quinta-feira, 16 de março de 2017

"Enquanto o ser humano der mais valor ao materialismo do que aos aspectos morais, o verdadeiro amor pouco há de existir." - Resenha do livro "O Som do Amor" - Jojo Moyes

Toda vez que começo a ler um livro da Jojo Moyes, me pego esperando uma narrativa emocionante e reflexiva. A autora sempre consegue através de seus personagens nos fazer pensar na nossa própria vida, e como nossas escolhas trazem consequências enormes e algumas lições muito valiosas. 

O Som do Amor nos faz refletir sobre união familiar, o valor de uma segunda chance, mas principalmente sobre materialismo e aquele tipo de ganância que corrói a alma. Invés de um romance arrebatador, encontramos nesta obra uma história de pessoas machucadas por um tipo de amor simbiótico e cruel, que mente, traí e subjuga. Eu diria que ao final deste livro, aprendemos um pouco mais sobre recomeços, que todos nós, maltratados ou não pela vida, merecemos. 

A história gira em torno da Casa Espanhola, uma construção antiga e maravilhosa situada no interior da Inglaterra, mas que por falta de cuidados está literalmente caindo aos pedaços. O velho proprietário da mansão, um senhor ranzinza e solitário, há anos recebe atenção e cuidados de sua jovem vizinha, Laura. Mesmo que para alguns, Laura e seu marido Matt pareçam caridosos e amorosos, no fundo o casal possui grandes planos para herdar a Casa Espanhola para si próprios. 

Todos os sonhos deste ambicioso casal acabam indo por água abaixo, quando chega à cidade, Isabel, uma jovem viúva e mãe de dois filhos, que acaba de herdar a Casa Espanhola após o falecimento repentino de seu antigo dono. 

Isabel se encontra em ruínas, e sem condições de manter o padrão de vida que sua família levava em Londres. Primeiro violino na Orquestra Sinfônica Municipal, Isabel tinha uma vida tranquila com seus dois filhos, Kitty e Thierry, mas tudo virou de cabeça para baixo quando seu marido Laurent morre em um acidente de carro, e deixa uma grande dívida para a sua família. Ao receber a notícia que herdou uma casa no interior, Isabel resolve colocar sua atual casa a venda, e se mudar com os filhos para a Casa Espanhola, que está em condições extremamente precárias, porém ela não sabe que Matt vai tentar a qualquer custo impedir que Isabel finque suas raízes na casa que ele acredita que lhe pertence. 

Ao longo do livro conhecemos muitas histórias e muitos personagens, todas eles sempre interligados pela Casa Espanhola, o verdadeiro objeto material responsável por todas as reviravoltas que nos deparamos capítulo a capítulo. Laura e Matt passam seus dias planejando projetos arquitetônicos e roteiros para grandes festas na Casa, porém possuem um casamento fracassado e vivem praticamente de aparências. Conhecemos também os típicos moradores simpáticos de uma cidade do interior, e como todos são afetados pela chegada de Isabel e seus filhos, além de nos aprofundarmos na história da própria jovem viúva e sua luta contra a depressão, seus filhos que carregam grandes traumas pela morte do pai, e personagens que ganham formas e nomes ao longo das páginas, todos almejando a Casa Espanhola por causa apenas de poder e dinheiro. 

Jojo Moyes consegue retratar o conceito de posse, mostrando ao leitor quanto um bem material pode corromper a alma humana. É incrível observar o que todos esses personagens estavam dispostos a fazer para possuir a Casa, e ao mesmo tempo é doloroso perceber o quanto a mente humana é suscetível ao erro por tão pouco. 

A grande protagonista desta história é Isabel. Acompanhamos sua insegurança e medo a cada página lida. Isabel é uma mulher que se encontra completamente perdida, não sabe fazer praticamente nada sozinha, pois passou a vida se dedicando apenas a música, e se vê em uma situação fatidicamente ruim, onde não tem controle nem sobre seus próprios filhos. Sozinha e desamparada em uma casa que está prestes a cair esfarelada no chão, Isabel tem que lidar com a falta de dinheiro, o desemprego, o fato de não conhecer seus filhos o quanto deveria, e milhões de responsabilidades. O ponto é que Isabel erra o tempo inteiro, se prioriza em muitos momentos, e literalmente foge da situação tocando seu violino para esquecer o que precisa ser alterado e realizado. Isabel nada mais é do que uma humana, repleta de erros e decisões mal tomadas, mas mesmo totalmente fragilizada e quebrada por dentro e por fora, nossa protagonista aos poucos vai descobrindo o real significado da vida, e passa a demonstrar pequenas forças dignas de algumas boas lágrimas. 

Quem somos nós para julgar Isabel e suas impensadas ações? Quantas vezes não fugimos de nossos problemas e colocamos todos eles como pó embaixo de um tapete, para depois resolver fazer uma faxina em nossas vidas?

É por causa da Casa Espanhola que Isabel amadurece, cria forças para superar o luto e passa aos poucos a conhecer os filhos de verdade, e principalmente a ouvir o próprio coração e entender seus sonhos aquém de sua música e seu violino. 

Claro que não vou entregar o final desta história e nem mencionar todos os personagens e como suas histórias se entrelaçam, o melhor do Som do Amor é ser surpreendido pelo seu desfecho digno, justo e bonito. 

Mas o que posso levar dessa obra é uma reflexão sobre valores. Durante nossa vida, aprendemos a valorizar coisas que não são fundamentais. Materialismo, poder, status e coisas deste tipo são o que infelizmente importam na nossa sociedade. O Som do Amor nos convida para uma verdadeira revolução de alma. 

É nesta revolução que eu pude tirar algumas boas lições: É preciso investir na alma, resgatar não só a natureza, mas o que é natural. Não filtrar as emoções, enriquecer a inveja, mas sim contabilizar as boas relações. Reciclar as relações ruins e preservar as boas e velhas amizades. Equipar o prazer, trabalhar com perseverança e vencer constantemente o cansaço da vida. Fazer a diferença sem precisar fazer propaganda disso. Resolver o que precisa ser resolvido sem alarde, usar o marketing da sinceridade e cobrar profissionalismo de todos. Maximizar energia, preservar recursos, renovar os estoques de sorrisos, canalizar sempre os bons pensamentos, abraçar e demostrar amor. Dizer não ao racismo, a intolerância, a discriminação, ser saudável fisicamente e mentalmente. Dar bons exemplos. Dizer sempre a verdade, principalmente para as crianças, para que elas cresçam sabendo o que é acreditar. E agradecer, sempre, por cada percalço, por cada conquista, por cada dia que vamos acordar e enfrentar a beleza que é viver. 

Casa Espanhola, você foi abrigo para muitas mudanças interiores dos personagens desta bela obra, afinal de contas a melhor reforma é a reforma da vida, aquela que temos constantemente a oportunidade de alterar, limpar e renovar.

Minha nota: 7,5

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

"Às vezes surge um cão que verdadeiramente toca a sua vida, e você jamais consegue esquecê-lo." - Resenha do livro "4 Vidas de um Cachorro" - Bruce Cameron

4 Vidas de um Cachorro conta a história de um cãozinho que busca o sentido de sua existência, ou melhor, de suas várias existências. 

Inicialmente nascido como um vira-lata, ele experimenta ao lado de uma mãe e dois irmãos, diversas aventuras e dificuldades de um cão de rua, que constantemente precisa lutar por alimento e fugir dos perigos conhecidos como humanos. Mas esta primeira experiência não é lá muito longa, e logo ele se vê como filhote novamente, com uma nova mãe e novos e muitos irmãos. 

Em sua segunda vida, nosso protagonista é um Golden Retriever, que acaba no lar do menino Ethan. Chamado de Bailey Bailey Bailey, o cãozinho tem nessa vida um dos seus maiores aprendizados: amor, companheirismo, proteção e fidelidade. 

Bailey literalmente cresce ao lado de Ethan, compartilhando com ele vários momentos importantes na vida de uma criança. A primeira briga de mão, o primeiro amor, o divorcio de seus pais e o dilema da escolha da faculdade. Depois de longos anos ao lado de seu melhor amigo, ou como Bailey gosta de chama-lo, "o seu menino", nosso super cão acaba morrendo bem velhinho, feliz por ter terminado sua jornada podendo vivenciar o mais puro sentimento de amor e carinho. 

Sem entender muito bem o porque, Bailey volta como um filhote de pastor alemão, desta vez para ser mais exata, como uma cachorra fêmea. Chamada de Ellie, nossa nova protagonista vai desempenhar um importante papel como cão de resgate na policia civil. Ellie é treinada desde filhote, e possui um faro extremamente aguçado, e ao lado de seu primeiro dono, o policial Jakob, e posteriormente a policial Maya, Ellie salva muitas vidas em diversas situações de perigo. 

O grande dilema que nosso cão enfrenta como Ellie é qual seria o propósito de sua vida canina em voltar tantas e repetidas vezes  como cães totalmente diferentes em circunstâncias totalmente diferentes? Claro que nosso amoroso e afetivo cão lembra de absolutamente cada detalhe de todas as suas vidas passadas, e sofre por não ter podido voltar como o fiel escudeiro de Ethan. Mesmo sentindo imensas saudades do seu menino, nosso cãozinho permanece fiel ao seu novo objetivo de vida, pois consegue enxergar em Ellie um sentido para viver, ele agora é um cão que salva vidas, e é extremamente grato por isso. 

Novamente Ellie morre, desta vez também bastante idosa, porém tendo desempenhado uma vida muito plena e satisfatória. Para sua surpresa, quando abre os olhos, nosso cão é novamente um filhote, desta vez vivendo em um canil que vende cachorros a preços bem exorbitantes. Acontece que desta vez, nosso cão parece deprimido e não enxerga o porquê retornou novamente a vida, vivendo prostrado em um canto, sem querer socializar nem com seus irmãos e nem com nenhum humano. 

Para despachar rapidamente o único cão que não foi vendido na ninhada, o dono do canil praticamente o dá de graça para um rapaz esquisito, que resolve presentar a namorada com um cachorro. Acontece que essa namorada não é lá uma pessoa muito organizada, e deixa nosso cão a ver navios, e acaba multada por ter trazido um cão de grande porte para morar em um pequeno apartamento no subúrbio. Sem poder fazer nada a não ser passar seus dias sentindo que sua vida não tem propósito nenhum, o cão que desta vez não tem nem nome, acaba nas mãos de uma família pior ainda que sua primeira e desleixada dona, que decide depois de muito maltrata-lo, abandona-lo em um matagal bem longe do cenário urbano. 

Para sua surpresa, ele acaba exatamente na fazendo onde o Avô e a Avó de Ethan moravam. Quais as chances de finalmente nosso cão entender o seu propósito de vida?

Posso adiantar que o encontro com Ethan acontece de uma maneira muito emocional, e desta vez nosso querido cão ganha pelo seu menino o nome de Amigão, e é nesta vida que ele finalmente entende o porque de ter retornado exatas quatro vezes, e a forma como aprendemos sobre propósito de vida com Bailey, Ellie ou Amigão é sutil, porém muito bonita e extremamente reflexiva. 

Ler 4 Vidas de um Cachorro é rir e chorar o tempo todo. A narrativa é toda feita do ponto de vista do cão. Para quem tem cachorro, por várias vezes já imaginou o que ele poderia estar pensando em determinados momentos chaves de nossa relação com eles. Acompanhar as descobertas  do filhote e suas boas intenções ao fazer o que os humanos interpretam como travessuras é muito divertido e rende ótimos momentos ao leitor. 

Tirando de lado todos os aspectos dramáticos que compõe esta linda história, este inocente porém muito esperto cãozinho nos ensina algo que poucos humanos ainda conseguiram compreender: o que é propósito de vida? Porque vivemos? 

Imagine um martelo. Ele foi desenhado para bater pregos, certo? Agora imagine que o martelo nunca é usado, fica simplesmente jogado e esquecido dentro da caixa de ferramentas. Pense que o martelo possui uma alma, uma consciência própria, e passam-se dias e mais dias e ele continua dentro da caixa de ferramentas sem algum propósito de existir. Ele se sente meio estranho, mas não sabe exatamente o porquê. Alguma coisa definitivamente está faltando para ele, mas o que seria?

Então um dia, alguém o retira de dentro da caixa e o usa para quebrar alguns galhos para pôr na lareira. O martelo fica cheio de alegria. Ser segurado, utilizado para algum fim é bastante satisfatório. No final do dia entanto ele se sente insatisfeito. Bater nos galhos foi divertido, mas não o bastante. 

No decorrer dos dias, ele foi utilizado frequentemente. Desamassou uma calota, despedaçou algumas pedras, colocou o pé de uma mesa no lugar. Mesmo assim, ele continua infeliz. Ele anseia por mais. Ele quer ser usado o máximo que puder para bater nas coisas ao seu redor, para quebrar, despedaçar e amassar. Ele descobre que ainda não experimentou o bastante desses eventos para se sentir completo.

Chega o dia em que alguém usa o martelo num prego. De repente, uma luz invade a alma do martelo. Ele agora consegue entender para que verdadeiramente foi projetado. Foi feito para bater pregos. Agora ele sabia o que sua alma de martelo estava buscando por tanto tempo.

Assim como o martelo ou o nosso cãozinho, todos temos um propósito na vida. E por mais que as vezes não conseguimos enxergar isto, existe um propósito para que tenhamos vindo a este planeta neste determinado momento da história. 

Engana-se quem entende que propósito precisa necessariamente ser algo grandioso e espetacular. Propósito é nada mais nada menos que cumprir com dignidade a trajetória que escolhemos realizar nessa nossa passagem pela Terra.  

Ocorre que muitas pessoas, apesarem de terem uma vida tranquila, sem grandes problemas de natureza material, sentem um vazio, como se lhes faltasse algo importante, que elas não conseguem definir o que seria.

De um modo geral, quando isso acontece, é porque elas não estão vivendo em consonância com os anseios de sua alma, e sim seguindo padrões estabelecidos pela sociedade. E porque não voltar várias e várias vezes até conseguirmos acertar o caminho certo? Tirando de lado as crenças religiosas, a vida nos dá diversas chances, concordam?

Para que possamos viver realmente em sintonia com o nosso propósito de vida, devemos antes descobrir do que precisamos para nos sentir verdadeiramente felizes. Que tipo de atividades realizamos, a espécie de relacionamentos que estabelecemos e a postura que temos diante da vida. Estes foram alguns parâmetros que Bailey no final de algumas tentativas indo e voltando a vida determinou para ter a sua resposta final. E é exatamente o que todos deveríamos fazer invés de procurar apenas pela felicidade.

A grande lição que fica ao final desta prazerosa leitura é que é preciso se renovar constantemente, possuir a determinação de viver uma vida plena  dentro daquilo que nos propusemos a realizar, pois assim o sentimento de vazio com certeza não existirá e será altamente substituído por uma sensação de equilíbrio, harmonia e paz interior.

Independente desta lição vir no formato de um cachorro, que nem sempre consegue ter um grau de compreensão tão grande como um ser humano, o bacana de refletir sobre a conclusão desta obra, é que por justamente não ser complexo como um ser humano, é que este fantástico cão usou apenas de um sentimento puro, o amor, para descobrir o seu propósito de vida.

Talvez o que afinal falta para nós humanos para chegar a conclusão que o Bailey chegou, é a falta de usar o sentimento mais nobre do mundo em nossas ações.

Bailey, Bailey, Bailey, você tocou tão profundamente a minha vida, que eu realmente não vou conseguir esquecê-lo.

Para homenagear estes seres absurdamente puros e quem tem muito a nos ensinar, deixo para vocês a foto da minha Bailey, aquela que através de suas travessuras, lambidas e amor incondicional, me ensina diariamente a buscar por aquilo que eu amo.


Minha nota: 10

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

"Tudo tem começo e meio. O fim só existe para quem não percebe o recomeço." - Resenha do livro "Uma Curva no Tempo" - Dani Atkins

"Algumas amizades resistem a qualquer distância, separação ou negligência."

É falando sobre amizade que começo a resenha do único livro escrito por Dani Atkins. Tudo se inicia quando nossa protagonista Rachel, está prestes a se separar dos seus amigos depois do fim do ensino médio. Ao todo, seus amigos formam um grande grupo que se conhece a muito tempo, e assim compartilham muitos momentos juntos. 

Rachel e Jimmy além de vizinhos, são melhores amigos desde pequenos, o que fez com que sempre se sentissem muito a vontade um com o outro. Além de Jimmy, Rachel namora Matt, que também faz parte do grupo de inseparáveis amigos, mas é em Sarah que Rachel têm sua melhor amiga. Cathy, a amiga do grupo que mais se parece uma modelo de passarela de tão linda, se junta a Phil e Trevor para fechar este grupo tão seleto de amigos. 

 Perto de se separarem para encarar a vida universitária, este grupo de amigos marcam de jantar juntos em um restaurante no centro da pequena cidade de Great Bishopsford. Em algum momento entre uma garrafa e outra de vinho, Jimmy convida Rachel para ir depois para a sua casa, dizendo que precisa conversar com ela e lhe contar algo muito importante. Todavia, no que seria supostamente a última noite em que todos estariam juntos, um grave acidente acontece. 

Rachel, que estava sentada na mesa em um lugar muito próximo a janela do restaurante, ouve Matt gritando que um carro a 100 km por hora estava vindo em direção a eles de forma descontrolada. O choque é tão grande que em meio a confusão de todos correndo para salvar suas vidas, Rachel se percebe presa entre as cadeiras que caíram no chão. Neste momento é Jimmy quem volta até a mesa para puxar Rachel e salva-la. Numa inversão de papeis, Rachel consegue se desvencilhar das cadeiras, enquanto Jimmy acaba sem vida, tornando este o começo de uma vida traumática para todos os presentes naquele jantar. 

Passam-se 5 anos e Rachel agora está com 23 anos de idade. Como consequência do fatídico dia do acidente, ela carrega uma grande cicatriz no rosto e dores de cabeça constantes. Sua vida em nada foi como esperado e sonhado em sua adolescência. A perda de seu melhor amigo Jimmy fez uma enorme cicatriz também em seu coração, e por sentir-se extremamente culpada, ela acabou terminando seu relacionamento com Matt na época do acidente, nunca mais voltou a sua cidade natal e também não cursou a faculdade de jornalismo que tanto queria. Seu pai está com câncer e Rachel mora e trabalha em Londres como secretária em um escritório de advocacia. 

A única razão que a leva a voltar a Great Bishopsford é o casamento de Sarah, e nesta visita à cidade, Rachel decide visitar o tumulo de Jimmy certa noite, sozinha. No cemitério ela começa a se sentir mal, sentindo as dores de cabeça de forma muito intensa. Sem sinal no celular para pedir ajuda a alguém, Rachel cai e apaga completamente. 

Quando ela acorda, está em um quarto de hospital com seu pai ao lado de sua cama. Ao abrir os olhos, Rachel percebe que seu pai está completamente bem. Quando nossa protagonista em completo desespero começa a questionar como que o pai se curou do câncer, o mesmo ri e diz que ele nunca ficou doente. Confusa com os acontecimentos derradeiros, a primeira pessoa a visitar Rachel no hospital é seu amigo Jimmy, que agora é um policial na cidade natal. Não chocante o suficiente, Rachel descobre que está noiva de Matt e leva uma vida extremamente bem sucedida como jornalista em uma renomada revista em Londres. Rachel, confusa e diagnosticada com amnésia, passa os capítulos restantes do livro tentando provar a todo custo que aquela vida apesar de maravilhosa, não é a sua verdadeira vida. 

Com Jimmy tentando acreditar na versão de sua melhor amiga, ambos iniciam uma grande aventura para alcançar a verdade, e aquele tão importante assunto que eles tinham a conversar depois do jantar de despedida, acontece, e o livro finaliza de uma maneira completamente inesperada, porém com a mensagem de que o tempo é mesmo o nosso melhor amigo, afinal de contas. 

Por ser o primeiro e único livro da autora, Uma Curva no Tempo tem um bom desfecho, um tanto quanto surpreendente e nada clichê, mas ao final esta obra nos deixa uma bela reflexão sobre escolhas, sobre como optamos por viver perante os acontecimentos da vida, e o que fazemos quando a mesma nos dá uma nova chance de mudar. 

Existe algo com que mais convivemos em nossas vidas do que escolhas mal feitas? Todos nós, desde cedo, aprendemos a conviver com os erros que cometemos e com as consequências que os mesmos nos trazem. É através deles que aprendemos a distinguir o que é certo e errado para nós, o que podemos ou devemos fazer. É através deste eterno aprendizado, entre erros e acertos, que moldamos principalmente o nosso caráter, que aprendemos a viver uma vida plena. 

Todo acerto nos eleva, como todo erro nos ensina. Independente de como, a verdade é que todos merecemos uma segunda chance. 

Não importa onde paramos. Em que momento da vida nos cansamos. O que importa é que sempre é possível e necessário recomeçar. Recomeçar é dar uma nova chance a si mesmo, é renovar as esperanças na vida, e o mais importante, acreditar em si próprio de novo. Sofrer é aprendizado. Chorar é limpeza de alma. Sentir raiva do outro é para que um dia possamos perdoa-lo e nos sentir leve novamente. Sentir-se só é quando fechamos todas as portas para as possibilidades. Acreditar que tudo esta perdido é uma chance de iniciar uma melhora para a nossa vida. A hora de iniciar é sempre agora, de encontrar prazer nas coisas simples.

O tempo pode nos trazer uma pequena curva em nossa história que nos faz pausar e ir mais alto, sonhar mais alto, querer o melhor independente de como a vida até então nos levou a viver. 

O protagonista desta história não é Rachel e seu grupo de amigos, mas sim o tempo, a curvatura que ele usou e usa sempre para nos dar uma única lição: Nós somos seres apaixonáveis, sempre capazes de amar muitas e muitas vezes. Afinal de contas, nós somos o amor. E quando temos amor, podemos sempre recomeçar. 

Que tal todos pararmos de olhar apenas a linha reta que está sendo a nossa vida até então, e nos permitir fazer uma curva para a direita ou para a esquerda, e enxergar de um outro angulo como podemos fazer novas escolhas?

O fim da estrada só existe para quem não percebe o recomeço constante dela. 

Minha nota: 8,5

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

"Mas de repente me dei conta, que ter alguém que nos entenda, que nos deseje, que nos veja como uma versão melhorada de nós mesmos é o presente mais incrível que podemos ganhar." - Resenha do Livro "Um mais Um" - Jojo Moyes

Que eu sou fã da Jojo Moyes todo mundo que lê meu blog já sabe, mas assumo que comecei a leitura do Um mais Um de forma despretensiosa, até porque o título e a capa não são lá um grande chamariz. Mas por se tratar de uma de minhas autoras preferidas, eu resolvi arriscar, e eis que me deparei com uma grata surpresa. 

Um mais Um carrega um alto teor emocional, apesar de no inicio se mostrar leve e até superficial. Se prepare para rir, chorar, suspirar e no final aprender valiosas lições. 

O ponto mais significativo deste livro é que a autora descreve um cenário comum a milhares de mulheres. Mulheres estas que precisam desempenhar o papel de mãe e pai, que batalham diariamente para pagar contas e colocar comida na mesa, e que constantemente são pisoteadas pelas dificuldades do dia a dia, mas mesmo assim mantêm a esperança de uma vida melhor e de um futuro brilhante para os seus filhos. Apesar do bom humor habitual dos livros de Jojo Moyes, o pano de fundo desta gostosa obra é a luta diária de uma família que carrega o peso de contas acumuladas, do preconceito social e do bullying em sua forma mais amedrontadora.

Há dez anos, Jess Thomas engravidou e largou absolutamente tudo para se casar com Marty. Depois de alguns anos em um desgastante casamento, Marty sai de casa com a desculpa de estar com depressão e nunca mais retorna, deixando Jess totalmente na mão. Fazendo faxinas de manhã e trabalhando como garçonete em um pub à noite, nossa heroica protagonista ganha o suficiente para sustentar a filha Tanzie e o enteado Nicky, que ela cria como seu há oito anos. 

Nicky é um sensível adolescente gótico e mal humorado que vive apanhando dos colegas. Já Tanzie é um pequeno prodígio da matemática e recebe uma generosa bolsa de estudos para estudar em um escola particular extremamente renomada. É deste exato ponto que se inicia o desafio desta corajosa e esperançosa mãe: Como pagar a diferença do valor da renomada escola e ver sua filha ter a oportunidade de se tornar o gênio da matemática, e ao mesmo tempo ajudar seu problemático filho a lidar com sua própria personalidade?

A vida é extremamente cômica, e sem esperar nada em troca,  ela nos mostra uma saída, como se nos perguntasse se estamos mesmo preparados para o desafio. Tanzie recebe um convite para participar de uma Olimpíada de Matemática que será disputada na Escócia, e o prêmio é um valor altíssimo em dinheiro que possibilitará Jess proporcionar a sua filha sua grande oportunidade de vida, além de lhe ajudar a pagar grande parte de suas dívidas. Mas como bem a palavra diz, desafio são desafios, e a grande aventura começa quando essa adorável família não tem condições de bancar uma viagem até a Escócia e por milésimos de segundos perde a esperança de ter uma solução grandiosa nas mãos. 

Neste ínterim somos apresentados a Ed Nicholls, um gênio do empreendedorismo tecnológico, que por conta de um fracassado relacionamento, se enfia em uma denúncia de práticas ilegais envolvendo sua empresa. Refugiado em uma casa de veraneio e bebendo todos os dias no pub em que Jess trabalha, Ed e nossa protagonista iniciam o que eu posso classificar como ódio a primeira vista. 

Lembram-se da vida e sua famigerada forma de nos desafiar constantemente? Já que o destino adora nos pregar boas peças, Ed resolve ficar extremamente bêbado, e Jess não tem outra opção a não ser deixa-lo em casa em segurança após um  árduo dia de trabalho no pub. Em parte agradecido pelo gesto, mas principalmente para escapar da pressão dos advogados, da ex mulher e de sua própria família, Ed oferece uma carona a Jess, os filhos e o enorme cão da família até a cidade onde acontecerá o torneio. Se inicia então uma viagem repleta de desentendimentos,  enjoos, comida ruim e engarrafamentos, mas a cima de tudo se inicia uma viagem repleta de esperança, para todos. 

O romance, como já era de se imaginar, é bem previsível. Ed e Jess são de mundos completamente diferentes: ela vive no limite, administrando seu escasso dinheiro da melhor forma possível, enquanto ele está acostumado com o luxo que seu trabalho proporciona. Enquanto viajam juntos, Jess e Ed são apresentados a realidades econômicas cruelmente distintas, o que permite que ambos aprendam mais sobre si mesmos, como levam suas vidas e qual é o futuro que pretendem ter daqui para a frente. A relação dos dois é construída na base do companheirismo, no bom humor e principalmente na esperança de que as coisas irão sempre melhorar. O amor de ambos nasce do convívio diário, e de como Ed chega na vida de Jess para salvar a ela e seus filhos, sem perceber que no fundo é a família que Jess e seus filhos representam que verdadeiramente o salvam. O mágico é ver que Ed é na verdade o grande protagonista desta história, e não Jess. 

O livro é ora narrado por Jess, ora por Ed e ora pelas crianças. Tudo nesta belíssima obra se resume a esperança, principalmente devido a construção do conceito de família. 

A esperança, a utopia, os sonhos são essenciais para nós, é que nos impulsiona a lutar por um mundo mais justo e humano. Sabemos que nem sempre o real se aproxima do ideal desejado, no entanto acreditamos sempre que podemos ir além e chegar mais longe. 

É claro que não é nada fácil e simples manter a esperança frente à dureza do cotidiano, mas é impossível pensarmos uma vida verdadeiramente humana sem esperança. A função da esperança é justamente a de não nos deixar acomodar e se conformar com a situação em que vivemos. Vivemos aqui o presente, sempre à espera do que virá no futuro, do que ainda não é, mas poderá ser. Somos um projeto infinito, seres da esperança. Vivemos o já realizado, sempre na espera do que ainda não realizamos, mas que poderá se realizar dentro da nossa história e principalmente, do nosso tempo disponível para tal. Sabemos que enquanto há vida, há esperança. A esperança é uma espécie de imperativo existencial em nossas vidas. 

Há uma mistura de cansaço e indignação frente a realidades duras que todos vivemos. A verdadeira ameaça não são os problemas, e sim o cansaço existencial da humanidade, a velha mania de desistir e largar mão de tudo. Jess tinha esperanças e queria um mundo melhor para ela e os seus filhos, independente de como. Ela não jogou a toalha para o alto, ela literalmente se enrolou na toalha e a usou da melhor maneira que foi possível, errando sim, mas no final acertando sempre. 

A grande lição de Jojo Moyes com Um mais Um foi ensinar que somar forçar pode resultar em dois, três, quatro e talvez um bilhão, mas um bilhão de esperanças de que no final tudo sempre dá certo. 

Ironicamente a vida é mesmo uma constante matemática, onde passamos nossos dias somando, subtraindo, dividindo e multiplicando, tendo sempre a esperança como um marco zero, para recomeçar e resultar afinal na felicidade que todos merecemos alcançar, e quando somamos a toda essa equação pessoas que enxergam a melhor versão de nós mesmas, o resultado final é ainda melhor. É um verdadeiro presente da vida. 

Jess, Tanzie, Nicky e Ed me deixaram uma valiosa lição: Enquanto existir esperança, dias melhores sempre virão. 

Que a esperança e o amor façam parte sempre da equação de nossas vidas, que afinal é o essencial para se viver pleno e feliz. O resto, como a própria vida nos mostra, a gente constrói. 

Minha nota: 8,5



terça-feira, 29 de novembro de 2016

"Só existe um tipo de gente: gente." Resenha do livro "O Sol é para todos" - Harper Lee

Todos me perguntam qual é o meu livro preferido. Sempre me pego pensando e nunca acho uma resposta perfeitamente correta para esta pergunta. Como uma completa aficionada por livros, escolher um preferido é uma tarefa de alta complexidade, mas O Sol é para todos deixou uma marca em meu coração, que posso afirmar sem pensar demais que ele com certeza está na minha lista de livros marcantes. 

O livro de Harper Lee conta a história de duas crianças no árido terreno sulista norte americano da Grande Depressão no início dos anos 1930. Jem e Scout Finch testemunham a ignorância e o preconceito em sua cidade, Maycomb - símbolo dos conservadores estados do sul dos EUA, empobrecidos pela crise econômica, agravante do clima de tensão social. 

A esperta e sensível Scout, narradora desta belíssima obra, e Jem, seu irmão mais velho, são filhos do advogado Atticus Finch, encarregado de defender Tom Robinson, um homem negro acusado injustamente de estuprar uma jovem branca. Mas não é apenas desta acusação e deste julgamento que os irmãos Finch percebem o racismo no pequeno município do Alabama onde vivem. Nos três anos em que se passa a narrativa, ambos se deparam com diversas situações em que negros e brancos se confrontam. 

Ao longo do livro, os dois irmãos e seu pequeno amigo de férias Dill, passam por tensas e divertidas aventuras, que desencadeiam em importantes descobertas e aprendizados. Nos capítulos vividos ao lado de personagens cativantes como Calpúrnia, Boo Radley e Dolphus Raymond, as crianças aprendem e ensinam sobre empatia, tolerância, respeito ao próximo e a necessidade de se estar sempre aberto a novas idéias e perspectivas. 

O livro é dividido em duas partes, sendo a primeira destinada a traçar o perfil da sociedade de Maycomb, tudo sempre sob a ótica de uma criança de seis anos de idade. Durante suas férias, Scout, Jem e Dill tentam fazer com que o vizinho Arthur Radley, que tornou-se uma pessoa reclusa há anos (e portanto as crianças não o conhecem), saia de casa. Eles inventam histórias absurdas a respeito de Boo, como o apelidaram, as quais demonstram como são crianças de imaginação engenhosa. Envolto por mistérios, acabam criando um perfil assustador do vizinho. 

Já na segunda parte, tudo muda na sossegada e imaginativa infância de Scout, pois é quando seu pai, Atticus, inicia a defesa de um negro no tribunal. A mudança do comportamento da sociedade de Maycomb muda drasticamente e acompanhamos esta transformação sobre o olhar de uma criança, a qual se torna alvo das mesmas discriminações voltadas a seu pai. 

Apesar do complexo assunto da discriminação social, o Sol é para todos é um livro leve, engraçado e fácil de ler. Como é narrado por uma criança, sua inocência e doçura acabam afetando o leitor de uma maneira muito dura. Nunca o preconceito foi retratado desta forma, com a inocência infantil como pano de fundo, mas assumo que foram nas palavras da pequena Scout que eu me peguei refletindo porque o mundo parece querer que o Sol brilhe somente para uns e não para todos. Um assunto extremamente atual, que nos dá um verdadeiro soco no estomago sobre a intolerância racial, fazendo um paralelo também a julgamentos imaginativos errados que todos fazemos o tempo todo sobre tudo e todos. Assim como as crianças julgaram um ser humano recluso como inimigo, a sociedade de Maycomb julgou um homem erroneamente por sua cor de pele. O preconceito navega de forma muito sutil neste livro, mas nos mostra que no final o resultado é o mesmo, independente se estivermos falando sobre preconceito ou sobre julgamento. Há apenas um sol e o que nos falta aprender é a dividi-lo igualmente para todos. 

Todos sabemos que no mundo há grandes diferenças entre pessoas, e que simplesmente por estupidez e ignorância cria-se o preconceito, que acaba por gerar conflitos e desentendimentos. E aí que me questiono: onde se encontra os Direitos Humanos que dizem que todos são iguais, se há tanta desigualdade do mundo?

Manchetes de jornais relatam constantemente: "Homem negro sofre racismo em lojas de departamento", "Mulheres recebem salários menores que os homens", "Rapaz homossexual é espancado até a morte", "Jovens de classe alta colocam fogo em morador de rua", "Hospitais públicos em condições precárias não conseguem atender pacientes", "Ônibus não param para idosos", "Escola em mau estado é interditada e alunos ficam sem aula". Seria isto um sinal de que nenhum de nós está fazendo sua parte para a igualdade social, ou vamos colocar a culpa no outro e dizer que "o governo não faz a sua parte", ou "pobre precisa mesmo sofrer" e por aí vai?

Infelizmente não se nasce preconceituoso, este tipo de coisa a gente aprende. Mas sabe o que ninguém nos ensina? Que só existe um tipo de gente: gente. 

Até quando vamos suportar o peso de nos julgar tão diferentes um do outro? Branco, negro, alto, baixo, gordo, magro, rico, pobre, mulher ou homem, somos todos parte de um mesmo núcleo, e todos abrimos a janela e vislumbramos o mesmo sol.  O que muda é como o encaramos no desafio de se viver em um mundo tão igualmente desigual. 

Termino essa resenha concluindo que o preconceito racial e social em uma pessoa é inversamente proporcional à sua capacidade de corrigir os próprios erros. 

"Temos de aprender a viver todos como irmãos, ou morreremos todos como loucos." Martin Luther King. 

O Sol é para todos é o único livro de Harper Lee e se tornou best seller mundial. O livro recebeu muitos prêmios desde sua publicação, em 1960, entre eles o Pulitzer. Traduzido em 40 idiomas, vendeu mais de 30 milhões de exemplares em todo o mundo, e em 1962 foi levado as telas com Gregory Peck, ganhador do Oscar por sua interpretação de Atticus Finch. O Librarian Journal dos EUA deu sua maior honraria a história elegendo-a o melhor romance do século XX. Em 2006, uma pesquisa na Inglaterra colocou O Sol é para todos no primeiro lugar da lista de livros mais importantes seguido da Bíblia e de o Senhor dos Anéis de J.RR. Tokien. Também entrou para a lista da Time Magazine dos Cem Melhores Romances de todos os tempos. 

Que seus 30 milhões de exemplares possam trazer conscientização para o maior número de pessoas possíveis. O mundo precisa de suas palavras Scout. Obrigada por tocar nossos corações e nos ensinar tanto com tão pouco. 

Minha nota: 10 com louvor. 




quinta-feira, 27 de outubro de 2016

"Ser atirada para dentro de uma vida totalmente diferente — ou, pelo menos, jogada com tanta força na vida de outra pessoa a ponto de parecer bater com a cara na janela dela — obriga a repensar sua ideia a respeito de quem você é. Ou sobre como os outros o veem." Resenha do livro "Nada mais a perder" - Jojo Moyes

Como você se sentiria se inesperadamente alguém batesse na sua porta e entrasse na sua casa sem ser convidado? Você o receberia de braços abertos e lhe ofereceria um café? Ou você lhe daria as costas?

É exatamente sobre estes tipos de decisões que Jojo Moyes majestosamente retrata em "Nada mais a perder". 

A primeira grande decisão a nos ser apresentada é em meados de 1950 através do olhar de Henri Lachapelle, um camponês francês que fora aceito no Le Cadre Noir, uma academia de extrema elite para cavalariços. Apesar de um talento nato para se comunicar com cavalos e executar acrobacias dignas de um filme, Henri resolve abandonar tudo para ficar com Florence, uma jovem inglesa que cruzou seu caminho sem mais nem menos. Desta relação, nasceu Simone, que mais para frente deu à luz a Sarah, a neta do casal, com quem passou a viver depois que a mãe resolveu se envolver no mundo das drogas. 

Henri carregou dentro de si, secretamente, um grande arrependimento pela decisão que havia tomado, e não queria para a neta um destino como o dele. Desta forma ele toma conhecimento que o bem mais precioso que poderia dar a Sarah era o seu enorme conhecimento sobre cavalos, talvez desta forma lhe proporcionando um passe para uma vida distante do caos de Londres. E foi assim, que Henri começou a treinar sua neta Sarah e seu cavalo Boo. 


Sarah cresceu passando mais tempo em meio ao estábulo do que fazendo qualquer outra coisa que uma pré adolescente faria. Suas tarefas diárias incluíam limpar a baia de Boo, levá-lo para esticar as patas e treinar movimentos precisos e muito difíceis para uma garota de sua idade. Ao completar 14 anos, Sarah ganha de seu avô um bilhete para uma viagem para a França, para assistirem ao vivo uma apresentação no Le Cadre Noir, escola que foi moradia para Henri durante muitos anos. 


Lembram-se da batida na porta? É neste momento que repentinamente seu avô sofre um derrame, e sozinha no mundo, Sarah precisa tomar a difícil decisão de fazer tudo para proteger seu bem mais precioso, seu cavalo. 

Neste ínterim, a segunda grande decisão do livro acontece com Natasha, uma advogada bem sucedida e com uma conta corrente extremamente poupuda. Natasha mora em uma casa dos sonhos, mas todos esses benesses não vieram sem um custo. Após quatro abortos espontâneos e uma carga de trabalho cada vez mais intensa, Mac, seu marido, desiste da relação, deixando Natasha sozinha e vivendo exclusivamente para seu trabalho, que envolve defender crianças abandonadas que buscam um lar ou um recomeço de vida. 

Passado um ano, quando Natasha de alguma forma tentava colocar sua vida nos eixos, Mac reaparece sem ter onde morar, e propõe a ex esposa a venda da casa, já que ele também tem direito a metade dela. Completamente desestabilizada pela situação, Natasha vai até um mercado local comprar um pouco de álcool, até porque quem nunca precisou de um pouco dele para afundar as mágoas? É neste momento que ela se depara com uma jovem sendo acusada de furto. Ao tentar ajudá-la, descobre que a mesma era menor de idade e estava morando sozinha, pois seu avô estava internado no hospital devido a um derrame. E por grandíssima ironia do destino, ao acionar o serviço social, Natasha fica sabendo que não havia nenhum lar disponível para abrigar a garota, e desta forma, em meio ao caos, Natasha resolve abrir a porta e deixar a menina entrar em sua vida. 

E é assim que as vidas de Sarah e Natasha se cruzam, criando uma enorme teia de motivações e decisões, permitindo que através de suas ações, nasça uma enorme lição de auto conhecimento.

Natasha decide abrigar Sarah por um tempo, até que seu avô se recupere, porém conhecendo crianças e adolescentes como ela conhece, Natasha percebe que Sarah está escondendo algo, e não consegue imaginar o tamanho da consequência deste segredo.

"As crianças não nos contam nada porque, na maioria das vezes, ninguém escuta mesmo."

O livro discorre sobre diversas óticas, sejam elas pertencentes a Sarah e Natasha, ou até mesmo Mac, onde acompanhamos como cada um lida com a convivência entre si, e com as decisões que ambos tomam conforme a história acontece. 

Nada mais a perder vai muito além do romance, e traz a tona uma reflexão muito profunda sobre quem somos, como somos e porque somos, e como uma simples abertura de uma porta pode trazer enormes consequências. 

Falar do que acontece com Sarah e qual seu grande mistério é entregar de bandeja toda a conclusão desta belíssima história, então vou deixar vocês com a reflexão do aprendizado que pude extrair deste livro:

A vida assim como o jogo, requer paciência e autenticidade em suas escolhas. Amor verdadeiro assim como o universo, é interminável e não cansa seu brilho prodigioso. A paixão assim como o fogo, aumenta a cada minuto, mas sempre há quem o apague. Família assim como estrelas, existem várias, mas só uma é capaz de reunir nossos sentimentos mais profundos. Amigos assim como bichinhos doentes, necessitam de cuidados especiais. 

Os mistérios assim como os segredos, também não deveriam ser revelados. A felicidade assim como os sonhos, nós almejamos a cada dia e corremos atrás até alcançarmos. O mar, por sua vez, também são como as relações com as pessoas que amamos. Ora está calmo, ora entra em alvoroço constante. 

Normalmente assim como a totalidade de poder, são poucas as pessoas que o possuem. Eu, assim como todo mundo, também sou gente, embora queira ser diferente, não me deixo levar por mudanças breves. 

Saudade é como não saber. Perdoar não é esquecer, e lembrar é querer reviver. Chorar não quer dizer emoção, e sorrir não é estar feliz. Nosso passado é a história que construímos, o presente é a história que ainda estamos vivenciando, e o futuro, ah, o futuro é totalmente incerto. Tudo pode ser um nada a ser descoberto, e as pequenas coisas acabam se tornando tudo. 

Possuir não quer dizer conquistar e amar não quer dizer ser amado. Tudo é relativo. Pensar não é entender, querer nem sempre é poder, e olhar nem sempre é enxergar. Ensinar pode ser repassar, mas repassar nem sempre assegura que o melhor irá acontecer. Sentir não quer dizer experimentar, afinal todo experimento tem sua consequência.

Sarah e Natasha não deixam de encarar todos esses desafios e aprendizados,  porque percebem no final das contas que encarar é passar por cima dos próprios medos. E medos são sentimentos que não nos permitem viver. Medo da morte, medo da solidão, medo de confiar, medo de ser julgada, medo de pedir ajuda, medo de expor as fraquezas, medo de assumir um sentimento, medo de tentar, medo de mudar, medo de cair, simplesmente medo...

Volto a perguntar: se alguém bater na sua porta, você prefere atende-la e lhe oferecer um café, ou por medo irá deixa-la fechada sem saber quem e o que poderia estar do outro lado? As vezes, uma oportunidade pode bater uma única vez na sua porta, e nunca se sabe qual será a consequência na escolha de abri-la ou não. Então porque não começar a se permitir abrir mais portas, e não deixar que o medo as mantenha sempre fechadas?

Afinal, às vezes são necessárias apenas algumas palavras de incetivo para reacender uma fagulha de confiança de que o futuro poderá ser maravilhoso, em vez de uma série infindável de obstáculos e decepções. A vida vale sim, muito a pena. 

Minha nota: 10

Obs.: Após o Epílogo, Jojo Moyes escreve sobre suas próprias motivações para escrever essa história, e eu peço encarecidamente que você leia, pois ela vale tanto a pena quanto o livro todo. 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

"Melhor enfrentar a loucura com um plano do que ficar parado e deixar que ela nos alcance aos poucos." - Resenha do livro "Caixa de Pássaros" - Josh Malerman

"Eles vão acabar nos alcançando, disse Don. Não há porque pensar de outra forma. É o fim dos tempos, pessoal. E, se o problema for uma criatura que nossos cérebros não são capazes de entender, merecemos isso. Sempre supus que o fim viria da nossa própria estupidez."

Algo aterrorizante começa timidamente a acontecer em pequenas cidades, e rapidamente toma conta de todo o mundo. Algo que não deve ser visto. Basta uma olhada, e a pessoa é levada a cometer atos de violência mortal. E ninguém sabe o que provoca isso, ou de onde veio tudo isso.

Os cenários que nos deparamos no livro de Josh Malerman são portas sempre trancadas. Cobertores tapam as janelas de todas as casas. A internet não funciona mais, muito menos os telefones e qualquer meio de comunicação. Os sobreviventes não sabem em quem confiar. Não se pode mais sair às ruas sem uma venda nos olhos. Definitivamente há algo do lado de fora. Algo que não pode ser visto, que enlouquece as pessoas e as leva a cometer atos violentos uns contra os outros, seguidos de suicídio. 

Nossa protagonista, Malorie, ao mesmo tempo em que começa a entender as implicações do que está acontecendo no mundo, descobre que está grávida de algumas poucas semanas, e após assistir sua irmã mais nova enlouquecer e se suicidar sem mais nem menos, vê um anúncio no jornal de uma casa muito próxima a sua, que está servindo de abrigo a sobreviventes. 

Malorie resolve se arriscar e ir até o local, e é a partir deste momento que nossa protagonista começa a fazer parte de um grupo liderado por Tom, que acaba por se tornar um grande amigo e aliado, e mais pessoas que não se conheciam antes do fim do mundo, mas se uniram para tentar resistir ao terror oculto, na tentativa de criar certa ordem a partir do caos. 

Rotinas como buscar água potável em um poço de olhos vendados, comer comida enlatada de forma racionada, e viver diariamente presos em uma casa coberta por tabuas e edredons, Malorie e os demais componentes desta história pensam o tempo todo como criar formas de viver e combater o que eles acabam intitulando de "criaturas de outro planeta."

Há momentos de muita agonia durante a leitura, principalmente quando os suprimentos da casa começam a chegar perto da escassez, e os sobreviventes precisam começar a se arriscar do lado de fora da casa, e a confrontar principalmente a questão mais derradeira: em um mundo que  praticamente enlouqueceu, em que se pode confiar? 

Após ter um complicado parto, Malorie cria o Garoto e a Menina, duas crianças que ela prefere não nomear enquanto o mundo vive um verdadeiro apocalipse, e passam a viver abrigados na casa por exatos quatro anos. Logo Malorie aprende a realizar tarefas, e inclusive percorrer distâncias mais longas, sempre às cegas. 

O surgimento de uma misteriosa neblina faz com que ela decida finalmente deixar a casa e embarcar com a família numa arriscada jornada, de olhos vendados, e confiando apenas em sua perspicácia e no ouvido altamente treinado dos filhos. 

Assumo que este é um livro difícil de resenhar, pois qualquer detalhe pode diminuir as surpresas que garanto que os leitores vão encontrar. Apesar de Caixa de Pássaros não ser um thriller perfeito, é um livro fácil de ler. O enredo possui destalhes inconsistentes, acabam sendo mal formulados e pouco convincentes, porém a ideia do mundo pós apocalíptico, onde o sentido da visão pode ser o gatilho para a loucura e morte, me deixou intrigada para chegar ao final.

Pessoas enlouquecendo, matando e se suicidando porque viram algo, é por si só perturbador. Não tenha esperanças de descobrir o que causa tal efeito nas pessoas, pois já adianto que o final pode ser um pouco decepcionante, mas o que chama a atenção nesta obra, é que o leitor é colocado em uma posição onde se sente exatamente como os personagens: vendado. Como lutar contra uma força, criatura ou entidade que você não sabe o que é, nem de onde veio, e não pode abrir os olhos para enfrenta-la? Seriam seres alienígenas, alguma entidade maligna, uma força além de nossa compreensão, ou apenas um caso de histeria coletiva? Especular a causa do caos é inevitável e prepare-se para formular mil teorias do inicio ao fim. 

Falando sobre histeria coletiva, entende-se tal nomenclatura como um distúrbio psicológico em que um grupo de pessoas passa a ter, ao mesmo tempo, um comportamento estranho ou adoecer sem uma causa aparente. Os surtos de histeria coletiva, também conhecida culturalmente como doença psicogênica de massa, são mais frequentes em grupos fechados, como alunos de uma mesma escola ou trabalhadores de uma empresa, embora também acometa uma população em geral. A doença faz com que todos fiquem mais ansiosos e percam o controle sobre atos e emoções, além de turbinar os sentidos, como tato, olfato, paladar e pasmem: visão. 

Independente se o mundo está mesmo acabando, e criaturas malignas estão nos assombrando para acabar com a raça humana, o interessante do livro são os próprios humanos, e como estes seres tão providos de inteligencia sobrevivem e encaram o caos. Ou deveríamos mesmo chamar tudo isso de caos, e não simplesmente como dito acima, um caso de histeria coletiva?

Observando o mundo atual, e o livro retrata o mesmo período que vivemos atualmente, é quase impossível não ter a sensação de que vivemos realmente no caos. No entanto, o que poucos parecem perceber é o que exterior é simplesmente o reflexo, a expressão do estado interior do ser humano. 

Infelizmente, a maioria dos seres humanos se debate tentando administrar o caos, sem conseguir enxergar esta simples verdade. A sociedade alimenta esta inconsciência, pois ela é bastante conveniente para a sua sobrevivência. 

Paradoxalmente, os assim chamados despertos são considerados insanos pelos poderes constituídos. Mas ao contrário disso, são um farol na escuridão, uma fonte de água limpa e cristalina, que pode matar a sede daqueles que buscam a verdade. 

Surge um momento em que a total incapacidade de se lidar com o caos, nos seus mais simples ou complexo aspecto, faz com que a angustia e a infelicidade atinjam um grau insuportável. Podem ocorrer, então, duas possibilidades: o mergulho total na insanidade ou um despertar interior, que nos mobiliza a ir em busca de respostas. 

Malorie decide olhar para dentro de si, enfrentar porões escuros de sua própria interioridade, e esta atitude acaba sendo a única saída para a libertação do caos em que está inserida. 

Ali encontramos a escuridão, mas também a luz, que durante muito tempo julgamos não existir. Não há saída possível sem esta disposição. A fronteira entre o caos e a harmonia, é uma linha tênue que só pode ser cruzada por aqueles que se dispuserem a realizar a caminhada com coragem, determinação, e acima de tudo, confiança. Confiança em acreditar em si próprio, e não na efetividade do caos. 

Caixa de Pássaros é um livro intrigante e tenso. Um ótima pedida para quem se questiona sobre os motivos que levam seres inteligentes a acreditarem em mistérios impossíveis de se desvendar.

Definitivamente é melhor enfrentar a loucura e o caos, do que ficar parado e esperar que ela nos alcance aos poucos. Seja lá o que "ela" possa significar. 

Minha nota: 8,0