quinta-feira, 10 de agosto de 2017

"Quanto tempo você esperaria pelo amor da sua vida?" - Resenha do livro "O Navio das Noivas" - Jojo Moyes

Jojo Moyes já declarou algumas vezes que gosta de criar personagens femininas fortes, mas foi durante uma despretensiosa conversa com a sua avó, que ela teve a inspiração para escrever O Navio das Noivas. A autora já era adulta quando descobriu a travessia que a avó australiana encarou para encontrar o marido após a Segunda Guerra Mundial. 

A partir desse bate papo, Jojo começou a imaginar um livro que falasse sobre a viagem dessas mulheres, que corajosamente embarcaram em um porta - aviões para rever os seus amores. Betty Mckee, avó de Jojo, tinha 22 anos quando decidiu abandonar a Austrália para reencontrar o namorado Eric, um oficial da Marina Escocesa com quem tinha convivido por apenas duas semanas. Betty viajou por quase dois meses com mais de 600 mulheres, que dividiam com ela o mesmo sonho: retomar a vida e encontrar os soldados por quem haviam se apaixonado antes do fim do conflito.
 

Com o relato da avó na cabeça, Jojo pesquisou o nome do navio (HMS Victorious), mas não conseguiu encontrar nada. Alguns dias depois, mesmo achando que talvez a avó estivesse equivocada, Jojo descobriu um livro sobre a embarcação e assim a trama de O Navio das Noivas começou a tomar forma. 

A autora deu início então a uma grande pesquisa. Coletou jornais de época que noticiaram a partida dessas mulheres, leu diários de bordo das viajantes, passou horas dentro da Biblioteca Nacional Inglesa e visitou o Imperiam War Museum, museu em Londres que reúne memórias da guerra. Assim surgiu a obra que vamos falar nesta resenha, originalmente publicada em 2005. 

O livro reúne as citações não ficcionais das esposas e dos oficiais que inspiraram Jojo a contar a história de quatro personagens fictícias que tiveram a mesma coragem de sua avó em 1946. O Navio das Noivas é um emocionante romance sobre o amor nos tempos de guerra. 

Em 1946, após o término da segunda guerra mundial, a Marina Real finalizou a etapa do repatriamento das esposas de guerra, aquelas mulheres e meninas que haviam se casado com oficiais ingleses em serviço no exterior, e que os tinham visto apenas algumas vezes, o suficiente para se apaixonarem perdidamente e idealizarem um futuro romântico juntos. 

A maioria dessas esposas deixadas para trás seguiram para o seu novo destino em navios de transporte de tropas, que foram transformados em cruzeiros de luxo para atenderem às suas necessidades femininas. No entanto, cerca de 655 australianas fizeram essa travessia a bordo do porta-aviões HMS Victoria. E é exatamente sobre este Navio e estas mulheres que o livro trata. 

Elas tiveram a companhia de mais de mil e cem homens, além de dezenove aviões, em uma viagem que durou aproximadamente seis semanas. Para comportar a nova tripulação, modificações foram feitas na embarcação que se encontrava decrépita. Os antigos elevadores foram transformados em novos dormitórios onde beliches foram instalados e um salão de beleza construído. Além disso, diariamente eram oferecidos cursos de pintura, corte e costura. Filmes eram transmitidos em um cinema improvisado e o capelão do local ministrava palestras ensinando àquelas mulheres como serem boas companheiras para os seus esposos. 

A histeria coletiva iniciou no momento em que elas embarcaram no Victoria. Enquanto umas demonstravam extrema felicidade, outras caíam aos prantos se dizendo estarem arrependidas. Quem afinal lhes garantiria uma vida plena e feliz assim que pisassem na Inglaterra?

Margaret era uma delas. Grávida e quase dando à luz, não se conformava de ter deixado o pai sozinho com os irmãos mais novos, sendo que morria de medo de ser mal recebida pela sogra, que não a conhecia. Para amenizar seu sofrimento, ela cometeu uma irregularidade muito grave ao levar a sua cachorrinha consigo. Tendo que lidar com as suas mudanças de temperamento em razão dos hormônios a flor da pele, o excesso de peso devido a gravidez e o estranhamento sentido em relação a si mesma, Margaret terá muito tempo para repensar acerca da gravidez, enquanto faz de tudo para deixar a sua cadelinha escondida e a salvo dentro do navio. 

Jean, por sua vez, está realizada. Finalmente livre das guarras da mãe, se sente muito a vontade em meio a tantos homens e não resiste em cantá-los o tempo todo, quando a sua pouca idade e postura sedutora em demasia a coloca em extremo risco. 

Avice está horrorizada com o cenário à sua frente. Vinda de uma família nobre, jurava que viajaria em um dos cruzeiros de luxo, e fez questão de levar todos os seus sapatos novos para causar inveja nas demais. Quando se viu presa em uma minúscula cabine com outras três caipiras e uma cachorra, enlouqueceu. Mas é claro que Avice não deixaria transparecer sua desgraça aos seus pais, a quem escrevia com frequência inventando mil mentiras sobre a sua "maravilhosa" estadia em alto mar. Para quem estava com um futuro traçado na ponta do lápis, Avice tem seu tapete arrancado debaixo de seus pés, e é uma das que terá o maior aprendizado nesta literalmente viagem da vida. 

Já Frances, esconde um grande segredo por trás de seu comportamento ilibado e reservado. Findada a guerra, estava indo para a Inglaterra em busca de um novo emprego, como enfermeira, e carrega na bagagem uma vasta experiência por conta dos campos de batalha. Mal sabia ela que o maior desafio que iria enfrentar seria ali, naquele navio, e que para recomeçar, teria que de uma vez por todas fazer as pazes com o seu passado. 

Narrado em terceira pessoa, O Navio das Noivas começa com um prólogo interessante, em que conhecemos uma senhora que está viajando nos dias atuais com a neta pela Índia, e em um dos passeios, se depara com a carcaça do Victoria e passa muito mal. É a partir deste incidente que a história é contada e mergulhamos no ano de 1946 e somos apresentados a Margaret, Jean, Avice e Frances. 

Durante a leitura acompanhamos a rotina e o funcionamento do Victoria, bem como tomamos conhecimento sobre a sua trajetória, ganhos e perdas. A sensação é que também estamos a bordo, sentindo o calor escorrendo pelo corpo devido as altas temperaturas relatadas, ouvindo as incessantes instruções e anúncios no alto-falante, operando os gigantes motores na sala de máquinas e curtindo noites de bebedeiras e pôquer nas cabines dos subalternos. 

Outro ponto interessante de atenção é o relacionamento que vai sendo construído entre os homens e as mulheres, que são obrigados a dividir o pequeno espaço do navio por muitas semanas. De inicio, as jovens senhoras eram vistas com olhos de preconceito, como objetos e cargas a serem transportadas. É nítido como elas são inferiorizadas, ridicularizadas e não levadas a sério, apenas por terem nascido com o sexo feminino. 

Enquanto eu rumava para o final do livro, consegui identificar afinal quem era a protagonista da história, a senhora do começo do livro que entra em choque na Índia ao ver um destroço do navio, e tudo vai se encaixando de uma maneira muito simples, porém extremamente carregada de sentimentos. O Navio das Noivas nos mostra, de maneira muito delicada, profunda e inteligente, o quanto as guerras são capazes de transformar pessoas, para o bem e para o mal, deixando muitas ocas por dentro, sem rumo e sem esperanças. 

Mas, mas do que isso, o livro fala exatamente sobre esperança. 

A esperança corresponde à aspiração de felicidade existente no coração de cada pessoa. Interessante observar que quem perde a esperança mais profunda perde o sentida de sua vida. A esperança é a vacina contra o desânimo e contra a possibilidade de invasão do egoísmo, porque apoiados nela nos dedicamos a construção de um mundo melhor. A esperança é o combustível da vida. Ninguém vive se não espera por algo bom, que seja bem melhor do que o que já conhece, já possui ou já experimentou. 

Verdade seja dita, nenhum de nós sabe como será o dia de amanhã, mas talvez aí esteja afinal a beleza da vida. Em se sonhar com o desconhecido e dar o melhor de nós para tal. Essa é a lição que Jojo nos passa de uma forma belíssima através de quatro mulheres fortes e presas a esperança de dias melhores. 

Que não nos falte esperanças, e força suficiente para encarar o desconhecido, e desta forma tornar os nossos sonhos em realidade. 

Minha nota: 8,5




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