quarta-feira, 19 de março de 2014

"Primeiro eles o ignoram, depois riem de você. Em seguida lutam com você, e então você ganha" - Resenha do livro "Perdão Leonard Peacock" - Mattew Quick

Os heróis e vilões das histórias populares raramente são o que parecem ser. Cruzado de um homem é o assassino de outro homem.

Nunca é fácil julgar uma pessoa, mesmo com todos os fatos expressamente aparentes. E ainda assim, os pseudo culpados ficam a mercê do julgamento final. Mas a história raramente faz as coisas direito. Embora a ciência da história é toda sobre fatos, a concepção moderna da história raramente é precisa. A percepção de eventos passados é tão manchada por séculos de propaganda antiga que pode ser difícil de discernir a verdade da nossa sociedade própria, como se fossem interpretações coloridas.

Olhe ao seu redor nesse momento, procure por noticias na internet, em seu tablet, jornal ou revista impressos. O mundo está cercado de coisas ruins, males diários que passam por nós sem que, muitas vezes, possamos sequer notar. Não é o caso do protagonista do livro de Mattew Quick. Leonard Peacock se importa. Sua luta diária é não deixar o mundo destruí-lo, mais do que possivelmente já o estilhaçou por dentro.

A narrativa desta obra se passa praticamente em torno de um único dia, o aniversário de 18 anos de Leonard, e também o dia em que ele escolheu para matar seu ex melhor amigo e depois se suicidar com uma P-38 nazista- "Mato você mais tarde - digo para o sujeito no espelho, e ele apenas sorri de volta, como se mal pudesse esperar" (uma das frases mais chocantes que li apenas no primeiro capítulo do livro).

Além de carregar a arma que foi de seu avô, Leonard também embrulha quatro presentes com papel cor de rosa para entregar as pessoas mais importantes de sua vida, antes de completar sua missão. É por isso que as pessoas dão presentes, certo? Por que não sabem como se expressar em palavras, então dão presentes para expressar simbolicamente seus sentimentos.

Leonard pretende se despedir de quatro pessoas: Walt, seu vizinho idoso e solitário com quem passa o tempo assistindo filmes de Humphrey Bogart; Baback, um garoto de sua escola e talentoso violinista, mas que não quer ser seu amigo por o achar um tanto quanto estranho; Lauren, uma jovem cristã que ele conheceu no metrô, e que tenta a qualquer custo o converter para conhecer o amor de Jesus Cristo, e por fim, Herr Silverman, um educado e muito competente professor, que ensina aos seus alunos sobre Holocausto, promovendo debates e reflexões dignos de te prender por horas, talvez dias a fio no assunto.

Em todas as visitas para a entrega dos presentes, percebemos que Leonard tenta de uma forma quase suplicante que aquelas pessoas o tirem do abismo que ele se encontra, e que o salve de sua missão, mas nenhuma delas consegue enxergar a profundidade de sentimentos que habita o jovem, até então, pré julgado como "esquisito". Admito que até certo ponto do livro eu mesma cheguei a pensar que ele tinha problemas freudianos em relação ao papel de seus pais em sua vida, e seria mais um adolescente clássico de estórias trágicas modernas que sai atirando em seus amigos e depois se mata.

A mágica do livro é que somos levados a julgar até nosso limite (lembrem se dos fatos expressamente aparentes), para depois ganhar de brinde um grandíssimo tapa na cara, revelando a verdadeira mensagem deste livro.

Os capítulos são quebrados por algumas "cartas do futuro". Nelas existem mensagens reconfortantes de como seria o futuro de Leonard, pedidos de força e superação, que são escritas pelo próprio protagonista, a fim dele tentar enxergar algum motivo para não se matar. A parte realmente emocionante do livro são as tais cartas, que apresentam um cenário otimista, e pessoas que realmente entendem a essência de Leonard, e pedem para que ele não acabe com sua vida. Neste momento, entendemos o que de fato aconteceu.

Leonard foi abusado sexualmente por anos a fio pelo seu melhor amigo, Asher. Sua mãe é uma mulher completamente ausente, que chegou a pegar os dois nus em seu quarto e nada fez a respeito, seu pai, um ex viciado em drogas e também alcoólatra, está perdido no mundo, e Leonard não têm ninguém a não ser a sua própria consciência.

Perdão Leonard Peacock, traz a tona problemas sociais muito comuns nos dias de hoje, porém repassáveis aos nossos olhos frustrados com nossas vidas entediantes e nossas dividas intermináveis.

Como funciona a mente de um jovem que sofre buylling e possui pais relapsos? Como você imagina a luta interior de uma pessoa para viver dessa maneira? Leonard tenta a qualquer custo enxergar positividade antes de tomar uma decisão fatal. Ele se veste como um adulto todos os dias depois da escola e anda de metrô sem rumo analisando as pessoas, para tentar enxergar na escuridão alguma possibilidade de luz. E o que ele vê? Pessoas cabisbaixas, que só reclamam e xingam umas as outras porque estão bravas com seus chefes mandões, com seus maridos e esposas ausentes, com filhos barulhentos e a falta de sono. Leonard escreve em suas cartas do futuro uma vida simplória, onde o aniversário de seus filhos são lembrados todos os anos, onde um sorriso vale mais do que dinheiro e onde os seres humanos possam se olhar nos olhos sem nada a temer.

Sei como é difícil ser diferente. Mas também sei a arma poderosa que ser diferente pode vir a ser. Como o mundo precisa de tais armas. Gandhi era diferente. Todas as grandes pessoas também pessoas únicas, precisam procurar outras pessoas únicas que as entendam, para que não fiquem muito solitárias e salvem as pessoas normais delas mesmas.

Por fim, quando Leonard percebe que ele não pode mudar o mundo, mas que ele pode mudar a percepção da vida dentro de si mesmo, ele coloca em pratica aquilo que Antonie de Saint Exupéry já pregou uma vez em sua vida: "É bem mais difícil julgar a si mesmo que julgar os outros. Se consegues fazer um bom julgamento de ti, és um verdade sábio".

Um deleite de verdades, uma realidade injusta e cruel, um triste recomeço, porém uma leitura belíssima em essência e ensinamento de vida. Minha total e singela indicação de horas de reflexão sobre seus próprios julgamentos internos e externos. Você tem coragem de se enviar uma carta do futuro?

Minha nota: 10

terça-feira, 11 de março de 2014

Um livro por semana, dá?

Vivem me perguntando "Como você consegue ler tantos livros?"

Eu respondo "Não sei, apenas pego um livro na mão e não consigo mais parar de ler".

A leitura me curou em muitos sentidos, me faz viajar para bem longe sem ter que sair de casa, sorrir sozinha e até mesmo derrubar algumas lágrimas, afinal ninguém é de ferro. Mas para resumir, eu sou mai feliz porque toda semana tenho um livro diferente em minha cia.

O post abaixo dá algumas interessantes dicas para quem admira e gosta de uma boa leitura, mas acha humanamente impossível conseguir ler um livro por semana. Garanto, tem como concluir esta proeza, e ainda se sentir muito satisfeito com isso.

http://www.brasilpost.com.br/julien-smith/como-ler-muito_b_4941486.html

Divirta-se e boa leitura.

quinta-feira, 6 de março de 2014

"A palavra casa não é um lugar. É uma pessoa. E nós, finalmente, estamos em casa" - Resenha do livro "Anna e o Beijo Francês" - Stephanie Perkins

Por mais que eu tente, o meu lado Shakespeare de ser e sentir a vida, não me deixa nem mesmo nos momentos que penso que não posso mais ser uma menininha apaixonada por romances mamão com açúcar. Pois bem, eis que cai em minhas mãos uma história assim, que sem mais nem menos me fez pensar em Neruda e seu amor platônico incansável e inabalável: "Eu a amo como certas coisas obscuras são amadas, secretamente, entre a sombra e a alma".

Você já entendeu por esse inicio, que temos dois personagens centrais: um que ama solenemente e outro que ama secretamente. Sim, eles demoram o livro inteiro para enxergar que nosso amigo aspirante dos amores platônicos tinha toda razão do mundo ao poetizar que os amantes amam em silêncio, e perdem a grande chance de serem felizes porque amar dá medo, tomar decisões dá medo, respirar dá medo, mas como qualquer necessidade biológica, é um mal mais do que necessário.

Vamos aos protagonistas deste belo e simplista romance: Anna Oliphant, é uma menina de 17 anos, filha de um escritor famoso. Eles têm uma vida em Atlanta tipica de comercial de margarina. Anna têm uma melhor amiga, um emprego e um garoto que ela espera que seja seu futuro namorado. Sua modesta vida dá uma reviravolta quando seu pai resolve a mandar para Paris para terminar o ensino médio na SOAP (School of America in Paris). Como qualquer adolescente, Anna não se sente nada feliz em sair de sua zona de conforto e acredita que seus dias vão acabar da forma mais horrenda que existe, longe de tudo que para ela era considerado seu precioso e imaculado lar.

Seu primeiro dia de aula não foi dos piores, levando em conta que ela conhece ótimas pessoas, dispostas a serem seus amigos e lhe apoiar nessa brusca mudança de cultura e costumes. Dessa forma, Anna conhece Meredith, Rashimi, Josh e o lindo, popular e inteligente St. Clair. Tudo perfeito, tirando o fato de que o aspirante a arrancar suspiros por onda passa, namora há uma eternidade a precoce e perfeita Ellie, que já adentrou o mundo universitário bem antes de seus amigos. Se não bastasse, Meredith é secretamente apaixonada por St. Clair, e você já pode imaginar que assim se forma um torturante quadruplo amoroso.

Anna não sabe falar francês, e isso complica um pouco sua vida na capital do romance. Eis que o príncipe encantado, ops, St. Clair começa a se aproximar de Anna, ajudando a pedir comida, passear por Paris, e aos poucos se soltar e conseguir se virar sozinha. Logo, ela pega o jeito, e com o passar do tempo, ela e St. Clair se tornam melhores amigos, inseparáveis, daqueles que leem o pensamento um do outro apenas com um olhar.

Já em Atlanta, sua melhor amiga e Toph, (o garoto pelo qual Anna ansiou o ano todo para voltar a ver, afinal de contas, ele gostava dela e eles iam ser felizes para sempre), começam a namorar, e Anna percebe sutilmente que ali não era mais a sua cidade e que ela não se sentia mais em casa. Será possível que lar era uma pessoa e não um lugar?

No meio desta reflexão, Anna percebe que está perdidamente apaixonada por St. Clair, um menino que exala sensualidade, mas por outro lado, é um complicado e torturado ser humano. Sua mãe têm câncer terminal e seu pai é um homem egoísta e mulherengo. Como consequência, ele não consegue se ver sozinho, e sofre a distancia pela paixão por Anna e o medo o proibindo de terminar com Ellie e de dar esperanças a Meredith. Já que sua vida se resume a não saber qual passo dar para andar para frente, então melhor ficar parado no mesmo lugar, certo? Errado!

De novo eu cito Shakespeare: "Nossas dádivas são traidoras e nos fazem perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar".

Como todo bom romance que se passa no cenário da belíssima Paris, a cidade dos eternos apaixonados, Anna e St. Clair têm seu momento derradeiro com direito ao beijo que sela por consequente a felicidade eterna do descobrimento da dominação do medo.

Não vi este romance como mais um clichê onde duas pessoas se apaixonam loucamente mas não podem ficar juntas, e depois de muito derramamento de lagrimas, ficam juntas no final para nos passar a ideia de que depois da tempestade existe o pote de ouro no fim do arco iris. Não, eu vi muito mais do que isso.

Vi o medo de amar e ser amada, vi escolhas esdruxulas para apaziguar uma solidão eterna e o cobrimento de uma faceta falsa. Vi o descobrimento do amor próprio, do renascer de uma maturidade, da força indescritível do amor, e da tranquilidade que uma descoberta pode fazer dentro de um ser humano repleto de qualidades e defeitos, cheio de emoções pervertidas e um coração cheio de pedregulhos colados com cola de terceiro calão.

Vi tanto Shakespeare na minha frente, que cito ele novamente: "Estas alegrias violentas, têm fins violentos, falecendo no triunfo, como fogo e pólvora, que num beijo se consomem".

Anna e o beijo Francês, este título carrega muito mais do que um história de amor de adolescentes. Se você for um eterno apaixonado por esse sentimento que de impecável não tem nada, você vai ver sua força em cada palavra, cada frase e em cada cena imaginativa de Anna e St. Clair  na bela e romântica Paris, definitivamente o meu lugar preferido no mundo. Pois foi ali que também iniciei uma jornada de fins violentos e o inicio de uma vida mais repleta de significados.

Para saber o que acontece com os outros elementos deste romance, recomendo ler, mais leia com o coração, se não ele não vai passar de uma passatempo sem sentido e muito simplista aos olhos de quem nunca sofreu por amor. Lembre-se, assim como a lição desta obra: se você não tentar, não vai sair do lugar. Que tal abrir a primeira página?

Minha nota: 9,5

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

"A droga teoricamente é ruim, mas em um mundo ruim é algo bom se você sacar a polaridade invertida disso. Isso gera equilíbrio. Em um mundo fodido, você tem que ser fodido ou você acaba caindo." - Resenha do livro "Selvagens" - Don Winslow

Durante um breve período tivemos uma civilização que se aferrou a uma estreita faixa de terra entre o oceano e o deserto. Nosso problema era a água: em excesso de um lado, mais escassa do outro, mas isso não nos deteve. Construímos casas, rodovias, hotéis, shopping centers, condomínios residenciais, estacionamentos, edifícios - garagem, escolas e estádios.

Proclamamos a liberdade do individuo, compramos e dirigimos milhões de carros para provar isso, construímos mais estradas nas quais dirigir os carros para podermos ir a toda parte que era parte alguma. Regávamos nossos gramados, lavávamos nossos carros, engolíamos garrafas plásticas de água para nos mantermos hidratados em nossa terra desidratada.

Erguemos templos as nossas fantasias, estúdios cinematográficos, parques de diversão, catedrais de cristal, megaigrejas e os frequentávamos em rebanhos.  Íamos a praia, pegávamos onda e jogávamos nosso lixo na água que dizíamos amar.

Reinventávamos-nos todo dia, refizemos nossa cultura, nos trancamos em comunidades fechadas, comíamos alimentos saudáveis, paramos de fumar, erguíamos o rosto ao mesmo tempo que evitávamos o sol, fizemos peeling, retiramos nossas rugas, sugamos nossa gordura da mesma forma que fazemos com nossos bebes indesejados, desafiamos o envelhecimento e a morte.

Fizemos da riqueza e da saúde duas deusas. Uma religião do narcisismo.

Comecei a resenha desta maneira, não porque tenho o desejo de pregar sermões e ganhar seu voto na próxima eleição, mas porque Selvagens, livro de Don Winslow, fala justamente de um mundo corrompido, onde a carne é fraca e apenas a alma sobrevive. Será que sobrevive mesmo?

Vamos ao livro: Ben e Chon são amigos e parceiros de negócios. Como todo bom jovem morador de Orange Country, ambos curtiam festas, sexo e um bom e velho conhecido baseado. Porém, como acontece com todos uma hora ou outra, eles sentiram necessidade de ganhar dinheiro, e decidiram fazer do ditado "Faça o que ama e nunca trabalhará um só dia na vida" um lema. Foi desta maneira que começaram a plantar e produzir a melhor erva do mundo.

Ben é um pacifista convicto e vive dentro de uma ambiguidade tremenda. Ao mesmo tempo que embolsa milhões vendendo droga, não aceita a violência que envolve o mundo do tráfico, e basicamente utiliza todo seu dinheiro viajando o mundo auxiliando pobres e oprimidos e adquirindo febre amarela de brinde.
Já Chon, um ex mercenário, não é tão iludido, ele sabe muito bem que nesse negócio não há como escapar ileso da violência.

Ter seu próprio negócio é uma faca de dois gumes. Se você não ganha dinheiro, é considerado um fracassado e não possui a veia empreendedora como costumam falar por aí em sermões de liderança. Porém, se você ganha muito dinheiro, começa a incomodar muitas pessoas. E foi desta maneira que Ben e Chon iniciam um eletrizante jogo de espertezas, ou melhor dizendo, uma guerra sanguinolenta pelo poder.

O Cartel de Baja, com sede em Tijuana, exporta um volume imenso de drogas para os EUA e quer controlar todo o mercado de maconha da Califórnia. Como a erva de Ben e Chon é a melhor da região, o cartel fará de tudo para que a dupla trabalhe para eles, e não aceitará uma negativa como resposta.

Quando os rapazes se recusam a aceitar a oferta, o cartel resolve trabalhar em cima da fraqueza dos dois jovens, é aí que entra nossa bela e amalucada protagonista, "O". Na verdade seu nome é Ophelia, mais ela é citada como "O" porque ela gosta tanto de sexo, que seus orgasmos são sempre "O´s" contínuos e prolongados. Ophelia, além de amiga, é amante de Ben e Chon, que não se incomodam nem um pouco em dividir a loira, alias, os três vivem felizes dentro de um relacionamento livre dos obstáculos morais. Que selvageria, concordam?

Vamos justamente falar sobre "selvageria". Em paralelo ao triangulo amoroso, temos Elena, a mandante do Cartel, que não gosta nem um pouco de derrubar sangue, mas é a única capaz de ter "sangue frio" para lidar com a violenta realidade do mundo das drogas. Seus irmãos, antes donos do negócio, faleceram, e Elena não teve outra escolha se não aceitar comandar o negócio da família. Junto com ela, temos Lado, um inescrupuloso guardião de toda a operação do Cartel. Junto com Elena, Lado investiga a vida de Ben e Chon, e abismado com o relacionamento que ambos mantém com "O", arma o sequestro da mesma, e ameaça por videos, corta-lhe a cabeça. Agora volto a perguntar, quem é mais selvagem nessa história toda?

Junto a esses instigantes personagens, temos por último, Dennis, um policial corrompido, que vive a custa de propinas,e passa informações tanto para os dois jovens portadores da melhor erva da Califórnia, quanto ao poderoso e violento Cartel de Baja. Já imaginaram que a confusão toda começa quando Dennis resolve botar a radio peão para funcionar, e literalmente permitir voar merda para todos os lados. (Me desculpem o palavreado, mas não consigo escrever sobre um cenário tão sanguinolento, sem ser um pouco evasiva).

Don Winslow escreveu sim, um romance (Já explico o porquê). A narrativa da obra é um tanto quanto peculiar. A trama é narrada em terceira pessoa, mas não de uma forma linear. Para o leitor, nos perdemos um pouco achando que ora é um dos personagens que está narrando a história, e ora aparenta ser um mero observador externo. Assim como Oliver Stone, que fez o livro virar filme, a história acaba se tornando concisa sem ser simplista. Alias, nem um pouco simplista. Encontramos frases diretas, irônicas e recheadas de humor negro. Prepare se para entrar em uma leitura de linguajar despojado e muitas vezes ordinário, um cenário perfeito para a atmosfera de submundo do crime.

Voltando ao romance (ops, romance?). Sim. Você já deve ter lido, visto ou ouvido falar de Romeu e Julieta? Pois bem, o final é marcado por uma denúncia de amor verdadeiro em meio a um mundo de belos selvagens.

O que é ser selvagem afinal? Doidos são pessoas normais ou pessoas normais são doidas? Eis que chego finalmente a reflexão do livro. Levando em conta a personalidade dos personagens, acompanhamos ao longo da leitura a transformação de sua então considerada selvageria em um final estupidamente surpreendente. Se em um mundo corrompido, nossa alma é a que sobrevive, porque agimos da forma que agimos, se não por um sentimento que vem de dentro da própria alma? Uma mãe é capaz de matar se ver o seu filho sofrendo, então como explicar uma atitude considerada selvagem, quando se é capaz de matar o próximo e a si mesmo por amor?

No final das contas, idolatramos a nós mesmos fazendo esse tipo de reflexão, mas também agimos sendo selvagens até mesmo no mais nobre dos sentimentos.

Já dizia o poeta Renato Russo: "Nosso suor sagrado, é bem mais belo que esse sangue amargo, é tão sério e selvagem. Nem foi tempo perdido, somos tão jovens".

"Vamos viver na praia e comer os peixes que apanharmos. Colheremos frutas frescas e subiremos em coqueiros. Dormiremos juntos em esteiras de palha e faremos amor. Como selvagens. Belos, belos selvagens".

Minha nota: 10



Para quem quiser ver as letras desse livro desenhadas em uma tela, segue trailer da obra de Oliver Stone, pra mim um magnifico e selvagem diretor:

http://www.youtube.com/watch?v=KC2zbOwbeEs

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

"Soube então, que a vida não respeitava circunstâncias...A vida simplesmente vai em frente e faz o que tem vontade, sempre que tem vontade!" Resenha do livro "Sushi" - Marian Keyes

Aquele velho e conhecido clichê de "A vida é uma caixinha de surpresas", passou mais uma vez em minhas mãos ao ler o livro da minha atual autora preferida, Marian Keyes.

Para melhor ilustrar a ideia, vou falar primeiro dos personagens que compõe está instigante história: Lisa Edwards é uma durona e sofisticada editora de revistas, que acha que sua vida acabou quando descobre que sua tão esperada promoção profissional não é gerenciar uma revista de grife em Nova York, e sim encarar a missão de lançar uma revista chamada "Garota" na pacata e sem noção cidade de Dublin.

Para compor a história de Lisa, temos Ashling Kennedy, a editora assistente da "Garota". Extremamente ansiosa, possui um passado familiar um tanto quanto perturbador. Sua melhor amiga, Clodagh, tem tudo o que uma garota sonha em ter, casada com um homem lindo e cobiçado, têm dois filhos encantadores e vive dentro de seu castelo de contos de fadas particular, sendo extremamente invejada por todos, menos por ela mesma, que acha que sua vida não passa de uma pacata rotina sem aventuras e sem nada de emocionante para fazer e sentir.

Aí você deve estar se perguntando porque raios o livro leva o nome de "Sushi". Em determinado momento da história, em um momento de grande agitação, eu diria, ocorre o seguinte dialogo:

"- Hoje eu vou querer uma coisa um pouquinho diferente para o almoço - disse Lisa a Trix.
- É alguma fruta que você quer?
- Gostaria de comer sushi.
A sugestão era tão repugnante que deixou Trix sem fala.
- Sushi? - disparou, por fim, horrorizada. Quer dizer, peixe cru?"

O alvoroço é tanto, que o sushi vira uma mística metáfora para posteriormente nossas três protagonistas encontrarem em suas experiências a tão cobiçada felicidade.

Já li muitos livros de Marian Keyes e diria que esse é o menos cômico de todos. Em minha opinião, a sensação é que deve ter sido um de seus primeiros livros, e sua real identidade como autora veio muito tempo depois com suas outras obras, que sempre carregam uma característica de humor ácido junto com historias de vidas de mulheres surpreendentemente parecidas conosco. Mais não posso negar que Sushi tem sua cota de peculiaridade quando têm como objetivo mostrar que nem sempre as coisas saem da forma que imaginamos, mas no final das contas carregam em si o real aprendizado para uma vida de fato realizada.

Lisa vê em sua mudança para Dublin e seu divórcio com seu ex marido a chance de se tornar uma pessoa menos mesquinha, mais sensível e capaz de enxergar nas pequenas coisas o que realmente faz a diferença no dia a dia, como por exemplo, a valorização do amor de uma mãe e de um pai, de um companheiro e o quanto cada peso e medida devem ser compostos de forma equilibrada quando falamos de vida pessoal e profissional. Já Ashling não possui amor próprio nenhum, e aprende com dois relacionamentos fracassados que querer ser outra pessoa não vai a levar a lugar nenhum. As vezes o amor pode se encontrar em lugares que nem fazíamos ideia de que estaria lá. De mais a mais, já é o segundo livro da autora que aborda o tema depressão. Ashling possui uma mãe que sofreu muito tempo da doença e a mesma cresceu de forma traumática, descobrindo em sua própria depressão anos depois o significado da verdadeira redenção. A vida é mesmo uma figura engraçada, concordam?

Por fim e não menos importante (alias, em minha singela visão, a personagem mais importante do livro), temos Clodagh e sua crise existencial por levar uma vida tão insignificante, e carregar o peso de ser invejada por todos aos seu redor porque simplesmente ela parece perfeita, quando na verdade seu interior grita constantemente pela busca de algum sentimento verdadeiro.

James Baldwin costuma dizer que "O amor arranca máscaras sem as quais temíamos não poder viver e atrás das quais sabemos que somos incapazes de o fazer".

Sushi não só mostra como nada na vida nos acontece por acaso, como também prova que todos somos seres suscetíveis a entrar em colapso nervoso. Até aquela pessoa que parece ser a mais perfeita à que parece a mais problemática, podem sim se enfiar debaixo de uma coberta e não querer sair nunca mais para encarar a dura e modesta vida lá fora. Aí eu me pergunto, você que está lendo essa resenha, quem nunca passou por isso? Eu já quis esquecer meus problemas e viver o resto da minha vida protegida no meu edredom macio e fofinho.

A vida não respeita nossas circunstâncias, ela faz o que têm vontade, chega sem hora marcada, mas deixa uma enorme sensação de dever cumprido. Esse visitante que mais parece um intruso, nos traz presentes que se auto intitulam de oportunidades.

Fica a dica: aceite esse presente, porque mesmo que ele não pareca a primeira vista aquilo que você queria ganhar, ele pode ser bem útil no futuro, eu diria até que indispensável.

Minha nota: 7,5

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

"Tal pai, tal filho" - Resenha do livro "O Jantar" - Herman Koch

Sou uma fã assumida de suspenses psicológicos, e não pude deixar de passar reto por uma prateleira em especial no andar de uma livraria em São Paulo. Eis que me deparo com uma capa vermelha e a sombra de 4 pessoas com o título "O Jantar". Lendo a sinopse, o autor prometia uma leitura recheada de tensão. Bom, ele cumpriu o que prometeu. O livro de Herman Koch faz com que você sinta ódio, raiva, amor, empatia ou qualquer outro sentimento genuíno pelos personagens desta história intrigante. Posso afirmar com convicção que meus sentimentos foram elevados a um novo patamar.

O Jantar é narrado por Paul, irmão de Serge Lohman, um candidato a primeiro ministro que mantém sempre um sorriso no rosto. No inicio, Paul descreve seu irmão como um falso hipócrita que só possui o egocentrismo como prioridade para reger sua vida. Admito que nos primeiros capítulos simpatizei e até tive pena de Paul, e muita raiva do jeito grosseiro de ser de Serge. Mas as coisas mudam...ou melhor, as máscaras caem.

Os capítulos são divididos em: entrada, prato principal, sobremesa e digestivo. O livro começa e termina em um restaurante de classe alta, onde Paul, Serge e suas respectivas esposas se encontram para discutir o futuro de seus filhos, que ao longo da narrativa, vamos descobrir que cometeram um crime revoltante.

Eles iniciam o tenso jantar falando sobre trivialidades, como filmes que estão em cartaz e sobre suas férias de verão. Conforme o prato principal vai sendo servido, é Serge quem chega ao cerne da questão, e a partir daí a narrativa ganha traços cada vez mais obscuros.

Seus filhos (Michael e Rick) cometeram um crime de deixar qualquer um com a boca aberta: ao sair de uma festa eles vão sacar dinheiro em um caixa eletrônico e encontram uma sem teto dormindo no meio de cobertores e papelões dentro do recinto. Fedendo muito e incomodando os adolescentes, os mesmos resolvem jogar em cima dela tudo o que encontram pela frente (lixo, um abajur abandonado e até que resolvem por fim incendia-la). O problema é que tudo foi gravado por um câmera de segurança e divulgado na mídia como um crime passional de horrível repercussão, e todos querem saber quem são os autores de tal absurdo. Seus rostos não ficam claros na gravação, por isso nenhum dos dos dois adolescentes é descoberto, mas Paul e Serge sabem muito que são seus filhos os participantes daquela cena que paralisa toda a Holanda (um pai sempre reconhece seu filho a km de distância).

É visível a habilidade que o autor tem de engabelar o leitor durante o enredo. Paul narra desde as excentricidades do jantar (como por exemplo, a mania irritante do gerente do restaurante de apontar cada prato com o dedo mindinho) à sua vida particular. No meio de uma narrativa e outra, somos levados a conhecer mais a fundo a personalidade de cada personagem. Paul sofre de bipolaridade e é expulso de seu trabalho por ser considerado violento, e sua esposa encara uma doença gravíssima, onde quase deixa Paul sozinho no mundo com Michael. Serge e a esposa adotaram um garoto da África que mais tarde descobrimos estar chantageando Michael e Rick por ter presenciado todo o crime. Ou seja, a cada página virada, somos surpreendidos a ponto de querer roer as unhas e acabar logo com aquele mistério todo.

Toda minha reação ao longo da leitura foi de choque. Choque de ver como o ser humano é capaz de banalizar a vida humana, e até onde um pai e uma mãe são capazes de ir para salvar a vida de um filho. O debate maior da obra é sobre se eles deveriam entregar seus filhos a justiça ou simplesmente acobertar o crime e encarar o ato como mera infantilidade. Porque incendiar uma sem teto é bem normal nos dias de hoje, certo?

O melhor momento da obra em minha opinião é quando Paul narra a vez que Michael teve que fazer um trabalho escolar sobre o tema "pena de morte". Neste momento conseguimos perceber que Michael e o pai acreditam que seres que não fazem a menor diferença em uma sociedade devem sim...morrer e sofrer. Nessa hora fiquei pasma e pensei "preciso escrever sobre isso". Vamos ao tema em questão por alguns minutos: sou a favor da pena de morte para pessoas que cometeram crimes horripilantes, como foi o caso no Brasil da filha que matou os próprios pais pela cobiça de sua fortuna, ou o casal que jogou uma menina de 5 anos de uma janela porque ela era muito mimada. Para mim isso soa como pura crueldade e sim, merecem um fim trágico, se não a pena de morte, pelo menos um trabalho agonizante até o fim da vida. Agora, incendiar uma sem teto somente porque ela estava dormindo dentro de um caixa eletrônico? Até que ponto foi nos dado o poder de tomar uma decisão como essa? Se até para a pena de morte, existe um julgamento minucioso a respeito da sanidade do condenado, como um mero cidadão caminhando pela rua resolve machucar alguém pelo simples fato de ter prazer com isso? Essa é a grande questão abordada na obra de Herman Koch.

No final do livro, ficou claro para mim que "tal pai, tal filho", caberia muito bem para analisar a situação como um todo. Paul sofre de distúrbios sérios e pode ter passado essas características para seu filho Michael e o levado a cometer o crime por simples justificativa de uma doença mental. Mas e a mãe de Michael? Ela não possui nenhum problema psicológico que justifique sua postura em defender o filho alegando ser uma brincadeira de criança, uma imaturidade que ao longo da vida será corrigida. Serge não possui nenhum traço problemático, somente o fato que é uma figura publica e não deu muita atenção ao filho Rick, aí me questiono novamente: seria essa também uma desculpa para o crime? Carência o levou a machucar o próximo para conseguir chamar a atenção?

Quais são as reais justificativas para os atos horrendos que cometemos contra o ser humano? Essa é a grande polemização a cerca do livro. Acredito estar tão chocada com o desfecho dessa leitura que não consigo criar um fim apropriado a essa resenha, a não ser recheá-la de questionamentos.

Para terminar deixo uma mensagem de Fernando Pessoa para reflexão:

"Valeu a pena? Tudo vale a pena se a alma não é pequena. Quem quer passar além do bojador, tem que passar além da dor. Deus ao mar, o perigo e o abismo deu, mas nele é que espelhou o céu"

Minha nota: 9,0

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Creio que uma forma de felicidade é a leitura!

Hoje é dia 7 de janeiro, o dia do leitor. Deixo aqui uma pequena homenagem as pessoas amantes dos livros como eu...eles me ajudaram a superar medos, encontrar a felicidade em pequenas coisas, a enxergar o mundo de maneira otimista e a me superar a cada dia podendo ter o privilegio de escrever sobre eles.

"LER NUNCA É UMA ATIVIDADE PASSIVA. ATRAVÉS DA LEITURA, O LEITOR IDENTIFICA E CRIA LUGARES, PERSONAGENS E ESTÓRIAS. MUITAS VEZES, SE PROJETA NO QUE ESTÁ LENDO"