quinta-feira, 12 de abril de 2018

"Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber algum amor em troca." - Resenha do Livro "O menino do vagão" - Pam Jenoff

"Que essa ocasião solene faça emergir um mundo melhor, com fé e entendimento, dedicado à dignidade do homem e à satisfação de seu desejo de liberdade, tolerância e justiça." Segunda Guerra Mundial (1939 -1945). 

O menino do vagão é uma história de ficção que se passa em um dos períodos mais sombrios da humanidade, a Segunda Guerra Mundial. Retratado como pano de fundo, nos deparamos capítulo a capítulo com os medos e horrores de uma guerra onde o mundo conheceu e viveu o que há de pior nos seres humanos. Onde a simples diferença de raças servia como pretexto para fuzilar ou jogar pessoas em uma câmara de gás, pessoas essas que eram "eleitas" inferiores por uma classe que se achava acima de tudo e de todos. 

Apesar de contar com uma sinopse até certo ponto dramática e um pouco romantizada, O menino do vagão mergulha de maneira profunda nos sentimentos, e nos faz refletir e sentir na pele o drama, o medo e o pavor que pessoas inocentes eram submetidas pela escolha dos outros. 

O livro de Pam Jenoff conta a história de duas mulheres, Noa e Astrid. Noa é uma jovem holandesa de apenas dezesseis anos, que depois de engravidar de um soldado alemão, é expulsa de casa pelo pai, sem dinheiro e sem nenhuma pessoa com quem ela possa contar. Perdida em uma estação de trem, Noa conhece uma senhora que lhe dá um "bom" conselho. Nossa protagonista é instruída a doar seu bebê ao Reich, já que é branca, loira e tem uma aparência bem parecida com a raça ariana. Noa então pede ajuda a uma instituição alemã que acolhe mães solteiras, as alimenta e cuida durante suas gestações.  Porém no momento de dar a luz ao seu bebê, Noa entra em pânico ao perceber que seu filho não tem olhos claros e nem cabelos loiros. A criança é arrancada de seus braços e literalmente descartada pelas enfermeiras. Assim, sem dinheiro e nenhuma perspectiva, Noa continua na Alemanha limpando banheiros em uma velha estação de trem.

Mas o destino sempre nos reserva uma segunda chance, e é quando em um determinado dia, Noa escuta um barulho vindo de um vagão, e ao abri-lo se depara com muitos bebês, alguns incrivelmente ainda vivos largados em cima de outros bebês já roxos e mortos pela fome e pelo frio. Levada pelo instinto materno, Noa foge com um dos bebês, e percebe durante sua fuga que ele é circuncidado. Em pânico, Noa começa a correr e desmaia devido ao frio intenso com a criança enrolada em seu casaco. Quando ela acorda, ela está deitada em uma cama em um lugar completamente desconhecido. E é  aqui que ela conhece Astrid. 

Astrid foi criada no mundo circense e é de origem judia. Excelente trapezista, foi casada com o soldado Erich, porém tudo desaba quando a guerra é declarada, e seu marido sendo um soldado de Hitler, é obrigado a se divorciar dela por sua origem judaica. Sozinha e sem amparo, Astrid volta para a casa dos pais, que infelizmente se encontram desaparecidos. Em busca de seus paradeiros, ela bate na porta de um antigo dono de um circo rival de seu pai, e para sua surpresa, ele lhe oferece ajuda a empregando como trapezista de seu circo. 

Acontece que Noa desmaia no perímetro onde está instalado o circo que Astrid trabalha, e a mesma recebe a incumbência de se tornar uma trapezista para ajudar na apresentação de sua nova parceira e professora. A condição é essa, se ela quiser abrigo para ela e para o bebê, que inicialmente ela mente dizendo que é seu irmão. No começo, Astrid não enxerga Noa com bons olhos, mas aos poucos as dificuldades que a guerra vai impondo faz com que as duas criem um forte laço de amizade, e as verdades sobre suas vidas e escolhas são colocadas a prova, como ato de confiança que uma pode ser a fortaleza da outra. 

Pam Jenoff conta uma história incrível, nos apresentando o mundo do circo e suas dificuldades durante a Segunda Guerra Mundial. Mesmo sendo julgados pela sociedade da época, o circo ajudava muitos judeus que tentavam se esconder, como era o caso de Astrid que precisava se refugiar toda vez que soldados alemães vinham fazer suas rondas pelo circo. Também vemos como os animais sofreram com a guerra sem alimentos nem para si próprios e nem para os humanos, que acabavam ou emagrecendo demais, ou morrendo. 

Mas o que mais nos toca são os cenários tristes que nossas protagonistas enfrentam, e mesmo perante tantas dificuldades, sempre havia espaço para o amor. Sim, o amor. Ambas conseguem amar de novo e confiar de novo, e é aqui que mora toda a beleza desta dramática história. Sim, se prepare para ficar boquiabertos em alguns momentos de sua leitura, e derramar algumas boas e pesadas lágrimas. 

O menino do vagão é um livro tenso e dramático, que lembra muito os livros sobre guerra da autora Kristian Hannah. Apesar de se passar em um cenário pesado e triste, a autora nos entrega uma escrita cadenciada, com capítulos que fluem muito naturalmente para conhecermos cada ponto de sua história, tornando quase impossível nos cansarmos deste livro. Durante toda sua narrativa, somos surpreendidos com revelações que vão se completando e aliviando um pouco o ar sombrio da vida de segredos de cada personagem em meio a guerra, fazendo com que o leitor se aproxime cada vez mais de cada um destes incríveis personagens. 

O desfecho desta obra é bastante improvável, e quase não conseguimos estar preparados para os acontecimentos que seguem a etapa final, nos deixando em estado de profunda reflexão. 

Mas sem entregar o final desta bela história, eu gostaria de falar sobre salvação.

Salvar é continuar a acreditar no outro, mesmo sabendo que alguns valores muito estranhos permeiam pelo mundo. Salvar é continuar otimista mesmo sabendo que o futuro que nos espera nem sempre é tão alegre. Salvar é continuar com vontade de viver, mesmo sabendo que a vida é em muitos momentos uma difícil lição de ser aprendida. Salvar é permanecer com vontade de ter grandes amigos, mesmo sabendo que com as voltas que o mundo dá, eles vão indo embora das nossas vidas. Salvar é realmente ter a vontade de ajudar as pessoas, mesmo sabendo que muitas delas são incapazes de sentir, entender ou utilizar a sua ajuda. Salvar é manter o equilíbrio, mesmo sabendo que muitas coisas que vemos no mundo nos escurecem os olhos. Salvar é ter garra, mesmo sabendo que a derrota e a perda são ingredientes tão fortes quanto o sucesso e a alegria. Salvar é atender a nossa intuição, que sinaliza sempre o que há de mais autêntico em nós mesmos. Salvar é praticar o sentimento de justiça, manifestar amor por nossa família. Salvar é acima de tudo lembrar que todos nós fazemos parte desta maravilhosa teia chamada vida, e que as grandes mudanças não ocorrem por grandes feitos de alguns, e sim, nas pequenas parcelas cotidianas de nós todos. 

Noa e Astrid nos dão uma bela lição do que significa salvar colocando o que todos nós temos de melhor para oferecer a nós mesmos e aos outros ao nosso redor: o amor.

"Nós, pessoas do circo, não vemos nenhuma diferença entre raças ou religiões."

Minha nota: 10 com louvor. 

Ecos da Segunda Guerra Mundial:

"Meglio vivere un giorno da leoni che cento anni da pecore." (Melhor viver um dia de leão, do que cem anos de cordeiro) - Benito Mussolini

"Vocês se arrependerão por terem sido tão amáveis"  Adolf Hitler, a seus generais, poucos dias antes do fim. 

"Isso não é o fim, não é nem o começo do fim, mas talvez seja o fim do começo." - W. Churchill, após vitória dos aliados na África. 

segunda-feira, 12 de março de 2018

“Às vezes não somos nós que estamos no leme, e não podemos fazer mais do que confiar que tudo vai dar certo" - Resenha do livro "Baía da Esperança" - Jojo Moyes

"A esperança não murcha, ela não cansa, também como ela não sucumbe a crença, vão-se sonhos nas asas da descrença, voltam sonham nas asas da esperança."

É com essa premissa que escrevo sobre a nova obra de Jojo Moyes, Baiá da Esperança, que já inicia em seus primeiros capítulos a apresentação de um lugar mágico nos confins da Austrália, repleta de belezas naturais, e com habitantes cativantes que fazem de Silver Bay um verdadeiro paraíso. 

Conhecemos logo de cara Kathleen, uma senhora que administra um hotel que outrora já conhecera muito luxo e glória. Ela é famosa por ter pescado o maior tubarão de todos os tempos quando era pequena, mas atualmente dedica seus dias a administrar sua hoje precária e pouco procurada pousada. Alguns capítulos depois, conhecemos sua sobrinha Liza, uma mulher séria, fechada e que passou por um grande trauma em sua vida. Liza dedica seus dias a trabalhar em um barco levando turistas para observar baleias e golfinhos, e é a mãe de Hannah, uma garotinha inteligente e perspicaz, que adora o mar, mas que estranhamente não pode se aventurar nele, já que sua mãe não permite tal feito. Todas moram no hotel de Kathleen e vivem do que a baía basicamente oferece. 

Depois de acompanharmos a rotina destas três gerações tão diferentes de mulheres, somos apresentados a Mike, um empreendedor que vive em Londres, e que está prestes a se casar com a filha de seu ambicioso chefe. Mike é enviado a Baía da Esperança para avaliar o local, a fim de construir um grande e imponente resort de luxo no lugar. 

É desta forma que a vida desses quatro personagens se cruzam, quando Mike se hospeda na pousada de Kathleen, e lá conhece vários habitantes da ilha, seus trabalhos e o amor incondicional que sentem por aquele lugar, sua flora e fauna, e claro, suas baleias. 

A narrativa é feita sob o ponto de vista dos personagens principais: Hannah, Kathleen, Liza, Mike e alguns personagens secundários, numa espécie de mosaico de vivências e sentimentos, que vão construindo a história e oferecendo ao leitor uma perspectiva ampla dos fatos. O ponto alto desta obra são os personagens, muito bem construídos individualmente. 

Conforme vamos conhecendo de maneira mais profunda cada um deles, Mike se sente cada vez mais próximo de tudo o que vê, e a razão pela qual ele veio parar naquele lugar, começa e a se tornar cada vez mais secundária. Contudo, os habitantes da ilha descobrem que um resort está prestes a ser construído, colocando em risco a vida das baleias, e principalmente, que Mike está envolvido nisso tudo. 

Capítulo a capítulo vamos percebendo que Mike começa a pensar em tudo que está fazendo e como isso afetará a população e os animais marinhos. Ele acaba se aproximando muito de Liza e sua filha, e Kathleen é a personagem que se torna mais amiga de nosso possível anti herói. Então o dilema está instalado: O que é mais importante? Ganhar uma promoção no trabalho por causa da construção de um super empreendimento, ou defender essa cidadezinha tão pequena mas ao mesmo tempo tão especial?

A ambição é uma caraterística exclusiva do ser humano. Só o ser humano tem o desejo intrínseco de poder. Os animais lutam quando estão em risco de vida, mas os humanos lutam por razões muito menos categóricas. A razão fez o homem perceber que se for mais forte que o outro terá poder sobre ele. E da mesma forma que a "lei da selva" na natureza determina que o mais forte vence sempre, também na subentendida lei da competição, da concorrência ou do desejo permanente de poder, o mais forte vence sempre o mais fraco. A diferença existente entre a lei da selva natural e a "lei da selva humana", é que na primeira existe apenas uma força, bruta e natural, enquanto que na segunda existem forças que nem sempre são claras e objetivas. Entre os animais as regras são claras e definidas de uma forma só mutável pela evolução natural das espécies. Entre os homens as regras são permanentemente mutáveis e muitas vezes obscuramente definidas. As mais diversas estratégias são usadas para conseguir o mesmo objetivo, cada um conforme as suas diversificadas, naturais, adquiridas e artificiais capacidades. 

A inteligência humana, ou apenas a sua esperteza, transformou o homem, retirando-o da natureza e modelando-o de uma forma artificial, em direção por um lado a perfeição sublime, e por outro, a existência trafico - cômica. De fato, o homem não é um animal, ou é um "animal superior", mas quando comparado com todos os outros animais, apresenta diferenças que foram originadas na sua linguagem, devido ao seu cérebro superior, que por um lado são extraordinárias, como a capacidade de criação, de adaptação, de imaginação, de compreensão, mas por outro lado são muito desmotivantes. O homem é o único animal que tem tabus, é o único animal que mata sem necessidade, que engana, que mente, e que infelizmente mascara suas ações.

E a ambição é um dos defeitos do ser humano, por ser a principal causadora de atos de baixo nível, que levam a indecência, a desonra, a desonestidade, a infâmia, a ignorância, a falta de respeito, de caráter e de orgulho, que o diminuem para além dos próprios animais irracionais.

E se é certo que a ambição também contribui para o desenvolvimento humano, considerando que os ambiciosos são os que não tem quaisquer escrúpulos para ultrapassarem qualquer tipo de barreiras, não será menos certo que a vida de muitos seres humanos foi e continua a ser insuportável devido a exagerada ambição de outros.

Será também, desta forma, a ambição, uma prova de que existe uma espécie de dualismo na evolução humana, no sentido de que para existir o bom tem que existir o mal, pressupondo que a evolução humana partiu do animal não no sentido ascendente, mas num sentido alargado, tornando-se por um lado superior, por outro lado inferior ao próprio animal.

Mas nem de total ambição vive o homem. Quando ele percebe que está exagerando ou mesmo errando, vem o sentimento de esperança de que ele pode mudar, pode fazer diferente e melhor. E é este impasse que Mike e os demais personagens vivem capítulo pós capítulo, outrora ambiciosos ou medrosos até demais, nossos queridos personagens começam a perceber que precisam mudar, não só pelos outros ao seu redor, mas por eles mesmos. E então nasce a jornada da esperança, e é nela que foca o livro.

A esperança é o combustível da vida, a forma de mantê-la viva é não prender os olhos nas tragédias, pois a cada desgraça que contemplamos corremos o risco de perdê-lo. Existe na mitologia grega a presença de uma figura interessante: uma ave chamada fênix, que quando morria entrava em autocombustão e passado algum tempo depois, renascia das próprias cinzas. A fênix, o mais belo de todos os animais fabulosos, simboliza a esperança e a continuidade da vida após a morte. Revestida de penas vermelhas e douradas, as cores do sol nascente, possuía uma voz melodiosa que se tornava triste quando a morte se aproximava.

A impressão causada em outros animais por sua beleza e tristeza chegava a lhes provocar a morte. Nossa vida passa por este processo várias vezes em um único dia, ou seja, sair das tragédias para contemplar a beleza que não morreu, a vida que existe ainda, como fazia essa ave mitológica. Alguns historiadores dizem que o que traria a fênix de volta a vida, seria somente o seu desejo de continuar viva.  O desejo de continuar a viver era sua paixão pela beleza, que é a vida.

A medida que perdermos ilusões e incompreensões, temos o espaço real no qual pode crescer a esperança, que nada mais é do que a certeza de que tudo pode ser melhor do que o que já vemos e vivemos.

O homem pode ser resistente as palavras, forte nas argumentações, mas não sobrevive sem esperança.

Ninguém vive se não espera por algo bom, que seja melhor do que o que já acontece, já possui ou já experimentou. É o desejo de caminhar no caminho certo.

Agora resta apenas saber se Kathleen, Liza, Hannah e Mike optaram no final por trilhar este certeiro caminho.

Minha nota: 8.5

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

"São as palavras e as fórmulas, mais do que a razão, que criam a maioria de nossos julgamentos." - Resenha do livro "Em busca de abrigo" - Jojo Moyes

Definitivamente Jojo Moyes está entre minhas autoras favoritas, mas nem eu sabia que Em Busca de Abrigo foi seu primeiro livro publicado. Por já ter lido algumas de suas obras, confesso que é notável como sua escrita e criatividade evoluiu. Embora a história, quanto a construção das personagens tenha me agradado, seria mentira dizer que foi uma leitura frenética, dessas que não conseguimos desgrudar do livro. Na realidade, demorei bastante tempo para concluir a leitura, porque encontrei nela algumas dificuldades, que se deu em certos momentos de forma bastante lenta e monótona. Contudo, os últimos capítulos ganham um novo ritmo de forma que me senti mais envolvida pela história em suas últimas páginas. 

Em seu livro de estreia, conhecemos três mulheres da mesma família e de gerações diferentes. A primeira personagem a nos ser apresentada é Joy nos anos 1953 na noite de coroação da Rainha Elizabeth II. Joy está reunida com a comunidade de expatriados de Hong Kong, em uma festa para celebrar o acontecimento da coroação e acompanhar a cerimônia. Ou pelo menos, tentar.

Joy para inicio de conversa, não queria estar ali. Aos 21 anos, ela não é como as outras mulheres da sua idade, que sonham  em se casar e usar vestidos extravagantes. Joy odeia reuniões de alta sociedade e não suporta o fato de ser tão alta que precisa olhar para baixo ao falar com qualquer pessoa da cidade. Acontece que aparentemente não só Joy parece não estar interessado na cerimônia. E este alguém digamos de passagem, se torna seu futuro marido no dia seguinte. Sim, no dia seguinte. 

Depois de conhecer Joy, somos transportados para mais de 20 anos depois, e conhecemos Kate, uma garota de 18 anos que foge do Condado de Wexford na Irlanda com uma filha. E então, 15 anos mais tarde, conhecemos Sabine, que está a caminho de Wexford para passar um tempo com a avó que nunca conheceu. Entendemos enfim que Sabine é filha de Kate, que é filha de Joy. Conhecemos então a família Ballantyne. 

Capítulo a capítulo acompanhamos três histórias diferentes, que juntas são a história de uma família. O que resta saber é se essas três mulheres que tem seus segredos e personalidades diferentes conseguirão se relacionar como uma família. Coisa que elas nunca fizeram questão de fazer antes. 

Joy que ama mais seus cavalos e seus cachorros de caça do que ela própria, tem uma personalidade bem difícil de lidar, apesar de ser uma mulher extremamente forte e destemida. Kate em contrapartida ama sua filha incondicionalmente, mas parece em um primeiro momento uma mulher muito carente e insegura, que vive pulando de relacionamento em relacionamento, deixando Sabine sempre confusa e sem entender o verdadeiro conceito de família. A adolescente por sua vez, critica constantemente as atitudes de sua mãe e de sua avó, não compreendendo porque uma parece não ter amadurecido, e o porque a outra ser tão rígida, reclusa e fechada em seu universo paralelo. 

Kate vê um abismo enorme e crescente entre ela e Sabine. Às vésperas de fazer uma jornada de volta a Irlanda para ver seus pais e resgatar seu passado, Kate se pergunta como elas chegaram a essa situação, e o que ela pode fazer para mãe e filha se reconectarem. 

Para Joy, ver sua neta é a realização de um sonho. Após uma dolorosa separação de sua filha Kate, ela aguarda ansiosamente a chegada de Sabine. Porém após a chegada da neta, a conexão que ela esperava não acontece, diminuindo desta forma seu grande entusiasmo. 

E quando o impetuoso temperamento de Sabine força Joy a encarar fantasmas do passado, ela percebe que talvez seja a hora de fechar antigas feridas.

O interessante é que conforme vamos tomando conhecimento sobre as histórias destas três mulheres, percebemos que a vida tem uma maneira engraçada de se repetir. Elas na verdade não são tão diferentes assim. Cada uma carrega na verdade um pouco da outra, e o que bastava para se tornarem de verdade uma família era a capacidade de compreenderem seus passados, e o porque muitas vezes usamos artifícios para gritar ao mundo qual realmente é a nossa dor.

O livro não apenas te envolve com estas três personagens, como te faz entender vários pontos de vista da mesma história. Muitas vezes me peguei confusa por não conseguir optar por um lado, já que todos os sentimentos de cada personagem fazem sentido. Mesmo que sejam inadequados algumas horas, são sempre compreensíveis e humanos.

Joy, Kate e Sabine nos mostram que relacionamentos são complexos, e que as pessoas não são simplesmente boas ou más, e que muitas vezes tentam fazer o seu melhor e acabam sendo incompreendidas. Por terem medo, desistem e optam por esconderem seus sentimentos dentro de uma carapuça falsa. E o que basta para esse jogo virar é algo muito simples de se fazer: ouvir e tentar entender atitudes que até então achamos imperdoáveis.

Por mais razões que supostamente se tenha em relação a outras pessoas, por mais que elas estejam em dificuldade ou inseridos em erros, a grande lição é: evite julgar. Ninguém tem informações suficientes para fazer um excelente veredito e colocar-se acima dos fatos e da verdade. Quando se julga alguém, normalmente nos baseamos em nossas réguas, e nem sempre elas estão alinhadas em um nível superior para saber o que é o melhor, o que é o certo e o que é o errado.

Neste comportamento ainda geramos uma energia que não nos é nada positiva. No lugar de julgar, talvez seja mais prudente oferecer uma ajuda ou um apoio. Defeitos são parte integrante das pessoas, o que é defeito aos olhos de um, pode não ser defeito aos olhos do outro. O que é veneno para um, pode ser remédio para outro. Julgar é tirar os olhos de nós mesmos, esquecer daquilo que realmente somos, e também dos erros que inserimos em nossas vidas.

Entre um erro e outro, algumas pessoas se encontram, entre um erro e outro se reconhece aliados, entre um erro e outro ficamos diante de nossa verdade ou de nossa mentira. Assim é o caminho de quem erra, mas pior é o caminho de quem julga, pois se coloca acima de todos esses erros.

O que esta obra quer nos ensinar é que quando perceber que está julgando alguém, tente inverter os polos, transforme este julgamento em disponibilidade de prestar um auxílio dentro de suas possibilidades.

Ao final, ao mesmo tempo em que me emocionei com algumas conclusões e aprovei o modo como as três acharam de se entender, também fiquei com uma sensação de algo ter ficado incompleto. Alguns conflitos foram resolvidos sem que houvesse uma conversa suficiente para isso, ou até mesmo que outros pontos acabaram permanecendo em aberto.

No final, tudo se resume a uma história de três gerações de mulheres frente as verdades fundamentais do amor, dever e o inquebrável elo que une mães e filhas.

Deixo aqui uma frase que para mim resume basicamente do que o livro se trata, e deixo para vocês refletirem, como eu refleti ao terminar a leitura, o que de fato significa família:

"A família é como um barco no mar tempestuoso deste mundo. Quando todos remam juntos, com amor e compreensão, ela sempre chega ao cais da felicidade."

Minha nota: 5,0

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

“Que o destino ache bonito nós dois juntos e o amor goste de ficar entre nós. Ou não” – Resenha do livro “Nós”: David Nicholls

O que aconteceria se um dia você acordasse ao lado de sua esposa, e ela simplesmente te dissesse que não quer mais estar casada com você?

É desta forma que "Nós" de David Nicholls inicia. 

Douglas Peterson, um bioquímico de 54 anos, totalmente apaixonado por sua profissão, por organização e limpeza, é acordado por Connie, sua esposa há 25 anos, quando ela lhe diz que quer o divórcio. O momento não poderia ser pior. Com o objetivo de estimular os talentos artísticos do filho, Albie, que acabou de entrar na faculdade de fotografia, Connie planejou uma viagem de um mês pela Europa, uma chance de conhecerem em família as grandes obras de arte do continente. 

Connie imagina que não seria o caso de desistirem da viagem por conta de sua repentina vontade de não estar mais casada com o seu marido, e Douglas secretamente acredita que estas férias vão reacender o romance dos dois, e quem sabe também fortalecer os laços entre ele e seu filho, que digamos de passagem, não é lá muito bom. 

A esperança é o mote que caminha lado a lado conforme os capítulos vão se desenrolando, em uma história totalmente narrada pelo nosso protagonista Douglas, onde acompanhamos página por página como o romance entre ele e Connie começou, entendendo desde o princípio a complexidade do sentimento amor. 

Douglas e Connie se conheceram em um jantar promovido pela irmã do nosso protagonista, e por ser completamente anti social, Douglas honestamente nem queria estar ali. A princípio quando colocou seus olhos em Connie, ele não achou a moça nem um pouco interessante, mas depois de algumas conversas, eles foram ficando cada vez mais próximos. Logo estavam passando mais e mais tempo juntos, e descobrindo que as diferenças podem sim ser um alavanca para uma bonita história de construção do sentimento mais cobiçado do mundo, o amor. 

O inicio de suas histórias foi um tanto quanto estranha: ela uma artista, popular e liberal, enquanto ele um bioquímico centrado e acuado, somaram estas diferenças para resultar em um casamento precoce, mas cheio de empolgação por parte dos dois, visto que ambos começaram a ter contato com vidas totalmente opostas a que estavam acostumados a ter. 

Nos primeiros anos de um casamento repleto de descobrimentos, Connie e Douglas engravidaram e tiveram uma menina, que não resistiu e morreu logo após o nascimento. É neste momento que acontece a primeira grande crise do casal. Acompanhamos de perto a luz de Connie sendo apagada pela dor de uma perda tão significativa, mas também acompanhamos Douglas sendo a melhor pessoa que ele poderia ser, mesmo sofrendo tão igualmente a sua mulher.

Como sempre após a escuridão, vem o pote de ouro no final do arco íris, e Albie nasce, para que desta forma eles pudessem viver plenamente felizes...Ou não...

Para infelicidade de Douglas, Albie é exatamente como a sua mulher, uma pessoa com espírito livre, visão artística e nem um pouco interessado em números e métodos de organização. Como boa relação familiar, muitos conflitos acontecem entre Albie e seu pai, com Douglas sempre saindo com o papel de vilão no final. 

Todo o livro acontece durante a viagem dos três a Europa, e enquanto acompanhamos o itinerário construído em minucias por Douglas cair por água baixo por constantes brigas entre a família, e a decisão repentina de Albie em continuar a viagem sozinho, deixando Douglas e Connie completamente a deriva.

Seguindo as pistas para descobrir o paradeiro do filho, nosso protagonista cruza Alemanha, Itália e Espanha. Durante esta verdadeira saga, somos levados as lembranças do início do casamento, as conquistas e a solidificação de uma família. Um estrutura de capítulos curtos e textos objetivos, que tem como intenção nos revelar até que ponto a esperança pode nos levar, e que portas ela pode abrir.

Não há nada de muito inédito ou espetacular, mas a visão aguda de David Nicholls para os dramas cotidianos é o que torna o romance especialmente envolvente. "Nós" se revela uma leitura prazerosa, mas totalmente esquecível. Romance de viagem tragicômico, sobre um protagonista em crise de meia idade. O bom humor é um ponto positivo na obra, que traz leveza a um livro que surpreende no final por um desfecho não esperado em romances de prateleira.

Mas a lição que o livro quer nos passar é que o amor é o caminho que nos leva a esperança. E esta não é uma espécie de consolação, enquanto se esperam dias melhores. Nem é sobretudo expectativa do que virá. Esperar não significa projetar-se em um futuro hipotético, mas saber colher o invisível no visível, o inaudível no audível.

Descobrir uma dimensão outra dentro e além desta realidade concreta que nos é dada como presente. Sim, nem tudo que vem em formato negativo, de verdade é ruim. Todos os nossos sentidos são implicados a acolher, com espanto e sobressalto, a promessa que vem, não apenas num tempo indefinido futuro, mas já hoje, a cada momento. A esperança nos mantém vivos. Não nos permite viver macerados pelo desânimo, absorvidos pela desilusão, derrubados pelas forças da negatividade. Compreender que a esperança floresce no instante é experimentar o perfume do novo.

Através do olhar esperançoso de Douglas, entendemos que absolutamente tudo é um presente, por mais que em determinado momento não é possível enxergar desta forma.

Dizem que quando uma porta se fecha, uma janela sempre se abre, e acho que depois de ler este livro, finalmente compreendemos que esta premissa é sim totalmente verdadeira.

Minha nota: 6,5

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

"Quanto tempo você esperaria pelo amor da sua vida?" - Resenha do livro "O Navio das Noivas" - Jojo Moyes

Jojo Moyes já declarou algumas vezes que gosta de criar personagens femininas fortes, mas foi durante uma despretensiosa conversa com a sua avó, que ela teve a inspiração para escrever O Navio das Noivas. A autora já era adulta quando descobriu a travessia que a avó australiana encarou para encontrar o marido após a Segunda Guerra Mundial. 

A partir desse bate papo, Jojo começou a imaginar um livro que falasse sobre a viagem dessas mulheres, que corajosamente embarcaram em um porta - aviões para rever os seus amores. Betty Mckee, avó de Jojo, tinha 22 anos quando decidiu abandonar a Austrália para reencontrar o namorado Eric, um oficial da Marina Escocesa com quem tinha convivido por apenas duas semanas. Betty viajou por quase dois meses com mais de 600 mulheres, que dividiam com ela o mesmo sonho: retomar a vida e encontrar os soldados por quem haviam se apaixonado antes do fim do conflito.
 

Com o relato da avó na cabeça, Jojo pesquisou o nome do navio (HMS Victorious), mas não conseguiu encontrar nada. Alguns dias depois, mesmo achando que talvez a avó estivesse equivocada, Jojo descobriu um livro sobre a embarcação e assim a trama de O Navio das Noivas começou a tomar forma. 

A autora deu início então a uma grande pesquisa. Coletou jornais de época que noticiaram a partida dessas mulheres, leu diários de bordo das viajantes, passou horas dentro da Biblioteca Nacional Inglesa e visitou o Imperiam War Museum, museu em Londres que reúne memórias da guerra. Assim surgiu a obra que vamos falar nesta resenha, originalmente publicada em 2005. 

O livro reúne as citações não ficcionais das esposas e dos oficiais que inspiraram Jojo a contar a história de quatro personagens fictícias que tiveram a mesma coragem de sua avó em 1946. O Navio das Noivas é um emocionante romance sobre o amor nos tempos de guerra. 

Em 1946, após o término da segunda guerra mundial, a Marina Real finalizou a etapa do repatriamento das esposas de guerra, aquelas mulheres e meninas que haviam se casado com oficiais ingleses em serviço no exterior, e que os tinham visto apenas algumas vezes, o suficiente para se apaixonarem perdidamente e idealizarem um futuro romântico juntos. 

A maioria dessas esposas deixadas para trás seguiram para o seu novo destino em navios de transporte de tropas, que foram transformados em cruzeiros de luxo para atenderem às suas necessidades femininas. No entanto, cerca de 655 australianas fizeram essa travessia a bordo do porta-aviões HMS Victoria. E é exatamente sobre este Navio e estas mulheres que o livro trata. 

Elas tiveram a companhia de mais de mil e cem homens, além de dezenove aviões, em uma viagem que durou aproximadamente seis semanas. Para comportar a nova tripulação, modificações foram feitas na embarcação que se encontrava decrépita. Os antigos elevadores foram transformados em novos dormitórios onde beliches foram instalados e um salão de beleza construído. Além disso, diariamente eram oferecidos cursos de pintura, corte e costura. Filmes eram transmitidos em um cinema improvisado e o capelão do local ministrava palestras ensinando àquelas mulheres como serem boas companheiras para os seus esposos. 

A histeria coletiva iniciou no momento em que elas embarcaram no Victoria. Enquanto umas demonstravam extrema felicidade, outras caíam aos prantos se dizendo estarem arrependidas. Quem afinal lhes garantiria uma vida plena e feliz assim que pisassem na Inglaterra?

Margaret era uma delas. Grávida e quase dando à luz, não se conformava de ter deixado o pai sozinho com os irmãos mais novos, sendo que morria de medo de ser mal recebida pela sogra, que não a conhecia. Para amenizar seu sofrimento, ela cometeu uma irregularidade muito grave ao levar a sua cachorrinha consigo. Tendo que lidar com as suas mudanças de temperamento em razão dos hormônios a flor da pele, o excesso de peso devido a gravidez e o estranhamento sentido em relação a si mesma, Margaret terá muito tempo para repensar acerca da gravidez, enquanto faz de tudo para deixar a sua cadelinha escondida e a salvo dentro do navio. 

Jean, por sua vez, está realizada. Finalmente livre das guarras da mãe, se sente muito a vontade em meio a tantos homens e não resiste em cantá-los o tempo todo, quando a sua pouca idade e postura sedutora em demasia a coloca em extremo risco. 

Avice está horrorizada com o cenário à sua frente. Vinda de uma família nobre, jurava que viajaria em um dos cruzeiros de luxo, e fez questão de levar todos os seus sapatos novos para causar inveja nas demais. Quando se viu presa em uma minúscula cabine com outras três caipiras e uma cachorra, enlouqueceu. Mas é claro que Avice não deixaria transparecer sua desgraça aos seus pais, a quem escrevia com frequência inventando mil mentiras sobre a sua "maravilhosa" estadia em alto mar. Para quem estava com um futuro traçado na ponta do lápis, Avice tem seu tapete arrancado debaixo de seus pés, e é uma das que terá o maior aprendizado nesta literalmente viagem da vida. 

Já Frances, esconde um grande segredo por trás de seu comportamento ilibado e reservado. Findada a guerra, estava indo para a Inglaterra em busca de um novo emprego, como enfermeira, e carrega na bagagem uma vasta experiência por conta dos campos de batalha. Mal sabia ela que o maior desafio que iria enfrentar seria ali, naquele navio, e que para recomeçar, teria que de uma vez por todas fazer as pazes com o seu passado. 

Narrado em terceira pessoa, O Navio das Noivas começa com um prólogo interessante, em que conhecemos uma senhora que está viajando nos dias atuais com a neta pela Índia, e em um dos passeios, se depara com a carcaça do Victoria e passa muito mal. É a partir deste incidente que a história é contada e mergulhamos no ano de 1946 e somos apresentados a Margaret, Jean, Avice e Frances. 

Durante a leitura acompanhamos a rotina e o funcionamento do Victoria, bem como tomamos conhecimento sobre a sua trajetória, ganhos e perdas. A sensação é que também estamos a bordo, sentindo o calor escorrendo pelo corpo devido as altas temperaturas relatadas, ouvindo as incessantes instruções e anúncios no alto-falante, operando os gigantes motores na sala de máquinas e curtindo noites de bebedeiras e pôquer nas cabines dos subalternos. 

Outro ponto interessante de atenção é o relacionamento que vai sendo construído entre os homens e as mulheres, que são obrigados a dividir o pequeno espaço do navio por muitas semanas. De inicio, as jovens senhoras eram vistas com olhos de preconceito, como objetos e cargas a serem transportadas. É nítido como elas são inferiorizadas, ridicularizadas e não levadas a sério, apenas por terem nascido com o sexo feminino. 

Enquanto eu rumava para o final do livro, consegui identificar afinal quem era a protagonista da história, a senhora do começo do livro que entra em choque na Índia ao ver um destroço do navio, e tudo vai se encaixando de uma maneira muito simples, porém extremamente carregada de sentimentos. O Navio das Noivas nos mostra, de maneira muito delicada, profunda e inteligente, o quanto as guerras são capazes de transformar pessoas, para o bem e para o mal, deixando muitas ocas por dentro, sem rumo e sem esperanças. 

Mas, mas do que isso, o livro fala exatamente sobre esperança. 

A esperança corresponde à aspiração de felicidade existente no coração de cada pessoa. Interessante observar que quem perde a esperança mais profunda perde o sentida de sua vida. A esperança é a vacina contra o desânimo e contra a possibilidade de invasão do egoísmo, porque apoiados nela nos dedicamos a construção de um mundo melhor. A esperança é o combustível da vida. Ninguém vive se não espera por algo bom, que seja bem melhor do que o que já conhece, já possui ou já experimentou. 

Verdade seja dita, nenhum de nós sabe como será o dia de amanhã, mas talvez aí esteja afinal a beleza da vida. Em se sonhar com o desconhecido e dar o melhor de nós para tal. Essa é a lição que Jojo nos passa de uma forma belíssima através de quatro mulheres fortes e presas a esperança de dias melhores. 

Que não nos falte esperanças, e força suficiente para encarar o desconhecido, e desta forma tornar os nossos sonhos em realidade. 

Minha nota: 8,5




sexta-feira, 5 de maio de 2017

"Pode-se enganar a todos por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar a todos todo o tempo." - Resenha do livro "O segredo do meu marido" - Liane Moriarty

"...Ela virou o envelope. Estava lacrado com um pedaço de fita adesiva amarelada. Quando a carta tinha sido escrita? Parecia velha, como se tivesse sido anos antes, mas não havia como saber ao certo. Imagina que seu marido tenha lhe escrito uma carta que deve ser aberta apenas quando ele morrer. Imagine também que essa carta revela seu pior e mais profundo segredo - algo com o potencial de destruir não apenas a vida que vocês construíram juntos, mas também a de outras pessoas. Imagine, então, que você encontra essa carta enquanto seu marido ainda está bem vivo..."

Comecei a ler "O segredo do meu marido" pensando que, apesar de se afastar um pouco dos meus romances habituais, seria uma outra história banal sobre mentiras, e nada muito surpreendente. Não poderia estar mais enganada. A obra de Liane Moriarty se mostrou ser um verdadeiro suspense, revelando a cada capítulo um nova trama perturbadora, tecendo um final um tanto quanto chocante e inesperado.

A história começa nos apresentando Cecilia e seus dramas familiares. A principio o leitor fica um pouco aturdido com a quantidade de informações aparentemente irrelevantes que a autora joga na narrativa, mas tudo faz completo sentido conforme a história vai revelando seu verdadeiro pano de fundo. Liane descreve quase de maneira exata como funciona nossa cabeça naqueles momentos em que nem estamos muito preocupados em pensar. Parece que tudo faz parte de seu plano de mostrar que as personagens do livro são de fato banais. Mães de família, esposas dedicadas, mulheres comuns vivendo vidas extremamente monótonas e "sem sal".

Cecilia sempre deu tudo de si para suas três filhas e seu marido. É uma mulher dedicada ao seu trabalho como vendedora de Tupperware, e ganha muito bem trabalhando com isso, obrigada. É super ativa nas questões da sociedade e completamente apaixonada pelo seu marido. Cecilia vive uma vida de propaganda de margarina.

Após conhecer Cecilia e sua vida exemplar, nos deparamos com Tess, uma mulher que nunca pensou que havia nada de errado em seu casamento, e jurava que era super feliz com seu marido Will e seu filho Liam, convivendo pessoalmente e profissionalmente com sua prima e melhor amiga Felicity, uma ex obesa que deu uma guinada na vida emagrecendo tanto que ficou parecida com uma modelo de passarela. Um belo dia, Tess descobre que sua prima e seu marido se apaixonaram, e estão pensando seriamente em seguir uma vida a dois sem Tess e Liam presentes para atrapalha-los.

Quando estamos começando a entender a dinâmica da vida de Tess, e seu derradeiro acontecimento de traição dupla, somos apresentados a Rachel, uma mulher de meia idade, que vive sozinha e trabalha alguns dias da semana em uma escola católica na Austrália. Rachel acaba de descobrir que seu filho e sua esposa Lauren irão se mudar para Nova York, e levar seu pequeno e amado neto na bagagem, deixando Rachel literalmente abandonada, visto que ela tenta superar a mais de 20 anos o falecimento precoce de sua filha Janie, que foi morta ainda quando adolescente, e a polícia local nunca conseguiu descobrir a identidade de seu assassino.

A história muda quando Cecilia sem querer, encontra a carta escrita por seu marido, que promete entrelaçar de uma maneira tensa e irreversível a história destas três mulheres.

O segredo de meu marido é como uma árvore. No topo você se depara com várias informações sendo apresentadas sem muita conexão - muitos nomes, personagens, histórias e eventos cotidianos. Ao longo da história essas informações vão se juntando até enraizar de vez uma narrativa que entrega um final justo e fantástico. Um livro que tem tudo para ser clichê, mas que se torna uma agradável surpresa ao final.

O livro te faz refletir sobre valores, ética e moral. Até que ponto uma mentira pode definir a vida de outras pessoas, e como devemos agir quando essas mentiras são colocadas em prova, e podem novamente mudar a vida de muitas pessoas?

Aos santos do pau oco, aos abnegados de todas as religiões, aos probos e moralistas de plantão, principalmente os que se vestem de puros e éticos, em codinomes criativos nos conflitos inúteis nas redes e nos fóruns de discussão virtual, tenho uma má noticia para compartilhar com vocês: Enganar, fraudar e mentir são uma forma evolutiva de sobrevivência. Porém quando cultivamos, cometemos e escondemos uma mentira, isso traz um efeito devastador sobre nossas vidas.

O pecado vira um segredo, que como consequência vira uma mentira, e este conjunto de substantivos passam a trabalhar o tempo todo contra nós, e nos fazem absurdamente mal. Muitos se fecham em copa, e não falam com absolutamente ninguém sobre seus segredos, e esta, acreditem, é a solução encontrada por muitos para tentar em vão colocar uma pedra em cima de seus pecados, mas sabemos que quanto mais tentamos escondê-los, mas complicada fica a situação para nós. É como se a vida fosse nos colocando obstáculos, para que nosso segredo não se mantenha tão em segredo assim.

Não sou muito fã da Bíblia, mas existe uma passagem que diz "Aquele que tenta esconder seus pecados jamais prospera, mas aquele que confessa, alcança a misericórdia."

Os segredos podem destruir um casamento, uma carreira profissional promissora, ou mesmo uma vida inteira. Fora a destruição, junto vem a culpa de saber que o segredo poderia ter ajudado ou prejudicado outras pessoas, e você é o único que tem o poder de mudar vidas ao seu redor, simplesmente porque escolheu sozinho e de forma egoísta não assumir seus próprios erros.

Para mim, o livro fala justamente sobre por que é tão difícil assumir os próprios erros. Essa afirmação, além de intrigante, é também muito reveladora. Quando somos criticados ou quando alguém aponta alguma falha nossa, buscamos nos esconder atrás das muralhas da nossa própria mente. Tendemos a erguer o escudo e nos defender dos ataques alheios, mesmo sabendo que falhamos e agimos de forma errada. Nossa mente se fecha, ativa mecanismos neuro - defensores como se fosse uma verdadeira aranha armadeira, encurralada pelo seu pior inimigo, e pronta para dar o bote. Afinal a frase de que somos nossos próprios inimigos, é mesmo verdadeira, concordam?

Assumir os próprios erros soa, aos ouvidos alheios e para nós mesmos como fracasso. O fracasso fere nosso ego, e nos diminui perante uma sociedade que vive debaixo da máscara da mentira. Aqui volto para o inicio da reflexão, onde menciono que mentir é uma ferramenta de sobrevivência. Vivemos em um mundo mascarado de mentiras, onde ouvir certas verdades chega a ser um insulto ao nosso próprio orgulho. Somos muito apegados aos elogios, e nos esquecemos de que são as criticas que na verdade nos fortalecem e nos edificam. É preferível mil vezes ouvir uma verdade que doí, a uma mentira que literalmente mata. 

Assumir nossos próprios erros é abdicar da autossuficiência que nos prende. Sentir-se dono da verdade ou mesmo achar que sabe tudo é a pior ignorância que um homem pode ter. Quem nunca errou, também nunca descobriu algo.

Por que é tão difícil para um pai ou para uma mãe assumir seus erros diante de seus filhos? Por que é tão difícil assumirmos nossos erros perante nossas esposas e maridos? Por que será que o feedback assusta tanto as pessoas? Vergonha? Medo? Culpa?

Posso afirmar que neste livro você vai se deparar com muitos dilemas que envolvem os sentimentos de vergonha, medo e culpa, mas no final a lição que fica é que os fortes transformam seus erros em insumos para suas vitórias e aprendizados, e os fracos vivem sob os escombros dos seus próprios erros.

"Consciência é como uma pedra de três pontas, se agimos mal, a pedra rola, e a consciência doí. Mas se continuarmos agindo errado, a pedra esmerilha e já não há mais dor."

Minha nota: 9,0

quinta-feira, 16 de março de 2017

"Enquanto o ser humano der mais valor ao materialismo do que aos aspectos morais, o verdadeiro amor pouco há de existir." - Resenha do livro "O Som do Amor" - Jojo Moyes

Toda vez que começo a ler um livro da Jojo Moyes, me pego esperando uma narrativa emocionante e reflexiva. A autora sempre consegue através de seus personagens nos fazer pensar na nossa própria vida, e como nossas escolhas trazem consequências enormes e algumas lições muito valiosas. 

O Som do Amor nos faz refletir sobre união familiar, o valor de uma segunda chance, mas principalmente sobre materialismo e aquele tipo de ganância que corrói a alma. Invés de um romance arrebatador, encontramos nesta obra uma história de pessoas machucadas por um tipo de amor simbiótico e cruel, que mente, traí e subjuga. Eu diria que ao final deste livro, aprendemos um pouco mais sobre recomeços, que todos nós, maltratados ou não pela vida, merecemos. 

A história gira em torno da Casa Espanhola, uma construção antiga e maravilhosa situada no interior da Inglaterra, mas que por falta de cuidados está literalmente caindo aos pedaços. O velho proprietário da mansão, um senhor ranzinza e solitário, há anos recebe atenção e cuidados de sua jovem vizinha, Laura. Mesmo que para alguns, Laura e seu marido Matt pareçam caridosos e amorosos, no fundo o casal possui grandes planos para herdar a Casa Espanhola para si próprios. 

Todos os sonhos deste ambicioso casal acabam indo por água abaixo, quando chega à cidade, Isabel, uma jovem viúva e mãe de dois filhos, que acaba de herdar a Casa Espanhola após o falecimento repentino de seu antigo dono. 

Isabel se encontra em ruínas, e sem condições de manter o padrão de vida que sua família levava em Londres. Primeiro violino na Orquestra Sinfônica Municipal, Isabel tinha uma vida tranquila com seus dois filhos, Kitty e Thierry, mas tudo virou de cabeça para baixo quando seu marido Laurent morre em um acidente de carro, e deixa uma grande dívida para a sua família. Ao receber a notícia que herdou uma casa no interior, Isabel resolve colocar sua atual casa a venda, e se mudar com os filhos para a Casa Espanhola, que está em condições extremamente precárias, porém ela não sabe que Matt vai tentar a qualquer custo impedir que Isabel finque suas raízes na casa que ele acredita que lhe pertence. 

Ao longo do livro conhecemos muitas histórias e muitos personagens, todas eles sempre interligados pela Casa Espanhola, o verdadeiro objeto material responsável por todas as reviravoltas que nos deparamos capítulo a capítulo. Laura e Matt passam seus dias planejando projetos arquitetônicos e roteiros para grandes festas na Casa, porém possuem um casamento fracassado e vivem praticamente de aparências. Conhecemos também os típicos moradores simpáticos de uma cidade do interior, e como todos são afetados pela chegada de Isabel e seus filhos, além de nos aprofundarmos na história da própria jovem viúva e sua luta contra a depressão, seus filhos que carregam grandes traumas pela morte do pai, e personagens que ganham formas e nomes ao longo das páginas, todos almejando a Casa Espanhola por causa apenas de poder e dinheiro. 

Jojo Moyes consegue retratar o conceito de posse, mostrando ao leitor quanto um bem material pode corromper a alma humana. É incrível observar o que todos esses personagens estavam dispostos a fazer para possuir a Casa, e ao mesmo tempo é doloroso perceber o quanto a mente humana é suscetível ao erro por tão pouco. 

A grande protagonista desta história é Isabel. Acompanhamos sua insegurança e medo a cada página lida. Isabel é uma mulher que se encontra completamente perdida, não sabe fazer praticamente nada sozinha, pois passou a vida se dedicando apenas a música, e se vê em uma situação fatidicamente ruim, onde não tem controle nem sobre seus próprios filhos. Sozinha e desamparada em uma casa que está prestes a cair esfarelada no chão, Isabel tem que lidar com a falta de dinheiro, o desemprego, o fato de não conhecer seus filhos o quanto deveria, e milhões de responsabilidades. O ponto é que Isabel erra o tempo inteiro, se prioriza em muitos momentos, e literalmente foge da situação tocando seu violino para esquecer o que precisa ser alterado e realizado. Isabel nada mais é do que uma humana, repleta de erros e decisões mal tomadas, mas mesmo totalmente fragilizada e quebrada por dentro e por fora, nossa protagonista aos poucos vai descobrindo o real significado da vida, e passa a demonstrar pequenas forças dignas de algumas boas lágrimas. 

Quem somos nós para julgar Isabel e suas impensadas ações? Quantas vezes não fugimos de nossos problemas e colocamos todos eles como pó embaixo de um tapete, para depois resolver fazer uma faxina em nossas vidas?

É por causa da Casa Espanhola que Isabel amadurece, cria forças para superar o luto e passa aos poucos a conhecer os filhos de verdade, e principalmente a ouvir o próprio coração e entender seus sonhos aquém de sua música e seu violino. 

Claro que não vou entregar o final desta história e nem mencionar todos os personagens e como suas histórias se entrelaçam, o melhor do Som do Amor é ser surpreendido pelo seu desfecho digno, justo e bonito. 

Mas o que posso levar dessa obra é uma reflexão sobre valores. Durante nossa vida, aprendemos a valorizar coisas que não são fundamentais. Materialismo, poder, status e coisas deste tipo são o que infelizmente importam na nossa sociedade. O Som do Amor nos convida para uma verdadeira revolução de alma. 

É nesta revolução que eu pude tirar algumas boas lições: É preciso investir na alma, resgatar não só a natureza, mas o que é natural. Não filtrar as emoções, enriquecer a inveja, mas sim contabilizar as boas relações. Reciclar as relações ruins e preservar as boas e velhas amizades. Equipar o prazer, trabalhar com perseverança e vencer constantemente o cansaço da vida. Fazer a diferença sem precisar fazer propaganda disso. Resolver o que precisa ser resolvido sem alarde, usar o marketing da sinceridade e cobrar profissionalismo de todos. Maximizar energia, preservar recursos, renovar os estoques de sorrisos, canalizar sempre os bons pensamentos, abraçar e demostrar amor. Dizer não ao racismo, a intolerância, a discriminação, ser saudável fisicamente e mentalmente. Dar bons exemplos. Dizer sempre a verdade, principalmente para as crianças, para que elas cresçam sabendo o que é acreditar. E agradecer, sempre, por cada percalço, por cada conquista, por cada dia que vamos acordar e enfrentar a beleza que é viver. 

Casa Espanhola, você foi abrigo para muitas mudanças interiores dos personagens desta bela obra, afinal de contas a melhor reforma é a reforma da vida, aquela que temos constantemente a oportunidade de alterar, limpar e renovar.

Minha nota: 7,5