quinta-feira, 27 de outubro de 2016

"Ser atirada para dentro de uma vida totalmente diferente — ou, pelo menos, jogada com tanta força na vida de outra pessoa a ponto de parecer bater com a cara na janela dela — obriga a repensar sua ideia a respeito de quem você é. Ou sobre como os outros o veem." Resenha do livro "Nada mais a perder" - Jojo Moyes

Como você se sentiria se inesperadamente alguém batesse na sua porta e entrasse na sua casa sem ser convidado? Você o receberia de braços abertos e lhe ofereceria um café? Ou você lhe daria as costas?

É exatamente sobre estes tipos de decisões que Jojo Moyes majestosamente retrata em "Nada mais a perder". 

A primeira grande decisão a nos ser apresentada é em meados de 1950 através do olhar de Henri Lachapelle, um camponês francês que fora aceito no Le Cadre Noir, uma academia de extrema elite para cavalariços. Apesar de um talento nato para se comunicar com cavalos e executar acrobacias dignas de um filme, Henri resolve abandonar tudo para ficar com Florence, uma jovem inglesa que cruzou seu caminho sem mais nem menos. Desta relação, nasceu Simone, que mais para frente deu à luz a Sarah, a neta do casal, com quem passou a viver depois que a mãe resolveu se envolver no mundo das drogas. 

Henri carregou dentro de si, secretamente, um grande arrependimento pela decisão que havia tomado, e não queria para a neta um destino como o dele. Desta forma ele toma conhecimento que o bem mais precioso que poderia dar a Sarah era o seu enorme conhecimento sobre cavalos, talvez desta forma lhe proporcionando um passe para uma vida distante do caos de Londres. E foi assim, que Henri começou a treinar sua neta Sarah e seu cavalo Boo. 


Sarah cresceu passando mais tempo em meio ao estábulo do que fazendo qualquer outra coisa que uma pré adolescente faria. Suas tarefas diárias incluíam limpar a baia de Boo, levá-lo para esticar as patas e treinar movimentos precisos e muito difíceis para uma garota de sua idade. Ao completar 14 anos, Sarah ganha de seu avô um bilhete para uma viagem para a França, para assistirem ao vivo uma apresentação no Le Cadre Noir, escola que foi moradia para Henri durante muitos anos. 


Lembram-se da batida na porta? É neste momento que repentinamente seu avô sofre um derrame, e sozinha no mundo, Sarah precisa tomar a difícil decisão de fazer tudo para proteger seu bem mais precioso, seu cavalo. 

Neste ínterim, a segunda grande decisão do livro acontece com Natasha, uma advogada bem sucedida e com uma conta corrente extremamente poupuda. Natasha mora em uma casa dos sonhos, mas todos esses benesses não vieram sem um custo. Após quatro abortos espontâneos e uma carga de trabalho cada vez mais intensa, Mac, seu marido, desiste da relação, deixando Natasha sozinha e vivendo exclusivamente para seu trabalho, que envolve defender crianças abandonadas que buscam um lar ou um recomeço de vida. 

Passado um ano, quando Natasha de alguma forma tentava colocar sua vida nos eixos, Mac reaparece sem ter onde morar, e propõe a ex esposa a venda da casa, já que ele também tem direito a metade dela. Completamente desestabilizada pela situação, Natasha vai até um mercado local comprar um pouco de álcool, até porque quem nunca precisou de um pouco dele para afundar as mágoas? É neste momento que ela se depara com uma jovem sendo acusada de furto. Ao tentar ajudá-la, descobre que a mesma era menor de idade e estava morando sozinha, pois seu avô estava internado no hospital devido a um derrame. E por grandíssima ironia do destino, ao acionar o serviço social, Natasha fica sabendo que não havia nenhum lar disponível para abrigar a garota, e desta forma, em meio ao caos, Natasha resolve abrir a porta e deixar a menina entrar em sua vida. 

E é assim que as vidas de Sarah e Natasha se cruzam, criando uma enorme teia de motivações e decisões, permitindo que através de suas ações, nasça uma enorme lição de auto conhecimento.

Natasha decide abrigar Sarah por um tempo, até que seu avô se recupere, porém conhecendo crianças e adolescentes como ela conhece, Natasha percebe que Sarah está escondendo algo, e não consegue imaginar o tamanho da consequência deste segredo.

"As crianças não nos contam nada porque, na maioria das vezes, ninguém escuta mesmo."

O livro discorre sobre diversas óticas, sejam elas pertencentes a Sarah e Natasha, ou até mesmo Mac, onde acompanhamos como cada um lida com a convivência entre si, e com as decisões que ambos tomam conforme a história acontece. 

Nada mais a perder vai muito além do romance, e traz a tona uma reflexão muito profunda sobre quem somos, como somos e porque somos, e como uma simples abertura de uma porta pode trazer enormes consequências. 

Falar do que acontece com Sarah e qual seu grande mistério é entregar de bandeja toda a conclusão desta belíssima história, então vou deixar vocês com a reflexão do aprendizado que pude extrair deste livro:

A vida assim como o jogo, requer paciência e autenticidade em suas escolhas. Amor verdadeiro assim como o universo, é interminável e não cansa seu brilho prodigioso. A paixão assim como o fogo, aumenta a cada minuto, mas sempre há quem o apague. Família assim como estrelas, existem várias, mas só uma é capaz de reunir nossos sentimentos mais profundos. Amigos assim como bichinhos doentes, necessitam de cuidados especiais. 

Os mistérios assim como os segredos, também não deveriam ser revelados. A felicidade assim como os sonhos, nós almejamos a cada dia e corremos atrás até alcançarmos. O mar, por sua vez, também são como as relações com as pessoas que amamos. Ora está calmo, ora entra em alvoroço constante. 

Normalmente assim como a totalidade de poder, são poucas as pessoas que o possuem. Eu, assim como todo mundo, também sou gente, embora queira ser diferente, não me deixo levar por mudanças breves. 

Saudade é como não saber. Perdoar não é esquecer, e lembrar é querer reviver. Chorar não quer dizer emoção, e sorrir não é estar feliz. Nosso passado é a história que construímos, o presente é a história que ainda estamos vivenciando, e o futuro, ah, o futuro é totalmente incerto. Tudo pode ser um nada a ser descoberto, e as pequenas coisas acabam se tornando tudo. 

Possuir não quer dizer conquistar e amar não quer dizer ser amado. Tudo é relativo. Pensar não é entender, querer nem sempre é poder, e olhar nem sempre é enxergar. Ensinar pode ser repassar, mas repassar nem sempre assegura que o melhor irá acontecer. Sentir não quer dizer experimentar, afinal todo experimento tem sua consequência.

Sarah e Natasha não deixam de encarar todos esses desafios e aprendizados,  porque percebem no final das contas que encarar é passar por cima dos próprios medos. E medos são sentimentos que não nos permitem viver. Medo da morte, medo da solidão, medo de confiar, medo de ser julgada, medo de pedir ajuda, medo de expor as fraquezas, medo de assumir um sentimento, medo de tentar, medo de mudar, medo de cair, simplesmente medo...

Volto a perguntar: se alguém bater na sua porta, você prefere atende-la e lhe oferecer um café, ou por medo irá deixa-la fechada sem saber quem e o que poderia estar do outro lado? As vezes, uma oportunidade pode bater uma única vez na sua porta, e nunca se sabe qual será a consequência na escolha de abri-la ou não. Então porque não começar a se permitir abrir mais portas, e não deixar que o medo as mantenha sempre fechadas?

Afinal, às vezes são necessárias apenas algumas palavras de incetivo para reacender uma fagulha de confiança de que o futuro poderá ser maravilhoso, em vez de uma série infindável de obstáculos e decepções. A vida vale sim, muito a pena. 

Minha nota: 10

Obs.: Após o Epílogo, Jojo Moyes escreve sobre suas próprias motivações para escrever essa história, e eu peço encarecidamente que você leia, pois ela vale tanto a pena quanto o livro todo. 

Um comentário:

  1. Mais um texto incrível, acho sensacional como brinca com as palavras e constrói essas resenhas. Já passou da hora de resenhar sobre histórias de grandes autores e escrever a sua própria história.

    <3

    Sensacional!

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