sexta-feira, 26 de agosto de 2016

"Certa vez uma pessoa sábia me disse que escrever é perigoso pois nem sempre podemos garantir que nossas palavras serão lidas no espírito em que foram escritas..." Resenha do livro "A Última Carta de Amor" - Jojo Moyes

Palavras cantam. Eu as amo, tenho vontade de abraça-las, as persigo, as mordo, as derreto. Amo tanto as palavras, principalmente as inesperadas. As que se amontoam, se espreitam, até que de súbito caem. São tantos os vocábulos amados. Palavras brilham como pedras de cores, saltam como irisados peixes, são espuma, fio, metal e orvalho. Eu persigo algumas palavras, de tão belas quero coloca-las em poemas. Agarro-as em voo, quando andam soltas, e caço-as, as limpo, as descasco, preparando -as diante do prato. Sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas. E então eu as agito, bebo, trago, trituro e as liberto. Deixo-as como estalactites em poemas, como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes nas ondas e no mar. Tudo está na palavra. Um ideia inteira altera-se porque uma palavra mudou de lugar, ou porque outra se sentou como um rei dentro de uma frase que não a esperava, mas que lhe obedeceu. Elas têm sombra, transparência, peso, penas, pelos, têm de tudo quando se lhes foi agregando de tanto rolar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto serem apenas raízes. São ao mesmo tempo antigas e recentes. Vivem no escondido e na flor que despontam. Desaparecem, mas não adormecem. Renascem  para trazer a tona seu real e precioso significado. 

E foram justamente as palavras as responsáveis por este belíssimo romance de Jojo Moyes. 

O livro começa no belo cenário de Londres nos anos 1960. Ao acordar em um hospital após um acidente de carro, Jennifer Stirling não consegue se lembrar de absolutamente nada. Novamente em casa, com o marido, ela tenta sem sucesso recuperar a memória de sua antiga vida. Por mais que todos a sua volta pareçam atenciosos e amáveis, Jennifer sente que alguma coisa está errada. É então que ela descobre uma série de cartas de amor escondidas, endereçadas a ela e assinadas apenas por "B". Nossa protagonista percebe que não só tinha um romance fora do casamento, como também parecia disposta a arriscar tudo para ficar com o seu amante. 

Enquanto acompanhamos toda a história de Jennifer antes de seu acidente de carro, somos convidados a fazer uma viagem para quatro décadas depois, e nos anos 2000 conhecemos a jornalista Ellie Haworth, nossa outra protagonista desta intrigante história. Ellie encontra uma dessas cartas endereçadas a Jennifer durante uma pesquisa nos arquivos do jornal em que trabalha. Coincidência ou não, pois ela também vive um romance complicado com um homem casado, Ellie fica obcecada pelo amor proibido de Jennifer e "B", e começa uma insana e investigativa procura por quem são estas pessoas, e o que de fato aconteceu com elas, para que este romance não tenha tido um final feliz. 

Com personagens realísticos, complexos e uma trama bem elaborada, A Última Carta de Amor entrelaça as histórias de paixão, adultério e perdas de Ellie e Jennifer. Falar mais sobre este livro é entregar todas as surpresas do desenrolar de uma obra comovente e irremediavelmente romântica. Desta forma, vou falar sobre o que A Última Carta de Amor significou para mim. Ao terminar o livro com um pingo de lágrimas nos olhos, e uma boa reflexão sobre o sentido de nossas atitudes, afinal toda ação possui uma reação, e no caso de nossas duas protagonistas não seria diferente, a não ser por dois excelentes artifícios chamados tempo e destino. 

A vida é feita de surpresas, e nossa simples missão dentro deste contexto é viver. Alguns momentos podem durar tão pouco e ficar na nossa memória por muito tempo. Algumas pessoas podem fazer muito pouco parte de nossas vidas, e ser considerada para sempre dentro de nossos corações. 

De uma coisa podemos ter certeza, de nada adianta querer apressar as coisas, pois tudo vem ao seu tempo, dentro do prazo que lhe foi previsto, mas o fato é que a natureza humana não é muito paciente. Temos pressa em tudo, e então acontecem os atropelos do destino, aquela situação em que você mesmo provoca por pura ansiedade de não aguardar o tempo certo. 

Quando alguma coisa coisa está para acontecer, ou chegar até sua vida, pequenas manifestações do cotidiano enviarão sinais indicando o caminho certo, que vem através da palavra de um amigo ou conhecido, de um texto ou de uma observação, mas com certeza o sincronismo se encarregará de colocar as coisas certas em seus devidos lugares, na hora certa e no momento certo. Afinal, nada acontece por acaso, certo? 

Por vezes o destino é como uma pequena tempestade de areia que não para de mudar de direção. Você pode mudar o rumo, mas a tempestade de areia vai sempre atrás de você. Você pode voltar a mudar de direção, mas a tempestade a persegue e te segue no teu encalço. Isto acontece uma vez e outra e outra, como uma espécie de dança maldita com a morte ao amanhecer. Porquê? Porque esta tempestade não é uma coisa que tenha surgido do nada, sem nada a ver com você. Esta tempestade é você. Algo que está dentro de você e precisa ser resolvido. Por isso, apenas te resta se deixar levar, mergulhar na tempestade, fechar os olhos e tapar os ouvidos para não deixar entrar a areia, e passo a passo, atravessa-la de uma ponta a outra. Aqui não há lugar para o sol e nem para a lua, a orientação e a noção de tempo são coisas que não fazem sentido. Existe apenas areia branca e fina, como ossos pulverizados, a rodopiar em direção ao céu. 

Não há maneira de escapar da violência da tempestade, a essa tempestade metafisica simbólica. Não se iluda caro leitor, por mais metafisica e simbólica que seja, o destino é real, porque você fez uma escolha. E quando a tempestade tiver passado, você mal se lembrará de ter conseguido atravessa la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terá a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa, quando a tempestade chegar ao fim, você já não será mais a mesma pessoa. Somente desta forma, é que o destino fará sentido quando ele contemplar sua tenra tarefa de te ensinar uma preciosa lição. E então quem sabe, em um dia chuvoso, depois que a tempestade maior passar, dois amantes depois de 40 anos de distância, terão a oportunidade de renovar suas escolhas, porque já que a vida é feita de surpresas, basta a nós vive-la da melhor forma possível. 

Imagino o dia em que todas as pessoas terão o direito de ser feliz, mesmo que seja só por um momento, para ter a oportunidade de sentir o que realmente desejam e acreditam, afinal os sonhos não deveriam ser meras bobagens. 

Jennifer e Ellie, obrigada por me fazerem enxergar que sonhar nunca foi um erro. Somos mesmo crianças aprendendo constantemente a viver. 

Espero que minhas palavras cheguem até vocês no espírito que as mesmas foram escritas, pois para mim esta não é uma última e única mensagem de amor, mas sim o inicio de um belo aprendizado que eu espero que seja passado a todos que simplesmente amam sonhar. 

Minha nota: 10

Obs: Ao longo de cada inicio de capitulo, Jojo Moyes reuniu últimas cartas, últimos emails e últimas mensagens de amor de diversas pessoas em diversos seculos de vida. Pessoais reais, que aceitaram ter suas histórias de amor divididas conosco. Felizes ou não, suas histórias sempre acabam por nos passar uma única mensagem: Vale sempre a pena. 

quinta-feira, 14 de julho de 2016

"Toda reforma interior e toda mudança para melhor dependem exclusivamente da aplicação do nosso próprio esforço." Resenha do livro "A Mulher que Roubou a Minha Vida" - Marian Keyes

Já dizia William Shakespeare: "Não, Tempo, não zombarás de minhas mudanças! As pirâmides que novamente construíste não me parecem novas, nem estranhas. Apenas as mesmas com novas vestimentas."

Ao longo de toda a nossa vida, somos confrontados com momentos de mudança que criam quase sempre insegurança e até em alguns casos, o medo. Contudo, esta atitude pode não ser a mais favorável, pois a mudança pode nos levar a experienciar novas e interessantes situações, que de alguma forma, devemos tentar encarar de forma positiva. 

E são com algumas mudanças drásticas e inesperadas, e muitas vezes com uma pitada de ação cármica que a protagonista desta história Stella Sweeney, nos leva a refletir sobre como nós agimos e reagimos perante as incertezas da vida. 

O livro começa com Stella andando de carro em meio ao pesado tráfego de Dublin. Dedicada mãe e esposa, nossa protagonista resolve fazer uma boa ação no meio de um pequeno acidente de carro. O resultado deste ato é um homem um pouco esquisito e metido que lhe pede o número do seu celular para o seguro, plantando uma semente de que algo levará Stella a muitos quilômetros para longe da sua pacata e monótoma rotina. 

Stella é casada com Ryan, uma egocêntrica pessoa que se enxerga como um promissor homem da arte, quando na verdade ele apenas cria design de banheiros de luxo. Juntos, eles têm dois filhos, Betsey, uma doce e adorável menina que vive de forma tão simplista, que para ela, casar com um homem que lhe transforme em uma boneca seria o ideal de uma vida toda. Já Jeffrey, seu filho mais novo, vive tropeçando nas atitudes da mãe, e possui um relacionamento familiar que varia entre preocupação e irritação extrema. Stella, por viver pautada nos sonhos do marido de ser tornar um grande artista renascentista, é apenas uma mulher que trabalha em uma clínica de estética depilando mulheres e homens, e manipulando máquinas de bronzeamento artificial junto de sua sócia, sua irmã mais nova, Karen. 

Como todo bom livro de Marian Keyes, somos surpreendidos quando Stella acorda doente e incapaz de se comunicar. Nossa protagonista possui um doença rara, chamada Síndrome de Guillain - Barré, uma doença auto imune que ocorre quando o sistema imunológico do corpo ataca parte do próprio sistema nervoso por engano. A consequência desta doença é uma inflamação dos nervos que provoca fraqueza muscular e impossibilita o portador desta rara síndrome de se mexer, falar e ter controle sobre sua função neuro vital. 

Stella fica muitos e muitos meses no hospital e só consegue se comunicar por meio de piscadas, uma de cada vez, um método inventado por ser neurologista, Mannix Taylor, um homem um tanto quanto esquisito e metido. Stella consegue no meio de uma situação extremamente complexa e sem controle algum, conversar com Mannix e criar provérbios de auto ajuda, que no final entendemos que ela cria para ela própria como um meio de se sustentar em meio a uma incerteza de que um dia ela voltaria a ter controle sobre o seu próprio corpo. 

Peca quem acha que o livro gira em torno da doença de Stella, pois é a partir dela que se inicia a grande história de nossa protagonista. Depois de uma recuperação árdua, seu neurologista encantado com a força de vontade de Stella, reuni todos os excelentes provérbios descritos através de suas piscadas e publica um livro, que acaba caindo em mãos "erradas". Lembram-se do tal do carma? 

Da noite para o dia nossa protagonista vira uma escritora famosa, que passa seus dias viajando o mundo divulgando o seu best seller. Se já não bastasse não conseguir mais se mexer e falar, Stella passa de uma simples esteticista, depiladora e manipuladora de máquinas de bronzeamento artificial, a uma escritora famosa, que divulga um best seller sobre sua motivação em superar uma rara doença. 

Enfrentar o ódio de seu marido que gostaria de estar no seu lugar, e sua família que não entende as diretrizes que a vida de Stella toma, nossa protagonista se vê obrigada a se mudar da pacata Dublin e passa a morar em Nova York, rodeada por diversas pessoas que lhe dizem o que vestir, como falar, como se comportar, e lhe cobram constantemente um padrão estético que não condiz com a sua realidade. Tirando o fato de ter que viajar para 5 cidades em apenas uma semana, Stella ainda precisa lidar com os problemáticos filhos lhe dizendo que todas as mudanças em sua vida são culpa de sua doença. 

Enquanto acompanhamos estas drásticas mudanças na vida de Stella, e como ela lida com elas, fazendo com que muitas vezes durante a leitura sintamos raiva e decepção pela forma como ela se comporta, também nós pegamos pensando, e nós? Como nós lidaríamos com tantas mudanças? Vamos refletir, por quantas experiências nós seres humanos passamos ao longo da nossa trajetória neste complexo jogo que chamamos de vida?

A rapidez que caracteriza a sociedade atual, dominada pela mudança contínua, cria em nós sentimentos de insegurança, uma vez que somos obrigados a adaptarmo-nos continuamente a novas regras, novos hábitos, novos modos de estar e de trabalhar. Todas estas situações são, normalmente, precedidas de sentimentos antagônicos: receio, mas simultaneamente curiosidade, vontade de não mudar, mas ao menos tempo, vontade de experimentar. 

É esta atitude de abertura face a mudança que deve caracterizar a nossa vida, pois tudo se torna mais fácil, quer quando se trata da mudança de emprego, quer da necessidade de deixarmos a casa ou a localidade onde sempre vivemos, e até de mudarmos de parceiros, porque percebemos que aquele que estamos já não fazem jus a sua denominação. 

Que cada fim leva a um começo, não podemos discutir. Terminar algo nem sempre cabe a nós, porém nos leva a um único caminho: um inicio. Quando a bateria da câmera termina, é hora de carregar para que ela possa estar cheia novamente. Quando um ano acaba, é hora de outro iniciar. Quando você termina um relacionamento, inicia uma fase sem aquele relacionamento presente. Há uma linha tênue entre um fim e um começo. Essa linha é a tal da mudança.  

Passamos por mudanças durante a nossa vida inteira sem ao menos perceber. Sabe quando você olha para trás e percebe o quanto as coisas eram diferentes? E sabe quando você olha para o futuro e percebe o quanto as coisas serão diferentes a partir de hoje?

Como Stella, e assim como nós, chega uma determinada hora que precisamos ser adultos. E ser adulto significa que as coisas já não irão mais se resolver sozinhas, e lamentar deixa de ser uma opção, é preciso aprender a lidar. E lidar não é só encarar a mudança de frente, é aceitar que nossas decisões muitas vezes não são as melhores. Antes da Síndrome, e antes de virar uma famosa escritora de provérbios motivacionais, Stella apenas vivia, e agora ela se adapta. E adaptações são feitas de términos, despedidas e talvez algumas saudades. As mudanças, ou se quiserem chamar de metamorfoses, são ajustes que devemos e fazemos para levar as mudanças da melhor forma possível. O novo sempre continuará a aparecer, e tudo começara de novo e de novo. É como um ciclo de aprendizados que no final se tornam memórias. 

Acompanhar a história de Stella é como acompanhar nossa própria história. Fato é, que quando algo desconhecido nos acontece, todos somos inexperientes. Somos como pequenas crianças aprendendo a caminhar e falar. Começamos de forma lenta, rastejando e totalmente inseguros. Mas sabemos que precisamos tentar, e ninguém caminhará por nós. E quando finalmente podemos seguir em frente, quando tudo parece tranquilo, algo inesperado novamente acontece, e precisamos novamente caminhar por uma árdua estrada, e desta forma eu acredito que é feita a vida, de mudanças constantes externas e internas. 

Eu particularmente tenho me sentindo diferente depois de tantos mudanças em minha trajetória. Talvez seja o tempo que não me sobra mais, a saudade que eu já não sinto, o sentimento que eu já não preciso mais guardar. Talvez tenha sido aquela chuva que não parava de cair, ou o sol que agora insiste em me fazer companhia. Talvez simplesmente, seja eu mesma.

Crescemos mesmo tendo o desejo árduo de continuar a ser uma criança de pés descalços e coração intacto. Mudamos mesmo teimando em continuar parado no mesmo lugar. Mudamos por temer ser a mesma pessoa pelo resto de nossas vidas. A vida nos molda e nós moldamos a nossa vida, e será sempre assim. Mesmo que não consigamos fazer o molde perfeito, mesmo que ele saia meio torto ou com a textura diferente do esperado, a gente se molda. 

A gente se muda. A gente muda. 

Minha nota: 7,5

quinta-feira, 2 de junho de 2016

"Você não me deu uma vida, deu? De jeito nenhum. Só acabou com a minha antiga. Desfez em pedacinhos. O que eu faço com o que sobrou?" - Resenha do livro "Depois de Você" - Jojo Moyes

Quanto tempo é preciso para que possamos encontrar o nosso verdadeiro lugar no mundo?

Eu começo essa resenha respondendo a essa pergunta: Nenhum... Nenhum tempo. 

Você pode ir embora e nunca mais ser a mesma pessoa. Ou você pode voltar para casa e nada mais ser como era antes. Você pode até ficar onde estava, para que nada mude, mas aí é você que não vai se conformar com isso. 

Você pode sofrer por perder alguém. Você pode até lembrar com carinho ou orgulho de algum momento importante na sua vida: formatura, casamento, aprovação no vestibular ou a festa mais linda que você já tenha ido, mas o que vai te fazer falta mesmo, o que vai doer de forma profunda, é a saudade dos momentos feitos de simplicidade: Sua mãe te chamando para acordar e ir para a escola, do seu pai te levantando no ar e brincando como se você pudesse voar e alcançar o céu, dos desenhos animados que você assistia com o seu irmão, da diversão natural em estar ao lado dos amigos, do cheiro que você sentia naquele abraço especial, da hora exata em que ele, o amor da sua vida, aparecia para te ver, de como ele te olhava com aquela cara de coitado só para te deixar mais apaixonada e da forma como ele pegava em sua mão quando você sentia medo. 

Depois de seis meses sendo cuidadora de Will, Louise Clark passou os últimos dois anos tentando responder a pergunta acima, mas invés de nos depararmos com um final feliz e de superação para a nossa grande protagonista, percebemos que na realidade ela não fez nada que a deixasse em paz consigo mesma, ela não tomou o cuidado suficiente em como estava colocando a sua dor para fora, ela não contou até três antes de tomar uma decisão, ela não pensou que seria melhor estar só do que mal acompanhada, ou não esperou o tempo certo das coisas com medo da inércia e assim se tornar uma pessoa desinteressante. Ela teve medo de renunciar do passado por medo de dizer que não o amava mais, ela não soube abrir mão porque teve medo de dizer o que não queria. Basicamente para Louise, o tempo ensinou muita coisa, mas não a curou da forma que ela esperava. 

Will, ao decidir colocar fim em sua vida, deixa a Louise uma valiosa lição, e pede que incansavelmente ela apenas viva sua vida sem se lembrar muito dele, e para isso lhe dispõe de uma quantia de dinheiro razoavelmente grande, que permite que Louise viaje pela Europa por um tempo, conheça algumas pessoas e lugares interessantes, e compre um pequeno apartamento em Londres,  já que para ela é impossível voltar ao lar, onde tudo começou e acabou de forma um tanto quanto trágica. Em Londres, Louise trabalha como garçonete em um bar estilo irlandês que fica dentro do principal aeroporto da cidade, e lá ela observa todos os dias milhares de pessoas embarcando, se despedindo, voltando para casa, reencontrando entes queridos, indo trabalhar ou mesmo tirando férias de verão. Definitivamente, não era assim que Will imaginava a vida de Louise depois de sua breve passagem em sua vida. 


Mas a vida sempre se encarrega de nos dar oportunidades. Se não for pelo curso natural das coisas ou por nossas próprias escolhas, elas acabam acontecendo de uma forma ou de outra. E é exatamente assim, que a vida de Louise vira de ponta cabeça quando ela despenca acidentalmente do seu terraço, e com uma bacia quebrada e muitas lesões corporais, Louise se vê forçada a retornar para a sua casa, e encarar uma grande temporada com a loucura que é a sua família. 


"Nunca se sabe o que vai acontecer quando se cai de uma grande altura".

E é por causa desta queda, que Louise conhece Sam Fielding, o paramédico que a salva no dia do acidente, e Lily, a problemática e perturbada personagem, que lembra muito tudo o que Will representou na vida de Louise. 

Para os amantes do primeiro livro, como eu, preparem-se para se reencontrar com todos os personagens queridos e não tão queridos do primeiro volume. É delicioso, depois de tanto tempo de espera, entender o que a decisão de Will causou na vida de todos. Uma vez ouvi, que era preciso gerar o caos dentro de outro caos, para que todas as peças voltassem a se equilibrar no tabuleiro que chamamos de vida. Falar mais sobre o livro seria entregar todo o caos para vocês, e minha intenção não é falar sobre isso, mas sim deixar claro o que uma história tão triste pode resultar dentro de cada ser humano. 

A dinâmica do primeiro livro perdura. É egoísta Will ter se matado e deixado apenas uma carta para Louise seguir em frente? É egoísta Louise querer Will vivo, porém sem poder ser ele próprio para desfrutar da vida ao seu lado? É egoísta uma mulher querer se libertar das amarras da sociedade, e fazer o que bem entender sem ser julgada por todos? É egoísta uma mãe solteira, querer viver sua vida enquanto o filho pequeno pede por cuidados constantes? É egoísta uma filha não conhecer o pai e agir feito uma louca só para ter a atenção que nunca teve na vida? É egoísta seguir adiante e abrir o coração para amar outra pessoa? É egoísta voltar a vestir roupas coloridas sendo que o amor da sua vida morreu? É egoísta meus caros leitores, viver depois uma brusca queda? No caso de Louise,  ironicamente e literalmente falando, duas quedas?

É preciso abrir todas as portas que fecham o nosso coração. Quebrar barreiras construídas ao longo do tempo, por amores do passado que foram em vão. É preciso muita renúncia em ser a mudança no pensar. É preciso não esquecer que ninguém vem perfeito até nós. É preciso ver o outro com os olhos da alma e se deixar cativar. É preciso renunciar ao que não agrada a você próprio. Para que se moldem um ao outro como se molda uma escultura, aparando as arestas que podem machucar, é como lapidar um diamante bruto, para faze-lo brilhar. E quando decidir que chegou a hora de amar, lembre-se que é preciso haver identificação de almas. De gostos, de gestos, de pele. No modo de sentir e de pensar, é preciso ver a luz iluminar a aura, dando uma chance para que o amor te encontre novamente. Na suavidade morna de uma noite calma, é preciso se entregar de corpo e alma. É preciso ter dentro do coração um sonho, que se acalenta no desejo de amar e ser amada. É preciso conhecer no outro o ser tão procurado dentro de nós. É preciso conquistar e se deixar seduzir, entrar no jogo e deixar fluir. Amar com emoção para se saber sentir. A sensação do momento em que o amor te devora, e quando você estiver vivendo no clímax desse sentimento, sentir que essa foi a melhor das suas escolhas. Que foi o seu grande desafio, e o passo mais acertado de todos os caminhos da vida até tão trilhados. Mas se assim não for, que nunca se arrependa do amor dado. Faz parte se arriscar por um sonho, porque se não fosse assim, nunca teríamos sonhado. Mas antes de tudo, que saibamos ter ao nosso lado o maior aliado de todos: O Tempo. 

Termino essa resenha fazendo um outro questionamento: Será que estamos falando que Louise se permitiu amar novamente, ou ela fez exatamente o que Will pediu a ela desde o inicio? Amar a si própria?

Desta vez eu não vou responder, mas vou deixar em suas mãos a leitura desta belíssima continuidade, que nos deixa pensar que nenhum tempo quantitativo pode mensurar aquilo que na verdade sempre habitou dentro de nós. 

"Ok Will, pensei. Se essa foi sua ideia de me jogar em uma nova vida, com certeza acertou em cheio."

Louise Clark, como sempre você conseguiu me surpreender. 


Desejo que possamos todas ser um pouco de Louise e de Will, que se faz tão presente neste livro quanto no primeiro. Porque quando há amor, há sempre uma saída. 

Minha nota: 10

Não pense muito em mim. Não quero que você fique toda sentimental. Apenas viva bem. Apenas viva…


quarta-feira, 18 de maio de 2016

"Algumas pessoas esperam a vida inteira por uma relação assim, mas as histórias chegam ao fim. A gente perde as pessoas que ama e tem que encontrar uma maneira de seguir adiante..." - Resenha do livro "Por toda a Eternidade." - Kristin Hannah

Como definir o luto?

Costumo comparar este sentimento a uma época bem remota da minha vida. Desde que tomei consciência sobre o andar e o falar, eu andava para baixo e para cima com um paninho que já não era mais branco fazia muito tempo. Este paninho, eu o auto intitulava de "fraldinha", e eu me lembro que eu só conseguia dormir se ele estivesse enrolado próximo a minha bochecha. Onde eu ia a fraldinha ia junto comigo, ela definitivamente me completava, era a minha melhor amiga. Ela tinha meu cheiro, e se moldava perfeitamente em mim, e eu me sentia totalmente segura quando eu a tinha nas minhas mãos. A fraldinha deixou de fazer parte da minha vida, quando eu completei 5 anos de idade e meus pais fizeram um trato o tanto quanto maduro comigo: "Você já é uma mocinha, e mocinhas não andam penduradas a um pano. Se você largar a fraldinha, o Papai Noel vai te dar de presente um fogãozinho de brinquedo." Ingenuamente, eu aceitei a barganha, e eu nunca mais vi a  minha fraldinha.

Era estranho começar a viver sem a minha companheira. Eu me lembro de demorar para pegar no sono, porque sempre "algo estava faltando". Eu chorei algumas vezes, e mesmo sem ninguém ter me dito o quanto seria difícil, eu aprendi a moldar a minha vida sem a minha melhor amiga. E cá estou eu, com 31 anos de idade e dormindo bem, eu acho. As vezes, talvez eu  me pegue abraçando o meu travesseiro, ele me lembra como era gostoso dormir encostada na minha fraldinha.

É exatamente sobre isso que o livro de Kristin Hannah trata, como lidar com os buracos que são criados dentro de nós por sentirmos falta de algo ou alguém, que de alguma forma nos completava. 

Tully Hart é uma mulher ambiciosa e aparentemente muito segura de si. Criou sozinha um talk show muito popular, e usou de sua trágica história para formar uma das personagens mais amadas e admiradas no show bizz. Ela sempre acreditou que poderia superar qualquer adversidade da vida se conseguisse esconder bem fundo os seus sentimentos de rejeição sofridos desde sua infância.  Até que sua melhor amiga, Kate Ryan, morre devido ao tão temido câncer. Tully se vê escorregando profundamente em um precipício cheio de memórias melancólicas e remédios para dormir.

Dorothy Hart, ou Cloud, como era conhecida nos anos 1970, está no centro do trágico passado de Tully. Ela abandonou sua filha inúmeras e repetidas vezes na infância, sempre drogada e rodeada de homens que a espancavam e abusavam de seu corpo.

Marah Ryan, filha de Kate e afilhada de Tully, têm apenas dezesseis anos quando sua mãe morre. Como qualquer filha ou filho, ela fica devastada com a notícia, e embora seu pai John e seus dois irmãos gêmeos se esforcem para manter a família unida, Marah transforma-se em uma adolescente rebelde e inacessível em sua dor. Aparentemente se cortar com objetos pontiagudos é o melhor remédio que Marah encontra para superar a perda de sua mãe. Tully tenta de qualquer forma se aproximar de Marah, mas a sua grande incapacidade de lidar com os sentimentos da afilhada e os seus próprios, acaba empurrando a menina para um relacionamento infeliz ao lado de um rapaz extremamente problemático.  

O livro é exatamente sobre estas mulheres, e o quanto suas vidas estão intimamente ligadas, e fala sobre a maneira que cada uma delas vão rever seus erros e acertos, e aprender a viver uma vida sem um peça no jogo deste tabuleiro que chamamos de família. Até porque, onde há perdão, há amor, e Por toda a Eternidade, fala sobre o único remédio capaz de curar o luto: o amor. 

Como todo bom romance, a obra culmina em um momento de extremo impasse, onde as soluções se apresentam de forma muito clara e até óbvia, mas a resenha não têm como objetivo entregar o desenrolar e o final da história, e nem como estas personagens encontram uma forma de viver as suas vidas, por isso vou falar sobre o que para mim Por toda a Eternidade significou. 

É difícil de acreditar, mas julgar os outros é algo muito comum, principalmente em um momento delicado, como o luto. Algo que é contraditório quando muitas vezes solicitamos que, por favor, deixem de julgar os nossos atos, pois julgamos e somos julgados constantemente, sem que algo possa evitar que isso aconteça. 

Porém, o dano que o julgamento provoca é algo que merece a nossa reflexão. É preciso olhar o seu interior, olhar a si mesmo e deixar de investir tanto tempo em ver o que o resto das pessoas fazem, como fazem e porque fazem. Já dizia Giacomo Leopardi "A alma sempre tende a julgar os outros segundo o que pensa de si mesma." Será que por isso Tully julgou tanto o atos de sua mãe, para depois repeti-los exatamente da mesma maneira com a sua afilhada? Será que também por isso Marah julgou a sua madrinha para depois cometer os mesmos erros que ela com a sua própria mãe? Estas mulheres não estão ligadas somente por um laço de amor, mas principalmente por um grande laço de falsos julgamentos. Ao longo desta belíssima história, os atos destas mulheres recaem sobre justificativas que nem o próprio leitor imaginaria, pois acreditem, vocês também irão julga-las. Irônico, não?

Quantas vezes você já se sentiu julgado de forma equivocada? Aposto que milhares. Em muitas situações, não praticamos a empatia com outros seres humanos. A nossa visão é a única válida e isto nos impede de ver mais além, e compreender outras perspectivas diferentes. Quando julgamos os outros, não nos permitimos conhecer a sua história completa, o que há por trás daquela pessoa. 

Aprendi em meu próprio luto que quando você julga alguém, você está definindo a si mesmo. Você pode querer dar uma opinião, mas criticas e falsos entendimentos não ajudam. Quando existe um falso julgamento, a sua verdadeira intenção é fazer com que os outros vejam o mundo através de seus olhos. Mas cada pessoa é um mundo. Mundos estes, que muitas vezes não estamos preparados para visita-los. 

Gosto de citar Dalai Lama quando me pego praticando falsos julgamentos: "As pessoas tomam caminhos diferentes na busca pela felicidade e a sua realização. O fato de não caminharem pelo seu mesmo caminho não significa que se tenham perdido."

Assim como Tully, Marah, Doroty e Kate, tudo o que nos acontece muda a nossa forma de ver as coisas. E o luto não seria o luto, se não nos moldasse de formas totalmente diferentes as habituais.

E se eu ainda tivesse a minha fraldinha? E se eu nunca tivesse perdido meu pai? E se eu tivesse mantido amizade com todas as pessoas que conheci ao longo da minha vida? E se eu tivesse feito escolhas diferentes na minha vida?


quarta-feira, 27 de abril de 2016

"Abram os olhos e vejam tudo o que conseguirem ver antes que se fechem para sempre." Resenha do livro "Toda Luz Que Não Podemos Ver" - Anthony Doerr

O que a guerra é capaz de fazer aos sonhadores?

Colocando a Segunda Guerra Mundial de lado, pano de fundo desta história, já que muito do progresso é resultado direto da necessidade imposta por situações de conflito, o que, de fato, fez a guerra aos sonhadores, aos engenhosos, aos inventivos e aos visionários? Talvez no final desta resenha, tenhamos essa resposta. Ou não. 

O livro é dividido em treze partes com diversos capítulos curtos em cada um deles, alternando entre dois personagens: Marie- Laurie e Werner, dois jovens, entre tantos outros que viriam a ser apanhados neste triste período em que a História se tornou um pesadelo, que se viram privados da oportunidade de vir a ser tudo o que o seu potencial lhes permitisse ou o coração sentenciasse. Milhares de pessoas encurraladas em papéis que nunca escolheriam representar, os seus cursos de vida completamente alterados, os seus futuros lamentavelmente sabotados.  

Marie- Laurie é uma garota que fica cega aos seis anos de idade. Alta e sardenta, ela mora com seu pai em Paris. Seu pai é o chaveiro do Museu de História Natural da capital francesa, e ela sempre o acompanha no trabalho, onde faz alguns importantes amigos, como um cientista que adora conchas e moluscos. Seu pai se preocupa a todo momento com a segurança e independência de Marie- Laurie, e constrói para ela uma maquete da cidade para que ela aprenda a ler com as próprias mãos, e conhecer cada local para que ela possa depois se locomover sozinha. Todo aniversário, Marie ganha algo especial, sempre feito pelo seu pai, e sempre acompanhado de um livro de histórias surpreendentes. 

Werner Pfennig mora em Zollverein, uma cidade perto de um complexo de mineração, na Alemanha. Órfão, ele mora com a irmã Jutta em um orfanato com outras crianças e com Frau Elena, uma francesa que lhes faz mais do que simplesmente cuida-los. Ela se torna sua família. Curioso por natureza, um belo dia Werner encontra um rádio quebrado e começa a desmontá-lo. Todas as noites, ele e sua irmã escutam um programa de rádio para crianças que sempre termina com uma mesma canção: Clair de Lune, Debussy. 

Maurie -Laurie e Werner crescem, enquanto a guerra começa a dar os seus primeiros indícios. 

Werner neste meio tempo, desenvolve uma habilidade incrível em consertar rádios e muitas pessoas já traziam seus próprios para que ele consertasse. Como ele estava próximo a completar 15 anos, seu destino seria trabalhar na mina, onde seu pai morreu devido a um desabamento de pedras. Ironia do destino ou não, Werner recebe a visita de um homem importante que, ao ter seu rádio consertado pelo menino, decide que irá inscreve-lo para que possa estudar e servir ao Governo, ou melhor, ao glorioso e imponente Reich. Werner começa então a adentrar um universo que nenhuma pedra sobre sua cabeça poderia ser mais desestimulante. 

Enquanto isso, Marie- Laurie e seu pai começam a ver os bombardeios em Paris se transformarem em algo frequente, e decidem que não irão continuar ali e colocarem suas próprias vidas em perigo. Desta forma, eles partem para Saint-Malo, uma cidadezinha da França repleta de ostras e moluscos. Um ponto importante e talvez a chave para o desfecho desta belíssima história, é que neste exato momento, o pai de Marie -Laurie recebe uma importante tarefa. O diretor do museu lhe confia guardar uma pedra preciosa, que carrega consigo uma história muito misteriosa e cobiçada por muitos. Fiquem tranquilos, voltaremos para a pedra assim que tudo começar a fazer sentido. 

A narrativa segue e acompanhamos as dificuldades de Marie-Laurie e seu pai até chegarem em Saint-Malo e adaptar-se a nova cidade junto com o tio avô de Marie, Ettiéne, um homem que tendo presenciado de perto os horrores da Primeira Guerra, apresenta comportamentos excêntricos e agorafóbicos. Ettiéne abrigará a garota e seu pai em sua casa, que é repleta de rádios e histórias para crianças curiosas, enquanto Werner se destaca e cada vez mais coloca seus conhecimentos físicos e matemáticos a prova na escola do Reich. 

A guerra avança e Werner é recrutado como soldado raso, combatendo uma guerra mais limpa e mecânica devido a sua aptidão natural para operar rádios. O destino de ambos acaba por se cruzar, como se assim estivesse destinado, pois é em Saint -Malo que Werner escuta um pedido de socorro pelo rádio, através de uma canção já tão conhecida por ele e sua irmã Jutta. 

No meio do destino traçado para que este encontro acontecesse, está entre eles um valiosíssimo e amaldiçoado item. Um diamante de 133 quilates, conhecido como Mar de Chamas, azul como o mar, como uma cintilação vermelha no seu núcleo. O Mar de Chamas carrega consigo uma lenda que o portador da mesma viveria para sempre, porém muitas desgraças aconteceriam ao seu redor e com as pessoas que ama. Lenda ou não, entendemos no final que o portador do seu próprio destino somos nós próprios. 

Desde cedo, tanto Marie-Laurie como Werner demonstraram inteligência e perspicácia acima da média, bem como uma extrema curiosidade sobre o que os rodeia, procurando o conhecimento de forma constante. A paixão de Marie-Laurie por aprender, tateando cuidadosamente um objeto e saciando a sua curiosidade com perguntas é notável ("tocar verdadeiramente em algo é ama-lo"), e Werner com as suas infinitas dúvidas sobre o funcionamento das coisas e habilidade para reparar aparelhos, chega a ser presenteado com a oportunidade de evoluir nos estudos.

A Segunda Guerra Mundial tem vindo a ser romanceada um cem número de vezes, sob milhares de perspectivas, recorrendo aos mais diversos personagens e imensos pontos de interesses. Ainda assim, Toda Luz Que Não Podemos Ver está muito longe de ser apenas mais um romance. Ganhador do Pulitzer de Ficção em 2015, este livro traz uma visão simples do que significa cada ser humano em um contexto altamente desafiador, e quais as consequências que cada um terá a partir do momento que se foi definido um destino através de simples e práticas escolhas. 

Destino e lendas fazem sim parte desta história, mas o principal não é se apegar a estes dois temas, e sim que mesmo existindo um destino e uma lenda, Marie e Werner fizeram escolhas, e estas escolhas definiram o seus destinos (trágicos ou não), e o destino de todos os outros personagens que compõe de forma muito bela o desfecho de uma história de uma vida inteira de dois brilhantes e curiosos seres humanos. 

Gostaria de compartilhar uma pequena história, e encerrar através deste reflexão o que significa escolhas perante a talvez uma vida já pré traçada para acontecer:

"Certa vez um homem caminhava pela praia numa noite de lua cheia. Pensava desta forma:
Se tivesse um carro novo, eu seria feliz;
Se tivesse uma casa grande, eu seria feliz;
Se tivesse um excelente trabalho, eu seria feliz;
Se tivesse uma parceira perfeita, eu seria feliz. 
Neste momento ele tropeçou em uma sacola cheia de pedras. Ele começou a jogar as pedras uma a uma no mar cada vez que dizia:"Seria feliz se tivesse". 
Assim o fez até que somente ficou com uma pedra na sacola, que decidiu guardá-la. Ao chegar em casa percebeu que aquela pedra tratava-se de um diamante muito valioso. Você imagina quantos diamantes ele jogou no mar sem parar para pensar?"

Assim são as pessoas que jogam fora seus preciosos tesouros por estarem esperando o que acreditam ser perfeito ou sonhado e desejando o que não têm, sem dar valor ao que têm perto delas. 

Se olhassem ao redor, parando para observar, perceberiam o quão afortunadas são. 

Cada pedra deve ser observada, pois pode ser um diamante valioso. Cada um de nossos dias pode ser considerado um diamante precioso, valioso e insubstituível. Depende de cada um aproveitá-lo ou lançá-lo ao mar do esquecimento para nunca mais recupera-lo. 

Por isso que Toda Luz Que Não Podemos Ver é exatamente sobre ter o poder de escolher quais são as pedras preciosas que devemos guardar, dispensar, ignorar, receber ou doar. Marie-Laurie e Werner tiveram seus destinos traçados com o único objetivo de saber exatamente qual luz os guiaria em suas escolhas. Aquelas que eles não puderam ver, mas apenas sentir. 

E você, como anda jogando suas pedras?

Minha nota: 9.0

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

"Na vida há coisas muito mais importantes do que vencer". Resenha do livro "A garota que você deixou para trás" - Jojo Moyes

"Cheguei mais perto e examinei meu rosto: As sombras embaixo dos olhos, os leves vincos entre as sobrancelhas. Estremeci, mas não de frio. Pensei na garota que Édouard deixara para trás havia dois anos. Pensei no toque das mãos dele na minha cintura, seus lábios macios no meu pescoço. E fechei os olhos."

Durante a Primeira Guerra Mundial, o jovem pintor francês Édouard Lefévre é obrigado a se separar de sua esposa, Sophie, para lutar no front. Vivendo com os irmãos e os sobrinhos em sua pequena cidade natal, agora ocupada pelos soldados alemães, Sophie apega-se as lembranças do marido admirando um retrato seu pintado por Édouard. Quando o quadro chama a atenção do novo comandante alemão, Sophie arrisca sua reputação e a própria vida na esperança de rever seu marido, agora prisioneiro de guerra. Após esta pequena introdução, assim como Sophie, eu também fechei meus olhos para mergulhar em uma profunda história de aceitação, desencontros e encontros extraordinariamente íntimos.

A primeira parte da história se passa na França em 1916, Primeira Guerra Mundial, mas precisamente no Le Coq Rouge, um hotel comandado pelas irmãs Sophie e Heléne. O restaurante do hotel da família de Sophie é designado a fornecer refeições aos alemães, deixando os franceses a mercê da inanição e desgraça. Mas como tudo na vida, uma oportunidade sempre nos bate a porta quando achamos que não há mais saída para nossa não afortunada vida. O título do livro nada mais é do que o nome do quadro que Édouard pinta de Sophie, o grande catalizador da decisão mais difícil da vida de nossa protagonista. Mas então nos questionamos, porquê Sophie foi deixada para trás? Ou melhor, porquê o quadro foi deixado para trás?

Quase um século depois, na Londres dos anos 2000, a segunda parte do livro conta a história da viúva Liv Halston, que mora sozinha em uma moderna casa com paredes de vidro. Ocupando lugar de destaque em seu quarto, há um retrato de uma belíssima jovem, quadro este que foi presente do seu marido pouco antes de sua prematura morte. É através desta mulher retratada neste quadro, que Liv mantém a chama do passado acesa, ou ao menos, é isso que ela acha que pode manter. Quando Liv finalmente parece disposta a voltar a vida, um encontro inesperado vai revelar o verdadeiro valor daquela pintura, e sua tumultuada trajetória. 

Liv conhece Paul, um advogado divorciado, mas o destino resolve brincar com os dois, quando coloca Paul para defender uma ação de restituição do quadro "A garota que você deixou para trás" à família de Édouard Lefévre. 

Os mistérios desta primorosa obra, giram em torno de alguns questionamentos que só serão respondidos nas últimas páginas que tecem este maravilhoso romance: O que acontece a Sophie quando ela decide literalmente vender sua alma ao diabo? Sophie consegue ter seu merecido reencontro com o marido em meio ao cenário de guerra? Como o quadro de Lefévre viaja por cem anos até chegar as mãos de David, falecido marido de Liv? Liv Halston reencontra a possibilidade de amar em Paul? Ela consegue manter A Garota que você deixou para trás em sua posse?

Caros leitores, chegar as últimas páginas para descobrir as respostas destes questionamentos não chega nem perto do que realmente essa obra quer nos ensinar. Até porque, vamos nos questionar algo que aposto que todos nós já paramos para pensar quando uma oportunidade aparece em nossas vidas: Vencer é o mais importante?

Todo mundo sempre nos diz o que é preciso fazer, mas a verdade é que ninguém será capaz de fazer melhor do que nós mesmos. Criticas, dedos apontados em nossos rostos, feições de desaprovação, medos incalculáveis que nos permeiam antes de tomarmos coragem de seguir aquilo que acreditamos ser apenas uma tentativa.  Quem somos afinal sem os milhares de obstáculos que a vida nos proporciona?

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente. 

Os encontros mais importantes já foram combinados pelas almas antes mesmo que os corpos se vejam. E são geralmente estes encontros que acontecem quando chegamos a um limite, quando precisamos morrer e renascer emocionalmente. Os encontros nos esperam, mas a maior parte das vezes evitamos que eles aconteçam. Entretanto, se estamos desesperados, se já não temos mais nada a perder, ou se estamos muito entusiasmados com a vida, então o desconhecido se manisfesta, e nosso universo muda de rumo. 

Todos sabem amar, pois já nasceram com este dom. Algumas pessoas já o praticam naturalmente bem, mas a maioria tem que reaprender, relembrar como se ama, e todos, sem exceção, precisam queimar na fogueira de suas emoções passadas, reviver algumas alegrias e dores, quedas e subidas, até conseguir o fio condutor que existe por detrás de cada novo encontro. 

E este livro nada mais é do que deixar para trás antigas dores, antigos amores, antigos sofrimentos, antigas decisões, antigos medos, antigas desaprovações, antigas desilusões, antigos julgamentos, para somente assim estarmos preparados para nos deixarmos para trás, e viver a mágica da redescoberta do que nossas próprias decisões podem nos proporcionar. 

Sophie e Liv, Cem anos não pôde separar o que deixar para trás significou em suas vidas, e nas vidas daqueles que terminam de ler suas histórias. Para renascer é preciso deixar morrer, e para deixar morrer, é preciso vencer o medo do próprio medo de tentar. 

Encerro dizendo que as perguntas muitas vezes não precisam de todas as respostas. 

Precisamos apenas acreditar que as perguntas podem ter apenas algumas respostas, que nada mais é do que deixar para trás aquilo que um dia possa nos ter feito reviver aquilo que sempre sonhamos em alcançar. 

Que nossas despedidas sejam um eterno reencontro. 

Minha nota: 10

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

"Comece fazendo o que é necessário, depois o que é possível, e de repente você estará fazendo o impossível." Resenha do livro "De Repente" - Barbara Delinsky

De repente, esquecemos e lembramos do futuro venturoso, e de como é bom apenas viver. 

Desta forma vou começar falando de um irresistível romance, que fala sobre perda, amor e principalmente sobre escolhas. 

Na pequena e idílica cidade de Tucker, no estado de Vermont, a vida flui em um ritmo muito tranquilo para a pediatra Paige Pfeiffer. Quando Mara O´Neil, a sua melhor amiga e sócia em uma clinica pediátrica, inexplicavelmente comete suicídio, o confortável mundo de Paige, de repente, desmorona. 

Cuidando temporariamente de Sami, a criança que Mara havia adotado, Paige luta contra a dor da perda da amiga, enquanto se agarra a esperança de que sua vida voltará a ser organizada como antes. Porém, a morte é de certa maneira uma impossibilidade, que de repente se torna a mais pura realidade de nossas vidas. 

Paige foi criada por sua avó, Nonny, mas não porque não tinha um pai e uma mãe, mas simplesmente porque seus pais são seres movidos por um espírito tão livre, que a mesmice de uma rotina sólida não agrada para eles como se agrada a assistir a um comercial de margarina Doriana. Muito mais prazeroso viver a vida rodando o mundo, ao invés de encarar a responsabilidade da paternidade. 

Seus amigos e também sócios da clinica, Peter e Angie, possuem vidas distintas, onde enquanto um vive amedrontado pelo passado inseguro e hoje se auto afirma como um homem bem sucedido, solteirão convicto e responsável por suspiros apaixonados pela parte feminina da pequena cidade de Tucker, outra assume um verdadeiro papel de perfeição, porém de certa forma, como um contrato deve ser, as letras pequenas ficam guardadas para o momento oportuno de uma acusação de insatisfação.

Nesse ínterim, para não dizer de repente, Noah entra para a história, um homem que assume o cargo de diretor da escola Mount Court, e mexe com o coração de Paige, a ponto de bagunçar ainda mais sua cabeça em processo de adaptação a grandes e significativas mudanças.

Personagens a parte, e suas ligações interpessoais, eu diria que o livro se resume a apenas um aspecto. O significado da palavra ressignificação.

Existe um verbo muito bonito e comumente utilizado pelos profissionais da Psicologia, chamado "ressignificar". O mais comum de se pensar em relação a esse verbo é: "Dar um novo significado a algo", o que na teoria, está de certa forma, correto. Ao ressignificar uma experiência, você está retirando o peso que ela têm sobre você, deixando que ela não te afete mais de forma negativa.

Apesar de ser muito fácil definir o significado de uma palavra, pratica-la, como se pode acompanhar nesta obra através do olhar e das experiencias dos personagens, não é algo tão fácil. Ressignificar não significa esquecer algo, e para ressignificar é preciso deixar de lado o sentimento que possui a capacidade de levar qualquer ser humano para o fundo do poço: a culpa.

"Eu deveria ter dito mais vezes que o/a amava."
"Eu deveria ter feito seu prato preferido em um jantar romântico."
"Eu deveria ter sido mais complacente, e discutido menos por assuntos banais."
"Eu deveria ter aproveitado mais nossos minutos juntos."
"Eu deveria...Eu deveria."

Todos nós deveríamos tirar pelo menos quinze minutos do nosso dia para fazer um simples exercício de auto conhecimento. Por quais razões vocês acreditam que estão aqui hoje, nesse exato momento, por exemplo, lendo esta resenha? Como você gostaria que fosse seu dia hoje?

Tudo ou quase tudo que nos cerca, que nos faz sentir, e que nos influencia para tomar decisões e ter atitudes, se resume basicamente a nossa visão de vida. Não passar em uma entrevista de emprego dos sonhos pode significar que você está desempregado, e que sua vida profissional está acabada, como também pode significar que você possui uma grande oportunidade de procurar algo que se identifique mais, e que te faça trabalhar por um proposito, e não simplesmente para seguir um padrão pré determinado por suas experiencias de vida. Terminar um relacionamento pode ser uma das piores experiencias da sua vida, o chão pode desabar aos seus pés e você pode se sentir abandonado e sem rumo para seguir, ou você pode simplesmente fazer disso um aprendizado e aproveitar a oportunidade para se descobrir e se amar completamente, sem depender de ninguém para isso.

O significado de todo acontecimento depende do filtro pelo qual o vemos. A visão que temos a respeito do que nos acontece e dos nossos problemas, sejam eles grandes ou rotineiros, é o que define a nossa capacidade para buscarmos a felicidade, ou como eu comecei esta resenha, de nos lembrarmos constantemente de apenas...viver.

Os personagens desta obra possuem um pouco de cada um de nós. Todos sofrem a experiencia do luto, a maioria deles são médicos pediatras e sofrem ao ver as mazelas de saúde dos seres humanos. Paige, Peter, Angie e Noah carregam dentro de si decepções amorosas, fracassos profissionais, problemas familiares, medos e culpas. Mas se existe uma lição para todos esses problemas, que adoramos classifica-los como "De repente tudo mudou", é a oportunidade de ressignificar nossas ações, mas o principal é não esquecer que os únicos responsáveis pelo rumo que damos a nossa vida e as nossas escolhas somos nós mesmos.

Eu não posso afirmar quais são as escolhas de cada personagem deste livro, e muito menos quais foram as consequências dessas escolhas, mas posso dizer que todos fizeram o que era possível ser feito. Eles escolheram, se questionaram, e não viveram seus dias se perguntando porque o de repente aconteceu, mas aprendendo que fazendo o necessário, depois realizando o possível, se pode alcançar o impossível, que neste caso se resume apenas a dar um novo propósito e significado ao de repente.

Teóricos afirmam que nossa felicidade depende 5% daquilo que nos acontece, e 95% do que fazemos com isso, ou seja, como reagimos e qual sentido atribuímos. Deixo aqui a mensagem que este livro me proporcionou: Sejamos capazes de nos permitir sofrer, chorar e se arrepender, mas que o processo de lamentação seja mais curto do que estamos acostumados a ser, uma vez que possamos entender que ele é inteiramente desnecessário. Que possamos praticar a maior arte que podemos aprender e buscar, e  afinal é o que todos queremos, independente de crença, cor ou religião: a felicidade, todos os dias. Mesmo que de repente tudo dê errado.

Dedico esta resenha a Cristiane Unti, que me presenteou com este livro, que não poderia vir em melhor hora, onde através do meu de repente, eu estou tendo a grande oportunidade de ressignificar a minha vida. Cristiane, para você eu deixo esta mensagem, que foi exatamente a mensagem que este livro me deixou:

"A crise nos oferece a oportunidade de mudar conscientemente. E para melhor. Sempre."

E você caro leitor, já se perguntou como você gostaria que fosse seu dia hoje? Qual o de repente que sua vida vai te proporcionar para que essa resposta não dependa de muito tempo para ser respondida?

Minha nota: 10