quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

"Na vida há coisas muito mais importantes do que vencer". Resenha do livro "A garota que você deixou para trás" - Jojo Moyes

"Cheguei mais perto e examinei meu rosto: As sombras embaixo dos olhos, os leves vincos entre as sobrancelhas. Estremeci, mas não de frio. Pensei na garota que Édouard deixara para trás havia dois anos. Pensei no toque das mãos dele na minha cintura, seus lábios macios no meu pescoço. E fechei os olhos."

Durante a Primeira Guerra Mundial, o jovem pintor francês Édouard Lefévre é obrigado a se separar de sua esposa, Sophie, para lutar no front. Vivendo com os irmãos e os sobrinhos em sua pequena cidade natal, agora ocupada pelos soldados alemães, Sophie apega-se as lembranças do marido admirando um retrato seu pintado por Édouard. Quando o quadro chama a atenção do novo comandante alemão, Sophie arrisca sua reputação e a própria vida na esperança de rever seu marido, agora prisioneiro de guerra. Após esta pequena introdução, assim como Sophie, eu também fechei meus olhos para mergulhar em uma profunda história de aceitação, desencontros e encontros extraordinariamente íntimos.

A primeira parte da história se passa na França em 1916, Primeira Guerra Mundial, mas precisamente no Le Coq Rouge, um hotel comandado pelas irmãs Sophie e Heléne. O restaurante do hotel da família de Sophie é designado a fornecer refeições aos alemães, deixando os franceses a mercê da inanição e desgraça. Mas como tudo na vida, uma oportunidade sempre nos bate a porta quando achamos que não há mais saída para nossa não afortunada vida. O título do livro nada mais é do que o nome do quadro que Édouard pinta de Sophie, o grande catalizador da decisão mais difícil da vida de nossa protagonista. Mas então nos questionamos, porquê Sophie foi deixada para trás? Ou melhor, porquê o quadro foi deixado para trás?

Quase um século depois, na Londres dos anos 2000, a segunda parte do livro conta a história da viúva Liv Halston, que mora sozinha em uma moderna casa com paredes de vidro. Ocupando lugar de destaque em seu quarto, há um retrato de uma belíssima jovem, quadro este que foi presente do seu marido pouco antes de sua prematura morte. É através desta mulher retratada neste quadro, que Liv mantém a chama do passado acesa, ou ao menos, é isso que ela acha que pode manter. Quando Liv finalmente parece disposta a voltar a vida, um encontro inesperado vai revelar o verdadeiro valor daquela pintura, e sua tumultuada trajetória. 

Liv conhece Paul, um advogado divorciado, mas o destino resolve brincar com os dois, quando coloca Paul para defender uma ação de restituição do quadro "A garota que você deixou para trás" à família de Édouard Lefévre. 

Os mistérios desta primorosa obra, giram em torno de alguns questionamentos que só serão respondidos nas últimas páginas que tecem este maravilhoso romance: O que acontece a Sophie quando ela decide literalmente vender sua alma ao diabo? Sophie consegue ter seu merecido reencontro com o marido em meio ao cenário de guerra? Como o quadro de Lefévre viaja por cem anos até chegar as mãos de David, falecido marido de Liv? Liv Halston reencontra a possibilidade de amar em Paul? Ela consegue manter A Garota que você deixou para trás em sua posse?

Caros leitores, chegar as últimas páginas para descobrir as respostas destes questionamentos não chega nem perto do que realmente essa obra quer nos ensinar. Até porque, vamos nos questionar algo que aposto que todos nós já paramos para pensar quando uma oportunidade aparece em nossas vidas: Vencer é o mais importante?

Todo mundo sempre nos diz o que é preciso fazer, mas a verdade é que ninguém será capaz de fazer melhor do que nós mesmos. Criticas, dedos apontados em nossos rostos, feições de desaprovação, medos incalculáveis que nos permeiam antes de tomarmos coragem de seguir aquilo que acreditamos ser apenas uma tentativa.  Quem somos afinal sem os milhares de obstáculos que a vida nos proporciona?

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo. É o arremate de uma história que terminou, externamente, sem nossa concordância, mas que precisa também sair de dentro da gente. 

Os encontros mais importantes já foram combinados pelas almas antes mesmo que os corpos se vejam. E são geralmente estes encontros que acontecem quando chegamos a um limite, quando precisamos morrer e renascer emocionalmente. Os encontros nos esperam, mas a maior parte das vezes evitamos que eles aconteçam. Entretanto, se estamos desesperados, se já não temos mais nada a perder, ou se estamos muito entusiasmados com a vida, então o desconhecido se manisfesta, e nosso universo muda de rumo. 

Todos sabem amar, pois já nasceram com este dom. Algumas pessoas já o praticam naturalmente bem, mas a maioria tem que reaprender, relembrar como se ama, e todos, sem exceção, precisam queimar na fogueira de suas emoções passadas, reviver algumas alegrias e dores, quedas e subidas, até conseguir o fio condutor que existe por detrás de cada novo encontro. 

E este livro nada mais é do que deixar para trás antigas dores, antigos amores, antigos sofrimentos, antigas decisões, antigos medos, antigas desaprovações, antigas desilusões, antigos julgamentos, para somente assim estarmos preparados para nos deixarmos para trás, e viver a mágica da redescoberta do que nossas próprias decisões podem nos proporcionar. 

Sophie e Liv, Cem anos não pôde separar o que deixar para trás significou em suas vidas, e nas vidas daqueles que terminam de ler suas histórias. Para renascer é preciso deixar morrer, e para deixar morrer, é preciso vencer o medo do próprio medo de tentar. 

Encerro dizendo que as perguntas muitas vezes não precisam de todas as respostas. 

Precisamos apenas acreditar que as perguntas podem ter apenas algumas respostas, que nada mais é do que deixar para trás aquilo que um dia possa nos ter feito reviver aquilo que sempre sonhamos em alcançar. 

Que nossas despedidas sejam um eterno reencontro. 

Minha nota: 10

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