.
Mais fácil dizer do que fazer"

Ler Cheio de Charme me trouxe desdobramentos de histórias sobre violência consciente e gratuita contra mulheres. A cada página virada fui tomada pelas atitudes destas bravas mulheres em superar a cada dia que passa uma agressão física e psicológica, as consequências do ato deste monstro, e um final justo a aqueles que acreditam que superação é um sentimento maior que a coragem, e ainda maior que o amor próprio. Superar pode ser mais difícil que sentir medo, mais difícil que não sonhar com um monstro debaixo da cama, em suar frio com a proximidade de um ser humano e por não acreditar mais na imagem refletida no espelho. Mais cada calafrio desses vale a pena quando o sol ascende dentro de nossos corações e mostra que força interior importa mais do que qualquer medo de encarar a felicidade. Eu disse no inicio que gostaria de fazer jus a essa história, e deixo abaixo minha própria sensação do que é ser uma mulher e como a perseverança em superar é um sentimento constante em nossas vidas:

Ser mulher é viver mil vezes em apenas uma vida. É lutar por causas perdidas e sempre sair vencedora. É estar antes do ontem e depois do amanhã. É desconhecer a palavra recompensa, apesar dos seus atos. Ser mulher é caminhar na dúvida cheia de certezas, é correr atrás das nuvens num dia de sol, é alcançar o sol num dia de chuva. Ser mulher é chorar de alegria e muitas vezes sorrir com tristeza. É acreditar quando ninguém mais acredita. É cancelar sonhos em prol de terceiros. É esperar quando ninguém mais espera. Ser mulher é identificar um sorriso triste e uma lagrima falsa. É ser enganada e sempre dar mais uma chance. É cair no fundo do poço e emergir sem ajuda. Ser mulher é estar em mil lugares de uma só vez, é desempenhar mil papeis ao mesmo tempo. É ser forte e fingir que é frágil, só para ter um carinho de vez em quando. Ser mulher é se perder em palavras e depois perceber que se encontrou nelas. É distribuir emoções que nem sempre são captadas. Ser mulher é comprar, emprestar, alugar, vender sentimentos, mas jamais dever. É construir castelos na areia, vê los desmoronados pelas águas e ainda assim ama los. Ser mulher é saber dar o perdão, é tentar recuperar o irrecuperável, é entender o que ninguém mais conseguiu desvendar. Ser mulher é estender a mão a quem ainda não pediu, é doar o que não foi solicitado. É não ter vergonha de chorar por amor, é saber a hora certa do fim. É sempre buscar um recomeço. Ser mulher é ter a arrogância de viver apesar dos dissabores, das desilusões, das traições e das decepções. É ser mãe dos seus filhos, dos filhos dos outros, é ama los igualmente e incondicionalmente. É ter confiança no amanha e aceitação pelo ontem. É desbravar caminhos difíceis em instantes inoportunos. É fincar a bandeira da conquista. Ser mulher é afinal entender as fases da lua, por ela ter suas próprias fases.

Já dizia Paulo Coelho "Imagine uma nova história para sua vida e acredite nela". O livro de Marian Keyes nada mais é do que a perseverança em acreditar que depois de uma ferida aberta, ainda sim existem maneiras de fecha -la com o perdão próprio, e a crença de que o amanhã será um dia melhor do que o de ontem.

Minha nota: 10 com louvor

terça-feira, 27 de maio de 2014

"O tempo é um ladrão impossível de apanhar" - Resenha do livro "O Ladrão do Tempo" - John Boyne

Você já se pegou pensando como seria viver por 256 anos? Em o Ladrão do Tempo embarcamos em uma jornada fascinante de um personagem anti heroico, Sr. Zéla, ou como ele mesmo prefere ser chamado depois de dois séculos vividos, "Mattieu apenas, por favor".

A trama começa contando como Mattieu nasceu e perdeu seus pais ainda muito novo. Na romântica Paris, em 1743 durante a dinastia Bourbon, nasce nosso protagonista, filho de Jean e Marie Zéla. Jean morreu quando Mattieu tinha apenas 4 anos de idade, mas não pense que ele morreu lutando bravamente em uma guerra. Nada disso, ele foi simplesmente arrebatado por um objeto pontudo que acertou sua nuca, o derrubou no chão e uma lamina grossa atravessou sua garganta. Quem foi o responsável pelo terrível assassinato? Não se sabe, era muito comum naquela época atos de violência pelas ruas charmosas de Paris, assim como também uma justiça igualmente arbitrária. Marie se casou outra vez, com um ator chamado Philippe Dumarqué. Com mania de grandeza e uma forma um tanto quanto terrível de lidar com as problemáticas da vida, Philippe espancou impiedosamente Marie até sua morte em 1758. Deste casamento nasceu Thomas, o meio irmão de Mattieu, que acaba se tornando sua responsabilidade no decorrer de seus primeiros anos vivendo forçadamente como um adulto.

Depois do julgamento de Phillippe e seu consequente fim em uma execução em praça pública, Mattieu e seu meio irmão embarcam em um navio rumo a Dover, e é onde nosso anti herói conhece o seu primeiro e grande verdadeiro amor: Dominique. Juntos, eles passam por diversas situações, e Mattieu vai aprender desde muito novo importantes lições sobre amor, traição, amizade e responsabilidade.

Quando Mattieu atinge 50 anos de idade, ele percebe que não envelhece mais fisicamente, e isso o permite acompanhar diversas gerações problemáticas de seu meio irmão Thomas, conhecer muitos tipos de amor, e passar por diversos cargos e empregos, e até mesmo conhecer figuras públicas conhecidas de todo leitor que embarcar nessa jornada de mais de 200 anos de história. Prepare-se para ao longo da narrativa vivenciar fatos e personagens históricos envolvidos de uma forma ou de outra na vida de Mattieu. Enquanto você folheia as páginas, será normal, por exemplo, acompanhar Mattieu trocando amenidades em uma festa com Charles Chaplin ainda jovem buscando sua fama já conhecida por nós na atualidade.

Porém, o livro não se trata de uma lição de história, e sim sobre a principal questão não compreendida pela nossa humanidade em pleno século XXI: pessoas. A obra aborda todas as milhares de pessoas que conviveram com Mattieu e o que estas lhe causaram como efeito. 256 anos são muitos anos para se conviver com especies muito distintas de pessoas.

Existem milhares de personagens neste livro, mais tentarei de uma forma sucinta resumir a obra sendo justa e objetiva: Com uma vida tão duradoura, você esbarra em incontáveis tipos de gente. Mattieu conhece sujeitos honestos e trapaceiros, homens virtuosos que tiveram um único momento de insanidade arrebatadora, porém suficientes para leva- los direto a ruína, e canalhas mentirosos cujos únicos atos de generosidade ou integridade lhe abriram caminho para a salvação. Assassinos, carrascos, juízes e criminosos, trabalhadores e preguiçosos, homens cujas palavras impressionaram e levaram outros a agir, convicções em princípios que ascenderam faíscas de luta e mudanças por direitos básicos do homem, charlatões que leram discursos que não escreveram, homens que proclamaram grandes ambições mais falharam em executa- las, homens que mentiram para suas esposas, mulheres que traíram seus maridos, pais que insultaram seus filhos, descendentes que amaldiçoaram seus ancestrais, bebês nascendo e adultos morrendo, pessoas que precisavam de ajuda e aquelas que Mattieu matou por necessidade. Ele conheceu todo tipo de homem, mulher e criança. Todas as facetas da natureza humana nas terras deste mundo vasto. E ele observou, escutou, absorveu palavras, testemunhou fatos e se distanciou de todos eles com nada mais que suas próprias lembranças para traduzi las de sua cabeça para as paginas deste livro.

Sim, o livro é a forma que Mattieu encontrou para contar sua história e deixar registrado que possivelmente foi e será a única pessoa a atravessar tantos e tantos anos de vida. O curioso é que o próprio Mattieu não entende porque foi abençoado ou amaldiçoado com a vida eterna, ou a síndrome do Peter Pan, se vocês preferirem classificar assim.

O livro é dividido em três fases, que ficam intercalando entre si o tempo todo. Enquanto em um capítulo acompanhamos Mattieu adolescente, no outro vivenciamos suas viagens, seus casamentos fracassados, seus empregos, sua fase adulta e depois ele na atualidade que conhecemos. Tudo isso vira uma junção do que será incumbido para ser o seu futuro. Mattieu possui um carma que vamos entendendo ao longo da leitura: ele nunca consegue se desvencilhar das gerações Dumarqué, sempre que um de seus sobrinhos, que estranhamente carregam o mesmo nome: Tommy ou Tomas, engravidam uma mulher, o bebê homem nasce e o pai morre de forma trágica, e Mattieu paralelamente, nunca consegue manter um casamento, pois também estranhamente uma tragédia acontece levando embora suas escolhidas como companheiras mesmo que a curto prazo, visto que ele não envelhece e consequentemente também não morre.

Na atualidade Mattieu quer mudar o padrão e não ser mais o ladrão do tempo, mais sim permitir que o tempo não seja um ladrão impossível de apanhar. Ele resolve não deixar que uma tragédia aconteça com seu atual sobrinho dos anos 90: o novo Tommy. Não vou entregar o final, mais garanto que nos últimos respingos do livro, um fio branco aparece no cabelo de Mattieu. Seria essa talvez, a salvação? Deixo a mercê da leitura de vocês descobrir a resposta nessas fantásticas 561 páginas.

John Boyne conseguiu trabalhar com assuntos importantes como o valor das pessoas na nossa vida, como nossas atitudes podem gerar consequências boas ou ruins, como o amor pode ser algo traiçoeiro e como a família é uma parte importante na vida de um ser humano. Cada ponto é discutido de uma maneira muito simples, direta e com palavras concretas.

No fim, todas as histórias e todas as pessoas se fundem em uma só. Tem aqueles que não acreditam no destino e na forma como os caminhos são postos na nossa frente. Não sou uma ladra do tempo que poderia convir com uma afirmação destas, mas sou uma aluna do tempo, uma aluna que teve que repetir de ano algumas vezes para aprender que o relógio existe para ensinar que cada segundo, minuto e hora tem relativa explicação para passar rápido ou devagar, para colocar e tirar algumas pessoas de nossa vida, para nos fazer rir e chorar na hora exata, para explicar situações tristes e carregadas de dificuldades, para provar que tudo tem hora para acontecer, seja o bom ou o ruim, e para nos mostrar que a cima de tudo, somos donos do nosso próprio tempo e quem faz dele a duração perfeita somos apenas nós.

Como já dizia Abu Shakur: "Talvez o tempo te ponha na sua escola, pois não terás melhor professor que ele".

Minha nota: 10

terça-feira, 6 de maio de 2014

"Porque o Senhor descerá do céu com alarido e com voz de arcanjo, munido com a trombeta de Deus. Os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com Ele." - Resenha do livro "Os deixados para trás" - Tom Perrotta

Significado de inquietante: Pessoa ou algo que desperta inquietação. Que inquieta, que causa inquietação.

O que aconteceria, se de repente, sem nenhuma explicação, pessoas simplesmente desaparecessem, sumissem no ar sem deixar nenhum rastro para trás? É o que os perplexos moradores de Mapleton, que perderam muitos vizinhos, amigos e companheiros no evento classificado como Partida Repentina, precisam descobrir.

Iniciei a resenha procurando entender o significado do adjetivo inquietante, porque é desta maneira que julgo a obra de Tom Perrota, uma leitura que levanta diversas polêmicas a respeito do arrebatamento.

Passei horas tentando achar uma forma de concluir um pensamento a respeito da inquietante polêmica deste livro, mas prefiro desenvolver a resenha contando um pouco sobre as reações humanas e rotineiras a um evento catastrófico.

Os personagens que compõe esta história são Kevin Gavery, o prefeito da cidade, que tenta a qualquer custo acelerar o processo de cura das pessoas, trazer um sentimento de esperança renovada e um proposito de vida para uma comunidade traumatizada. Ainda que, sua própria família tenha sido desfeita com o desastre: sua cética e agnóstica esposa deixou sua família para se juntar a um culto cujos membros fazem voto de silencio (Os Remanescentes Culpados). Seu filho, Tom abandonou a faculdade para seguir um profeta duvidoso chamado Santo Wayne, e sua filha adolescente, Jill, não é mais a doce estudante que colecionava notas dez na escola. Em meio a tudo isso, Kevin se vê envolvido com Nora Durst, uma mulher que perdeu toda a sua família no 14 de Outubro e continua em estado de choque com a tragédia.

O livro carrega um contexto centralizado no cotidiano moderno, da sociedade do novo milênio, do século XXI. É antes de mais nada, uma crônica. Porém um crônica repleta de inteligência emocional, e uma escrita habilidosa para enfatizar os problemas inerentes a vida comum.

O Arrebatamento ou a Partida Repentina é apregoado por várias religiões, no qual Deus transportaria fisicamente para o céu os escolhidos, que após os sete anos de tribulações que assolariam os que ficariam no mundo, fariam -nos herdar a terra completamente pacificada e renovada. No livro, são premiados os sujeitos de todos os tipos, credos, raças e condições sociais, para desgosto dos mais fanáticos e ortodoxos da religião, em todo o mundo. Pois, cada religião, alega ser ela a unica a conduzir os eleitos ao Paraíso na Terra. Nesse contexto, Tom Perrota usa Mapleton como um teatro para esmiuçar esse cenário. Até que ponto as pessoas que sofreram o Arrebatamento são de fato merecedoras desse fenômeno, ou até que ponto as que ficaram no mundo, ou melhor, deixadas para trás, são desmerecedoras de serem salvas?

A medida em que nos enfronhamos na leitura e com os personagens, vamos conhecendo um pouco mais da realidade por detrás desse estranho acontecimento, e descobrimos que há muita distinção entre santo e demônio, e que, na maioria das vezes, vemos lobos disfarçados de cordeiros, mas nunca o inverso.

Quem não se lembra do 11 de Setembro, e a imagem de pessoas sem rumo, abatidas, desnorteadas e perplexas? A reação do presidente dos USA, de reerguer a moral da cidade, a busca por respostas, o sonho norte americano sendo desfeito, a dor por aqueles que partiram, o fanatismo levado ao extremo e as consequências religiosas e sociais perante o acontecimento que paralisou o mundo? Os deixados para trás é apenas uma história fantasiosa que remete a mim o mesmo ocorrido em uma outra data com uma outra nomenclatura.

Mas o mais polêmico não é nem de longe o tema arrebatamento, e sim, porque reagimos da forma que reagimos a trágicos acontecimentos. O porque da mente humana funcionar de forma tão complexa a uma ordem desnatural das coisas. Eis que escrevo abaixo um trecho do livro que me fez enxergar a verdadeira percepção de inquietante da obra:

"Você poderia ter me dito aquilo que eu já sei - que na verdade, todas as pessoas ficam estressadas, com raiva, e com desejo de ter um pouco de sossego e paz. Não é a mesma coisa que desejar que as pessoas que a gente ama desapareçam para sempre. Mas e se for? E aí? Devo ficar louca com isso?"

Há uma frase de Augusto Cury que me fez acreditar, que posso finalizar essa resenha com ela: "Para mim, há uma loucura racional aceita pela sociedade, e uma loucura irracional condenada por ela".

O que de fato faz você infeliz? Um acontecimento sem explicação, ou sua própria reação igualitária a ele?

Minha nota: 10 com louvor.


OBS.: O próprio autor está adaptando a obra para uma série na HBO. Valerá a pena acompanhar.